¿Qué está pasando en Bolivia?
O desfecho para mais essa crise no Estado Plurinacional da Bolívia passa, necessariamente, por um novo processo eleitoral
Dentre as experiências com campanhas eleitorais nesses 30 anos de caminhada, as eleições bolivianas de 2019 foram, sem sombra de dúvida, as que mais me ensinaram. O povo boliviano é singular. Forjado, em sua imensa maioria, no debate político cotidiano. De um pueblito remoto aos trabalhadores das minas de prata e estanho, passando pelas mulheres campesinas das comunidades andinas, o debate é intenso, o sentimento de pertencimento a uma nação e a uma história é profundo e visceral.
É essa formação política que vemos hoje dando forma e força ao movimento que há dias paralisa o país. Marchas e piquetes em vários pontos - da medialuna ao altiplano -, exigindo a mudança de rumos do atual governo e, dada a sua fragilidade crescente e a percepção popular de que ele não resolverá nada, sua renúncia.
As medidas adotadas pelo governo de Rodrigo Paz desde sua recente posse são o estopim dessa indignação. Uma política agrária que favorece o agronegócio em detrimento das comunidades originárias e dos pequenos produtores, cortes em subsídios historicamente conquistados e o abandono de programas sociais estruturantes escancararam a orientação de um governo que, na prática, virou as costas para a maioria boliviana. O resultado chegou rápido e brutal: as noticiais que me chegam desde La Paz é de que um quilo de frango triplicou de preço. Há desabastecimento generalizado de combustíveis. Faltam oxigênio e medicamentos nos hospitais públicos. Frutas e verduras simplesmente sumiram das feiras populares.
A percepção de parcela significativa dos bolivianos é de que Paz não carrega autoridade política nem capacidade técnica para colocar em prática um plano econômico que faça o país voltar a se mover como fazia anos atrás, quando liderava os índices de crescimento em toda a América Latina - e chegou a zerar a extrema pobreza em algumas regiões.
Os rumores de um acordo silencioso com o governo norte-americano e a retomada da presença de agentes da DEA - a agência antidrogas dos Estados Unidos, historicamente associada à interferência política na região - tornam as negociações entre manifestantes e governo ainda mais difíceis. Se há uma coisa que bate forte no coração dos bolivianos, é sua soberania. Isso não é retórica: é memória viva.
É preciso desmistificar, ainda, a narrativa que adversários tentam impor para deslegitimar o movimento. As mobilizações não são - como alguns insistem em fazer crer - uma operação orquestrada por Evo Morales. Elas emergem das entranhas das organizações sociais e sindicais bolivianas: a Federación Nacional de Mujeres Campesinas Indígenas Originarias de Bolivia, conhecidas como Bartolinas, com sua histórica capacidade de mobilização nas comunidades rurais; as federações de trabalhadores mineiros, que voltaram às ruas com a mesma combatividade de décadas atrás; as centrais de trabalhadores urbanos e as organizações indígenas do oriente e do ocidente do país. São esses corpos organizados, com agenda própria e autonomia real, que estão nas ruas. Evo pode simbolizar algo para eles - mas não os comanda.
O desfecho para mais essa crise no Estado Plurinacional da Bolívia passa, necessariamente, por um novo processo eleitoral. Limpo, sem vícios e sem vetos. Um processo em que a soberania popular seja garantida sem interferências estrangeiras e sem a névoa das fake news a fabricarem opiniões. E isso significa, gostem ou não, a participação de Evo Morales na cédula eleitoral. Excluí-lo seria repetir o erro - e o crime - de 2019, que o depôs em um golpe, e na última eleição, em que o impediram de concorrer. A Bolívia não merece mais isso. O povo boliviano já mostrou que sabe escolher. Que lhe deem essa chance, de novo, sem tutelas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

