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Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

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Quando uma guerra ofusca outras tragédias atuais

A agenda da mídia muda na velocidade da luz: uma guerra ofusca a outra, mesmo que a anterior ainda esteja em vigor

Boa parte de Gaza ainda se encontra em ruínas (Foto: Foto Maxime Le Lijour WFP-ONU)

Por Sergio Ferrari - O conflito que eclodiu em Gaza, em outubro de 2023, parece ter relegado para segundo plano o confronto entre Rússia e Ucrânia, que eclodiu em fevereiro de 2022. No entanto, o impacto letal desta última não diminuiu em nada.

Algo semelhante está acontecendo com a agressão de Israel e Estados Unidos contra o Irã e o Líbano, desencadeada em 28 de fevereiro deste ano: de forma alguma isso pode esconder o desastre humanitário que a população palestina continua sofrendo. Entre esse dia e a segunda semana de abril, 200 palestinos foram mortos em Gaza devido a bombardeios aéreos, de artilharia e drones. Enquanto isso, na Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental), entre outubro de 2025 e abril deste ano, 22 palestinos, incluindo várias crianças, foram assassinados. Esses números, fornecidos pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), confirmam que pelo menos seis desses palestinos foram mortos por colonos israelenses, "que realizaram ataques diários, muitas vezes com apoio militar israelense" e estabeleceram novos postos avançados na região, o que gerou ainda mais violência. A OCHA alerta sobre o uso crescente de violência sexual e de gênero por colonos israelenses, que agem impunemente para intimidar e expulsar palestinos de suas terras.

As vítimas fatais da agressão contra a Palestina desde outubro de 2023 somam mais de 72 mil, a grande maioria civis; entre eles, pelo menos 20 mil meninas e meninos. Os feridos ultrapassam 171 mil. Segundo a agência de notícias Europa Press International, desde o chamado cessar das hostilidades e até o final de janeiro de 2026, outros 485 palestinos foram mortos (https://www.europapress.es/internacional/noticia-mueren-dos-palestinos-nuevos-ataques-israel-gaza-pesar-alto-fuego-vigor-20260126113332.html).

Cessar-fogo "apenas no nome"

A situação atual da população palestina, segundo a Comissão Internacional Independente de Investigação das Nações Unidas sobre o Território Palestino Ocupado (incluindo Jerusalém Oriental) e Israel, é "chocante", como pode ser visto pelos resultados alarmantes da assistência médica limitada, da insegurança alimentar e da habitação inadequada naquela região, afetando especialmente os mais vulneráveis. Essa situação é agravada pela decisão do governo israelense de fechar ou restringir as passagens fronteiriças, o que afeta significativamente a chegada de suprimentos humanitários aos setores mais afetados pelo conflito. Além disso, as evacuações por motivos médicos foram quase totalmente interrompidas e pessoas deslocadas internamente não conseguiram retornar aos seus locais de origem (https://news.un.org/es/story/2026/04/1541325).Estabelecida em maio de 2021 pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas para investigar supostas violações do direito internacional humanitário no Território Palestino Ocupado (incluindo Jerusalém Oriental) e em Israel, essa Comissão também teve o mandato de "investigar todas as causas subjacentes das tensões recorrentes, a instabilidade e o prolongamento do conflito, bem como a discriminação e a repressão sistemática baseada na identidade nacional, étnica, racial ou religiosa" (https://www.ohchr.org/en/hr-bodies/hrc/co-israel/index).Um fator adicional particularmente alarmante nesse conflito, segundo a Comissão, é a lei que o parlamento israelense aprovou no final de março sobre a pena de morte por enforcamento para palestinos condenados por assassinato em ações consideradas terroristas (https://www.bbc.com/mundo/articles/c895g22n1qvo).

Nesse preocupante contexto palestino, Philippe Lazzarini, chefe da Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA), argumentou que o que prevalece hoje é "um cessar-fogo apenas no nome".

Segundo Lazzarini, cujo mandato termina em junho próximo, apesar da trégua vigente, a população palestina continua enfrentando violência, deslocamentos e condições extremas de vida impostas por Israel. Por outro lado, milhões de crianças não têm acesso à educação. "Se não agirmos", alertou, "corremos o risco de criar uma geração marcada pela amargura e pela radicalização". Uma tragédia que não respeita nenhum tipo de fronteira, como evidenciado pelo fato de que mais de 400 funcionários de sua agência foram assassinados no exercício de suas funções, de outubro de 2023 até o presente (https://news.un.org/es/story/2026/03/1541297).

