Quanto vale ou é por quilo?

Se o PT se atirar aos braços da direita, ainda que essa realize seu principal desejo, ela acabará por fazer-lhe mais mal do que bem. E ainda corre o risco de ser lembrado, no futuro, como aquele partido que acolheu o PMDB e foi traído; estendeu às mãos a Paulo Maluf (PP) e foi preso; e que apoiou um partido que articula a continuidade do golpe em curso no país

O deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) foi eleito para presidente da comissão especial da Reforma Política durante reunião de instalação da comissão (Luis Macedo/Câmara dos Deputados)
O deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) foi eleito para presidente da comissão especial da Reforma Política durante reunião de instalação da comissão (Luis Macedo/Câmara dos Deputados) (Foto: Décio Junior)
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Ao sinalizar um possível apoio ao deputado Rodrigo Maia (DEM) no processo de escolha do novo presidente da Câmara, o Partido dos Trabalhadores provoca uma discussão entre seus representantes eleitos e militantes, que certamente dificulta a retomada de reconstrução do partido - se é que o PT quer realmente discutir essa retomada de conceitos ideológicos e políticos.

O PT errou ao sustentar a candidatura do deputado Arlindo Chinaglia, quando deveria ter feito um acordo com o PMDB na escolha de um candidato que não fosse Eduardo Cunha, que acabou por vencer o pleito em 2015.

Traído por seu maior aliado, o PMDB, e massacrado por outros partidos da coalizão que construiu ao longo dos 14 anos que esteve à frente do poder, o PT terá agora que decidir: apoiar um dos precussores do golpe ou voltar-se à esquerda e sustentar a candidatura de Luiza Erundina (PSOL), cujo partido se posicionou contra o governo da presidenta Dilma, mas que vem mantendo a sua base ideológica.

Maquiavel aponta que é necessário cuidar para que os vícios não coloquem em risco a própria reputação. Apoiar o candidato do Democratas não é buscar o bem-estar moral, mas criar uma armadilha para a sua própria ruína. Tudo isso sob o argumento de que Maia estaria disposto a dar andamento ao processo de cassação de Eduardo Cunha e seria um presidente que não se submeteria a todas as vontades do Planalto. Quem acredita nisso? O PT estaria pagando um preço alto demais.

Rodrigo Maia representa a escória da política e da direita brasileira representada pelo partido Democratas, historicamente ligado às ações neoliberais do PSDB, desde a sua origem como Partido da Frente Liberal (PFL), que foi sustentado por outros abutres políticos.

Ocorre que a sede de vingança pela cabeça de Eduardo Cunha cega o PT, que parece se esquecer de todas as traições pela qual já passou. 

Com o discurso de acabar com o inimigo, se desvincula das tradições dos movimentos dos trabalhadores expostos desde o Manifesto do Partido Comunista, até as suas origens nos movimentos sindicais, já que o apoio a Maia significa validar a articulação da direita em dar prosseguimento a pautas que tratam do ajuste fiscal, que afronta os trabalhadores e aposentados e prejudica a retomada do crescimento econômico. 

Florestan Fernandes dizia que o Poder Legislativo têm sua responsabilidade sobre essas questões e deve estar aparelhado para levar soluções aos que estão na base do sistema de poder. Maia seria capaz de estabelecer essa ligação com a massa dos cidadãos?

Se o PT se atirar aos braços da direita, ainda que essa realize seu principal desejo, ela acabará por fazer-lhe mais mal do que bem. E ainda corre o risco de ser lembrado, no futuro, como aquele partido que acolheu o PMDB e foi traído; estendeu às mãos a Paulo Maluf (PP) e foi preso; e que apoiou um partido que articula a continuidade do golpe em curso no país.

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