"Que não sejam negros”, por favor!

Bom seria se essa polêmica gerasse, por parte dos envolvidos, uma bela ação contra o racismo. Que tal levar a sério, Boutique, Netflix e +Add Casting, e aproveitar a oportunidade para montar um grande banco de talentos de atrizes e atores negros?

Boutique Filmes é a produtora da série “3%” que irá estrear no canal digital Netflix em 2016. Para a contratação de elenco, a Boutique chamou a +Add Casting que estava tendo dificuldades para fazer o seu trabalho porque os negros, por sua vez, não conseguem ser muito bonitos.

Diante de sua angústia na tarefa recebida, a +Add Casting enviou o seguinte texto por e-mail para atrair candidatos à seleção de elenco: “Precisamos de um ator jovem, na faixa dos 20, 25 anos, muito bonito. A direção gostaria que ele fosse negro, então o ideal seria ter um ator negro e muito bonito, mas consciente do grau de dificuldade, faremos teste também com os bons atores, lindos, que não sejam negros”.

"Lindos, que não sejam negros".

Não precisa de explicação. No Brasil, quando você diz que uma pessoa é linda, obviamente não se está falando de um negro. Todo mundo sabe. Qualquer criança negra de seus quatro, cinco anos de idade já sabe que melhor seria se não fosse negra. Quando você vai dizer que um negro é lindo, gramatical e semanticamente, o certo é colocar um “mas” nessa oração.

O obstáculo é a Língua Portuguesa. Não é de agora que o racismo, no Brasil, é colocado como um problema de interpretação de texto. Temos dificuldade de interpretar textos em várias fases da vida acadêmica dos brasileiros. Uma pena!

Bom seria se essa polêmica gerasse, por parte dos envolvidos, uma bela ação contra o racismo. Que tal levar a sério, Boutique, Netflix e +Add Casting, e aproveitar a oportunidade para montar um grande banco de talentos de atrizes e atores negros? Ficaria provado que o lance é falta de interesse em colocar negros nessa posição.

No entanto, a +Add Casting também acha que foi tudo uma questão de Português. Em um trecho do seu pedido de desculpas publicado no Facebook, ela explica o que aconteceu: o “teor foi equivocadamente mal interpretado como racista e acabou circulando nas redes sociais. Lamentamos sinceramente este e-mail”.

Lamentamos que vocês tenham nascido negros e esperamos que vocês não sejam negros de achar que tudo é racismo. Em bom Português brasileiro, a frase ficaria bem mais clara dessa forma. A questão é que muitas vezes as ironias não são bem interpretadas nesse país. 

 

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