Fracasso à vista, segundo a sociedade civil

O plano para o cessar das hostilidades em Gaza, promovido pelo governo Donald Trump e apoiado pela Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, "está fracassando". Essa é a conclusão de um relatório publicado conjuntamente, em 2 de abril, pelo Conselho Dinamarquês para os Refugiados, pelo Conselho Norueguês para os Refugiados, pela Oxfam, por Refugees International e por Save the Children. O relatório, que visa avaliar o progresso em direção aos objetivos do Plano em matéria de proteção de civis, acesso humanitário, reconstrução e desenvolvimento econômico, bem como liberdade de circulação e retorno, conclui que, seis meses após sua assinatura, "a implementação desses compromissos-chave, infelizmente, está falhando", como tem-se evidenciado pelas privações extremas, pela fome, pelos feridos e mortos da população palestina devido aos ataques incessantes do governo israelense. Assim como às restrições à circulação e aos obstáculos à entrada de ajuda humanitária pelos diferentes postos fronteiriços.O pesquisador e professor americano Jeremy Konyndyk, presidente da Refugees International, reafirmou que "continuamos vendo a mesma privação deliberada [em vigor] durante as hostilidades". Diretor do Escritório dos EUA para a Assistência a Desastres no Exterior durante a presidência de Barak Obama, Konyndik argumenta que o drama da desnutrição e das mortes evitáveis entre palestinos se deve ao fato de que muitos deles não têm acesso estável a alimentos ou a serviços básicos. "Tanto os termos do acordo quanto os princípios fundamentais do direito internacional humanitário", insiste, "exigem que a ajuda entre em Gaza e que as organizações humanitárias possam trabalhar para salvar vidas... O acordo assinado no ano passado incluía esse compromisso; chegou a hora de cumpri-lo".Por sua vez, amplos setores da sociedade civil europeia lançaram a Flotilha da Solidariedade com Gaza, em meados de abril. Cerca de 70 barcos e mais de mil participantes –números que podem aumentar até a chegada às costas palestinas– compõem a chamada Global Sumud(*), considerada por seus organizadores como a maior já promovida até hoje.Segundo analistas europeus, a flotilla atual apresenta dois aspectos relevantes. Primeiro, a dimensão: após algumas escalas em portos do Mediterrâneo, a iniciativa poderia reunir cem barcos. Além disso, a situação em Gaza, Palestina e Oriente Médio deteriorou-se rapidamente nos últimos meses. Global Sumud expressa uma nova forma de pressão da sociedade civil internacional diante da falta de respostas políticas dialogadas e pacificadoras. Os promotores consideram muito possível que a marinha israelense intercepte a flotilha. Mas essa iniciativa atualiza o debate político, midiático e diplomático sobre a violação dos direitos humanos básicos e do direito internacional pelas autoridades israelenses contra a população palestina.

O pavio do barril de pólvora

Desde o início do conflito russo-ucraniano, em fevereiro de 2022, em pouco mais de quatro anos a Europa Oriental e o Oriente Médio têm passado por uma das fases mais complexas e belicistas de sua história recente. Algo como uma cadeia destrutiva onde os elos do conflito, aparentemente independentes uns dos outros, se vão adicionando e prolongando. Nessa fórmula, os enormes interesses da grande indústria armamentista desempenham um papel essencial.

As ambições geopolíticas de duas das grandes potências (Rússia e Estados Unidos) e de seus aliados operacionais (principalmente Israel, no Oriente Médio) também explicam em parte essa espiral crescente de conflito. Uma chave adicional para a interpretação é a disputa pelos combustíveis e o impacto que eles têm em ambos os conflitos, especialmente na Europa Oriental e no Irã.

Ao mesmo tempo, o resto do mundo contempla, atônito, o impacto indireto que, diariamente, essas guerras têm em suas economias: aumento dos preços dos alimentos e dos combustíveis, instabilidade financeira em nível macro, corridas agonizantes nos mercados de ações, aumento dos orçamentos militares e queda dos Estados sociais. Preocupado, perplexo, atordoado: parece que nunca como hoje o planeta brinca com fogo e arrisca sua própria existência, caminhando para um novo confronto mundial, o terceiro. Haverá vencedores?

Tradução: Rose Lima.

(*) NdT: Sumud é uma palavra árabe que significa "firmeza" ou "perseverança", representando a resistência cultural palestina. A Flotilha Global Sumud é uma enorme missão civil internacional que inclui milhares de participantes de dezenas de países (médicos, enfermeiros e construtores) e busca romper o bloqueio israelense na Faixa de Gaza. Essa coalizão da sociedade civil busca fornecer ajuda humanitária (suprimentos essenciais e apoio à reconstrução), resistir de forma não violenta e estabelecer uma presença civil permanente na região. Missão Atual (2026): Uma flotilha partiu de Barcelona em abril de 2026 com o objetivo de chegar a Gaza. Missão Anterior (2025): Em outubro de 2025, uma flotilha anterior foi interceptada por forças israelenses em águas internacionais, resultando na detenção de centenas de participantes.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.