Que país é este?

A conjuntura atual é propícia para uma grande campanha oposicionista em torno do fora Bolsonaro, mas os principais partidos de esquerda e a oposição democrática estão paralisados

(Foto: Marcos Corrêa - PR)

Definitivamente, o Brasil não é para principiantes. Nos últimos sete dias a família Bolsonaro cometeu e confessou diversos crimes. Eduardo Bolsonaro, em entrevista à jornalista Leda Nagle, ameaçou a já frágil democracia brasileira com um novo AI-5 e, pasmem senhores!, a jornalista não demonstrou nenhuma estranheza com este fato. Depois, pelas redes sociais, divulgou vídeo dizendo que “maioria das pesssoas entendeu o que eu quis dizer” (sic), que estava levantando uma hipótese sobre uma reação popular contra o governo do seu pai que deveria ser rechaçada na base da violência. Ele tem razão: a grande maioria dos brasileiros já entendeu que ele é um fascista-entreguista-traidor do povo brasileiro que flerta com a ditadura, com o beneplácito das instituições que deveriam zelar pela democracia, sobretudo o STF, o Legislativo e o Ministério Público que, como os três macaquinhos da história, nada veem, nada ouvem, nada falam.

Flávio Bolsonaro está cada vez mais afundado na “crise Queiroz”, contando com a inoperância conivente das mesmas instituições acima citadas para continuar livre.

Carluxo e Bolsonaro confessaram em rede nacional e nas redes sociais o crime de obstrução de justiça. A Justiça, conivente como sempre, não se manifestou. Bolsonaro contra-atacou os veículos de comunicação que repercutiram suas trapalhadas ameaçando o grupo Globo e a Folha de São Paulo. 

O Procurador Geral da República, Augusto Aras, assumiu formalmente suas novas funções em 26 de setembro e permaneceu calado diante de todos esses crimes. Contudo, no dia cinco de novembro rompeu o silêncio e veio a público reclamar da “carga de trabalho desumana” a que ele e os procuradores estão submetidos e levantou, brava e corajosamente, sua voz para defender “férias de dois meses” para os pobres coitados dos procuradores. Nosso corajoso e combativo PGR falou algo sobre as confissões de crime de Carlos e Jair Bolsonaro? Nada. E sobre o AI-5 de Eduardo? Menos ainda.

Nos dias seguintes às declarações polêmicas de pai e filho, nas manchetes dos jornalões no final de semana, celebração da entrega do pré-sal, apoio à política econômica entreguista e impopular do Paulo Guedes e nada sobre a confissão de crime e nem sobre o AI-5 do filho mimado.

Ameaçada por Jair Bolsonaro e Folha de São Paulo teve a desfaçatez de lançar a campanha “apoie a democracia. Assine a Folha” como se fosse uma grande lutadora em prol da democracia. A Folha, assim como o grupo Globo e o Estadão, apoiou o golpe de 1964 e o golpe de 2016. Ela se define como defensora da democracia, mas apoia toda a agenda econômica do governo Bolsonaro e não se acanha em apoiar golpes de Estado sempre que achar “necessário” porque isto faz parte seu DNA.

O grupo Globo que atacou Bolsonaro nos veículos que controla não foi adiante na denúncia como deveria. A briga entre Bolsonaro, os jornalões e a tevê Globo é superficial e, a menos que Bolsonaro tome uma atitude muito agressiva contra estas empresas, não deve evoluir porque Jair é o responsável por implementar a agenda impopular que estas empresas defendem e propagam.

Para tirar o foco das ilegalidades do governo, o MPF e a PF lançaram cortinas de fumaça. A PF pediu a prisão de Dilma Rousseff, de Guido Mantega e de Eunício de Oliveira pelo suposto crime de associação criminosa. O pedido alegava que a prisão era necessária para impedir interferências dos três investigados no caso e garantir as diligências. "É imprescindível a decretação da prisão temporária dos investigados de maior relevância nos crimes praticados pela associação criminosa, bem como daqueles que atuaram na entrega e no recebimento em espécie das quantias ilícitas", informava o documento da PF. A acusação seria uma suposta compra e venda de apoio político do MDB para favorecer o PT nas eleições de 2014. O ministro “aha-uhu-o Fachin é nosso” recusou o pedido e a prisão temporária não foi adiante.

