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Emerson Barros de Aguiar

Escritor, bioeticista e professor universitário

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Quem banca a bancada?

A religião começa a usar a política para ampliar sua influência. A política começa a usar a religião para ganhar voto

Quem banca a bancada? (Foto: Reprodução/Lucas Rocha/Sputnik)

A chamada bancada evangélica, hoje em posição crítica ao governo Lula, não caiu do céu nem brotou do púlpito por geração espontânea. Ela é filha de um fenômeno maior, mais profundo, mais brasileiro do que parece: a fé que cresceu, se organizou, vestiu terno e gravata e resolveu disputar o poder.

Só que aí começa o curto-circuito.

Porque o Brasil, ao menos no papel, é filho da Constituição Federal de 1988, que diz com todas as letras que o Estado não tem religião. Nem uma. Nem preferida, nem disfarçada, nem “quase oficial”. O Estado é laico. E laico, convém lembrar, não é inimigo da fé. É o contrário. É o único arranjo que protege todas as crenças e também o direito de não crer. É o árbitro que não veste a camisa de nenhum time.

Mas o que acontece quando o árbitro começa a ser pressionado por torcidas organizadas com Bíblia, guia espiritual ou qualquer outro manual de salvação na mão?

Acontece o previsível.

A bancada evangélica deixa de ser apenas um conjunto de parlamentares que, por acaso, são evangélicos, e passa a funcionar como um bloco que pensa, articula e age a partir de uma identidade religiosa. Não é mais só fé pessoal. É estratégia coletiva. É projeto de poder.

E aí a política muda de eixo.

O deputado, que deveria falar por um eleitorado diverso, passa a ecoar uma comunidade específica. Não importa se essa comunidade é grande, crescente, legítima. O problema não é o tamanho. É a lógica. Porque, uma vez aberto esse caminho, não há como fechá-lo sem incoerência.

Se existe uma bancada evangélica, por que não uma bancada católica? Por que não uma bancada espírita? Por que não uma bancada das religiões de matriz africana? Por que não uma bancada budista? Por que não todas ao mesmo tempo, cada uma puxando o Estado para o seu lado, cada uma tentando inscrever sua visão de mundo na lei comum?

A pergunta não é retórica. É mecânica. O sistema empurra para isso.

E quando empurra, o que era espaço público vira mosaico de trincheiras.

Não se trata mais de cidadãos debatendo regras comuns. Trata-se de grupos disputando território simbólico. Cada qual com sua verdade, sua doutrina, sua leitura do mundo. A política deixa de ser mediação e vira palco. Um palco barulhento, fragmentado, onde o consenso vira exceção e o conflito, regra.

E não se diga que isso é exagero.

Quando leis passam a ser justificadas por fundamentos que nem todos compartilham, o diálogo se estreita. Quando argumentos públicos cedem lugar a convicções internas, o debate empobrece. Não porque a fé seja inferior, mas porque ela não é universalmente verificável. O que é sagrado para um pode não ser para outro. E o Estado, para funcionar, precisa falar uma língua comum.

Sem isso, o risco é claro.

A religião começa a usar a política para ampliar sua influência. A política começa a usar a religião para ganhar voto. Um alimenta o outro. Um desgasta o outro. No fim, ambos perdem densidade. A fé vira ferramenta. O poder vira fim.

E o país, no meio disso, tenta sobreviver.

É curioso observar que tudo isso acontece justamente no momento em que o número de evangélicos explode. Em cerca de trinta anos, o Brasil saiu de 6,6% para 22,2% de evangélicos, segundo o IBGE, e já caminha para algo próximo de um terço da população. É uma transformação gigantesca. Rápida. Impressionante.

Seria natural esperar que tamanha expansão produzisse efeitos sociais visíveis, palpáveis, incontestáveis.

Mas o retrato é mais turvo.

Os dados do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram um país que continuou convivendo com violência elevada, desigualdade persistente e problemas estruturais profundos. O Ministério da Saúde indica que o consumo de álcool segue alto, que o tabagismo caiu por políticas públicas e que outros comportamentos não acompanharam nenhuma “revolução moral” proporcional ao crescimento religioso.

Isso não anula os efeitos positivos reais que existem em nível individual. Há gente que abandona vícios, reconstrói a vida, encontra sentido. Isso é fato. Isso importa. Mas não se traduz automaticamente em transformação coletiva.

E aqui está o nó.

O crescimento foi quantitativo. Mas a pergunta é se foi qualitativo.

Parte desse avanço ocorreu sob uma lógica em que a fé se aproxima do mercado, em que a promessa se confunde com produto, em que o discurso gira mais em torno de prosperidade e vitória pessoal do que de formação ética profunda. Pierre Bourdieu já chamava isso de disputa por bens simbólicos. No Brasil, isso ganhou escala.

E quando a fé perde densidade ética, ela deixa de tensionar o comportamento social. Passa a conviver com ele. Às vezes, a justificá-lo.

Nesse ambiente, a entrada organizada na política não é um acidente. É consequência.

Mas continua sendo um problema.

Porque, ao institucionalizar a religião como eixo de poder, cria-se uma engrenagem que tende à fragmentação e ao conflito. Não por maldade, mas por estrutura. Cada grupo, ao se ver representado religiosamente, exigirá o mesmo direito. E o Estado, que deveria ser o terreno comum, vira território disputado.

A política é lugar de fé organizada disputando poder ou é lugar de cidadãos diferentes tentando conviver?

Se for a primeira opção, prepare-se para o ruído permanente.

Se for a segunda, a laicidade precisa ser levada a sério, não como enfeite constitucional, mas como prática concreta.

Isso não exige que ninguém abandone sua fé. Exige apenas que a fé não se transforme em instrumento de captura do Estado.

Porque, quando isso acontece, perde a política e perde a própria religião, que, ao se aproximar demais do poder, corre o risco de esquecer aquilo que a justificava.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.