Quem de fato defende a família brasileira?
Há algo de curioso no discurso de certos defensores da chamada “família tradicional brasileira”
Há algo de curioso no discurso de certos defensores da chamada “família tradicional brasileira”. São enfáticos e moralmente inflamados quando o assunto envolve costumes, comportamento e valores. Empunham a Bíblia com fervor e apresentam-se como os guardiões de uma ordem moral ameaçada. Falam da importância dos pais, da autoridade familiar, da criação dos filhos, da vida doméstica como núcleo sagrado da sociedade... Mas, curiosamente, quando se trata das condições concretas que tornam essa convivência possível, todo esse teatro desaparece. Emudecem, com notável discrição, quando o tema é a organização do trabalho que rouba da família justamente aquilo que ela tem de mais precioso e o que de fato a sustenta: o tempo livre.
A escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso) é, na prática, o fim da família. Pais e mães saem cedo, voltam exaustos, vivem na contabilidade regressiva do único dia de folga. O domingo transforma-se em dia de resolver pendências domésticas, lavar roupas, fazer compras, organizar a semana seguinte. E assim o ciclo recomeça. Em que momento se cultiva a tal família que dizem defender?
Talvez seja preciso perguntar que tipo de família é essa que se fortalece pela exaustão. Que projeto moral é esse que considera aceitável que milhões de trabalhadores convivam mais com seus chefes do que com seus próprios filhos? Qual castigo do diabo é mais cruel para uma mãe do que passar mais tempo cuidando dos filhos da patroa do que dos seus próprios?
O filósofo britânico Bertrand Russell, em seu “Elogio ao Ócio”, publicado em 1932, já denunciava a idolatria moderna do trabalho. Russell argumentava que a redução da jornada seria não apenas economicamente possível, mas socialmente desejável. Para ele, o excesso de trabalho não produz virtude; produz cansaço, alienação e pobreza espiritual. Uma sociedade verdadeiramente civilizada, dizia, deveria organizar-se para que seus membros tivessem tempo livre suficiente para o cultivo das artes, da convivência, do pensamento... da família.
Antes dele, o socialista franco-cubano Paul Lafargue, genro de Karl Marx, já havia feito as mesmas provocações com o brilhante artigo “O Direito à Preguiça” (1880). Com ironia mordaz, Lafargue criticava o que chamava de “religião do trabalho”, essa crença quase mística de que trabalhar muito é, por si só, uma virtude moral. Para ele, a classe trabalhadora havia internalizado a ética burguesa de seus exploradores, passando a defender jornadas extenuantes como sinal de dignidade.
Curiosamente, o discurso moralista contemporâneo parece herdar algo dessa religião secular. Exalta-se o “cidadão de bem”, o “pai provedor”, a “mãe guerreira”, mas naturaliza-se um modelo econômico que exige sua permanente ausência. Defende-se a autoridade familiar, mas aceita-se a submissão absoluta à lógica produtivista. Louva-se o convívio doméstico, mas organiza-se a sociedade para que ele seja residual.
Não se trata de negar a importância do trabalho. Trabalho é condição de sobrevivência e também de realização pessoal. É, inclusive, a condição que nos faz humano. O problema é a sua absolutização. Quando o trabalho ocupa seis sétimos da vida adulta ativa e, nos dias restantes, ocupa a mente e o corpo exaustos, a família torna-se um ideal retórico.
Os dados sobre saúde mental, estresse e Burnout indicam que a exaustão não é um fenômeno isolado. Ela é estrutural. E atinge com especial dureza os mais pobres, aqueles que raramente têm autonomia sobre seus horários. São justamente essas famílias, frequentemente exaltadas em discursos moralizantes, que menos desfrutam de tempo compartilhado.
Se realmente consideramos a família como núcleo fundamental da sociedade, a pergunta lógica é por que aceitamos uma organização social que sabota sua própria base. O convívio familiar não se faz apenas com boas intenções ou declarações públicas. Ele exige presença. Exige tempo. Exige energia.
O que a família brasileira mais precisa não é de discursos inflamados da extrema-direita conservadora que é contra o fim da escala 6x1. Ela precisa é de tempo livre. Tempo para jantar juntos em dias comuns. Tempo para acompanhar tarefas escolares. Tempo para conversar sem olhar o relógio. Tempo, inclusive, para estudar e se libertar das amarras da ignorância que, muitas vezes, as acorrentam às ideias dos seus opressores.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