Outra cortina de fumaça foi a cassação dos direitos do ex-senador Lindbergh Farias porque este teria distribuído remédios “cujas embalagens tinham a logomarca da gestão do petista e não o brasão da cidade” de Nova Iguaçu, onde ele fora prefeito. 

A conjuntura atual é propícia para uma grande campanha oposicionista em torno do fora Bolsonaro, mas os principais partidos de esquerda e a oposição democrática estão paralisados. PT e PSOL se posicionaram contra o impeachment de Bolsonaro e contra o fora Bolsonaro, campanha esta levada solitariamente pelo bravo PCO. Segundo PT e PSOL, este ainda não seria o momento de ocupar as ruas porque a conjuntura política não está madura. Ora, o filho do dulce ameaça com AI-5. O Bolsonaro e Carluxo confessam o crime de obstrução de justiça. O apoio ao governo está em níveis baixos. Por que esperar? A espera permite a Bolsonaro se reorganizar e contra-atacar e foi o que ele fez com a cassação dos direitos políticos do Lindbergh Farias e com a ameça de prisão da Dilma e do Mantega.

O PT tem mais de um milhão de filiados ávidos por ocuparem as ruas e a inação do partido decepciona a todos que se sentem vilipendiados com a entrega do Brasil por parte do governo. Por que não mobilizar esta militância e colocá-la nas ruas?

A esquerda tem que pautar o momento político e pressionar o governo e esta pauta deveria girar em torno cinco questões fundamentais, algumas mais imediatas, outras mais profundas. A primeira, a quebra do sigilo telefônico de Jair e Carlos Bolsonaro, sobretudo após a informação de que não há interfone no condominío onde moram. A portaria do condomínio se comunica com os moradores ligando para seus telefones fixos ou para seus celulares. Esta informação é fundamental porque coloca em xeque a principal alegação de defesa do Jair já que ele poderia, perfeitamente, ter consentido com a entrada do motorista do assassino de Marielle Franco no condomínio, mesmo estando em Brasília, autorizando, pelo celular, o porteiro a liberar a entrada de Élcio Queiroz (tem sempre um Queiroz de plantão).  

O segundo item da pauta deveria ser a anulação das eleições gerais de 2018 e fora Bolsonaro. Anulação e não impeachment. O impeachment é um instrumento legítimo para destituir um governo legitimamente eleito. O governo Bolsonaro foi eleito de maneira fraudulenta e não possui legitimidade. De uma certa maneira, o impeachment daria alguma legitimidade ao que é ilegítimo. As eleições de 2018 deveriam ser completamente anuladas devido à fraude que atingiu não só a eleição presidencial, mas também as eleições para os governos dos estados, para senadores, deputados federais e estaduais, que se beneficiaram com a onda bolsonarista fraudulenta. Desta maneira, chega-se ao terceiro item da pauta, consequência do anterior, que seria a convocação de eleições diretas para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. O quarto item seria a liberdade de Lula, Lula livre consequência do processo judiciário torpe a que foi submetido. Lula deve ser libertado e ter todos os seus direitos políticos assegurados para poder concorrer às novas eleições presidenciais. Por último, todos os partidos que defendem os interesses do povo deveriam manifestar-se de maneira a deixar claro para as empresas que adquiriram alguma estatal ou alguma riqueza mineral brasileiras após o golpe de Estado de 2016 que elas perderão dinheiro porque estas empresas e estas jazidas serão renacionalizadas e reestatizadas.

O torpor da oposição democrática, sobretudo dos partidos de esquerda que sofreram as principais consequências do circo político que assola o Brasil desde o golpe de 2016, lembra muito as condições históricas que antecederam ao fascismo na Itália e ao nazismo na Alemanha. Nestes dois países, os indícios de autoritarismo eram evidentes, mas os que podiam impedir sua ascensão se omitiram. O resultado todos nós conhecemos.

P.S.: Esta coluna já estava escrita quando houve o leilão do pré-sal que foi bom para a Petrobras e ruim para os entreguistas. Se as análises que apontam que as empresas estrangeiras não participaram do leilão com medo de comprarem e não levarem e por temerem a instabilidade do governo Bolsonaro, está aí claramente indicado que as ruas e as manifestações de massa são a solução para espantar os agentes do imperialismo e impor derrotas ao governo.

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