Que País é esse?

A pandemia do coronavírus apenas sacramentou o caos. Um outro vírus, político, tão nefasto quanto o covid-19, já estava inoculado. A avalanche de ruínas e catástrofes se avizinha. Sim, viveremos tempos sombrios

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O ex-capitão Messias conseguiu a quase unanimidade. Com isso, a máxima do escritor, jornalista e teatrólogo, Nelson Rodrigues, “que toda unanimidade é burra”, continua válida. Exceto os néscios que nos jogaram nesta aventura, líderes políticos, médicos, cientistas e jornalistas ao redor do planeta, além de milhões de brasileiros, assistem e desaprovam a ópera bufa que diariamente Messias encena no planalto central. 

O festival de besteiras que assola o país – o Febeapá, de Stanislaw Ponte Preta, em sua nova versão – se repete todas as manhãs no portão da residência oficial. Dividido entre o ridículo e o medíocre, grupos de populares devidamente escolhidos se revezam para aplaudir o artífice da insensatez verde-amarelo. 

Matéria publicada na revista britânica The Economist, desta semana, põem em dúvida a sanidade mental do presidente de plantão. Segundo o periódico, apenas quatro governantes do mundo continuam negando a ameaça à saúde pública representada pela covid-19. Dois são destroços da antiga União Soviética, os déspotas da Bielorrússia e do Turquemenistão. O terceiro é Daniel Ortega, ex-guerrilheiro e agora convertido a ditador tropical da Nicarágua. O outro é Jair Bolsonaro, “presidente de uma grande democracia”, ainda que maltratada, chamada Brasil.

Dizer que Messias representa a Nação é faltar com a verdade. Repetir o velho chavão que “cada povo tem o governo que merece” seria um desrespeito com os milhões de brasileiros e brasileiras que se espremem diariamente nos trens, metrôs e ônibus para, ao final do mês, sobreviver com a injusta e mísera paga que recebem. Menos ainda afirmar que “o brasileiro não sabe votar”.

Sua eleição em 2018 não foi apenas um equívoco eleitoral, tampouco uma expectativa frustrada pela desilusão da sociedade com a classe política. Foi uma trapaça gerada e arquitetada pelas elites empresariais, por setores do Judiciário e do Ministério Público Federal. Um conluio que visava única e tão somente afastar o ex-presidente Lula da disputa. As manifestações de 2013, quando milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra a Copa do Mundo no Brasil, foi o lance inicial de um intrincado jogo de xadrez que culminou com a Operação Lava Jato, cujo magistrado, uma espécie de inquisidor-mor da República de Curitiba, Sérgio Moro, recebeu como prêmio o Ministério da Justiça. 

Na prática, o que se viu nesta eleição foi um vale tudo vergonhoso pelo uso das redes sociais como armas de guerra não convencional. As mídias sociais e as tecnologias, reforçadas pela televisão, rádio e imprensa escrita, guiadas como armas de ataques cirúrgicos puseram a nocaute a democracia e os valores republicanos duramente conquistados. Somados, veio a reboque o discurso nacionalista dos empresários interessados na privatização do setor público e as forças conservadoras lideradas pelas facções fundamentalistas das igrejas evangélicas – notadamente as alas neopentecostais.  

Bastou para que uma legião de eleitores desiludidos pela velha política carcomida por promessas não realizadas, pela corrupção, pela falta de expectativa no médio prazo, fosse usada como massa de manobra. Ironicamente, o que se implementou nesta multidão de neófitos foi o que o jornalista e cientista político, Andrew Korybko, chamou de “vírus político”. Para ele, nestas situações, o vírus personalizado e disseminado para atender os interesses das elites potencializa a teoria do caos e contamina os indivíduos para que possam subverter o sistema social e político. “Uma vez que encontre a ‘vítima’, ele espalhará ativamente suas ideias para outras pessoas, causando então uma ‘epidemia política’”. 

O que sobrou desta mixórdia foi um presidente desqualificado para a função, um títere manipulado por “forças ocultas”, cujos filhos, sustentados por milícias e fanáticos ideológicos, governam e disseminam ódio e violência. Um governo desumano, sem qualquer compromisso social com as classes mais pobres. 

A pandemia do coronavírus apenas sacramentou o caos. Um outro vírus, político, tão nefasto quanto o covid-19, já estava inoculado. A avalanche de ruínas e catástrofes se avizinha. Sim, viveremos tempos sombrios. 

Se estivesse vivo, o brasiliense Renato Russo certamente iria insistir: que país é esse? 

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