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Márcio Filho

Presidente da Associação de Criadores de Jogos do Rio de Janeiro (ACJOGOS-RJ) e diretor executivo da GF CORP, empresa voltada para soluções gamificadas.

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Quando teremos um “O Agente Secreto” dos games brasileiros?

A vitória do cinema prova o valor do fomento. Por que os games seguem em 'pause'?

Quando teremos um “O Agente Secreto” dos games brasileiros? (Foto: REUTERS/Claudia Greco)

O Brasil acordou em festa com a consagração de O Agente Secreto e Wagner Moura no Globo de Ouro. É um momento de orgulho genuíno, mas também uma lição profunda sobre o que acontece quando um país decide, como política de Estado, investir na sua própria imagem. A vitória histórica de ontem não foi um "golpe de sorte"; foi o resultado de décadas de fomento e de um Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) - criado pela Lei nº 11.437, de 28.12.2006 e regulamentado pelo Decreto nº 6.299, de 12.12.2007- que entendeu que a cultura é um ativo estratégico de soberania.

Enquanto celebramos o tapete vermelho, a pergunta que faço como articulador do setor de tecnologia e inovação é: quando teremos o nosso “O Agente Secreto” nos videogames?

A resposta não reside na falta de talento. Pelo contrário. Temos desenvolvedores brasileiros premiados nos maiores festivais do mundo, criando obras que fundem folclore, crítica social e mecânicas brilhantes. O que nos falta não é "punch" criativo, é o suporte sistêmico que o cinema, com muita luta, já conquistou. Para se ter uma ideia, o longa de Kleber Mendonça Filho contou com R$ 7,5 milhões em investimentos diretos do FSA via Ancine, além de um aporte recente de R$ 800 mil do governo federal especificamente para a campanha de promoção internacional.

Isso é política pública de ponta a ponta: fomento à produção e fomento à exportação.

No ano passado, demos um passo histórico com a sanção do Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos (Lei 14.852/2024). Pela primeira vez, os games foram reconhecidos por lei como parte integrante da nossa cultura e economia. No papel, o jogo virou. Na prática, porém, o setor parece preso em uma eterna "tela de carregamento".

A atuação do Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual (CGFSA) tem sido, para dizer o mínimo, claudicante no que diz respeito aos games. Existe uma barreira invisível, quase geracional, que impede as instituições de entenderem que o videogame é o audiovisual do século XXI. É uma mídia que fatura globalmente mais do que o cinema e a música somados, mas que, no Brasil, ainda é tratada como um "parente distante" na hora da partilha dos recursos de fomento.

Tratar os jogos de forma secundária é um erro crasso de cálculo político e econômico. Quando o Estado falha em investir no desenvolvedor nacional, ele abdica da nossa soberania digital. Estamos entregando o imaginário da nossa juventude a plataformas estrangeiras e perdendo a chance de exportar o "soft power" brasileiro em uma escala sem precedentes. Sem investimento robusto e recorrente, como o que viabilizou o sucesso de Wagner Moura, não há escala; sem escala, dificilmente ocuparemos o centro do palco mundial.

O sucesso de O Agente Secreto prova que o mundo tem sede de Brasil. Mas, para que possamos ver um estúdio brasileiro subindo ao palco para receber o prêmio de "Jogo do Ano", precisamos que o governo tire o setor de games do banco de reservas.

Não basta ter uma lei debaixo do braço; é preciso que os editais fluam e que a burocracia pare de "travar o console" do produtor independente. O Marco Legal foi o nosso tutorial. Agora, precisamos de orçamento e execução política para jogar a partida de verdade.

Afinal, se o cinema brasileiro já provou que pode vencer o jogo no "nível hardcore", por que continuaríamos negando aos games o controle para fazer o mesmo?

*Márcio Filho é presidente da Associação de Criadores de Jogos do Rio de Janeiro (ACJOGOS-RJ) e diretor executivo da GF CORP, empresa voltada para soluções gamificadas. Com uma trajetória sólida que abrange mais de duas décadas, destaca-se pelo seu engajamento social em defesa de políticas públicas voltadas para o setor de jogos, como na participação ativa na aprovação do Marco Legal dos Games. É especialista em Games e Sociedade, e atua diretamente no desenvolvimento de tecnologias enquanto potencializadoras da educação.

Fontes para consulta:

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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