Quem deve fazer sacrifícios é quem tem privilégios

O editorial da Folha de S. Paulo manda retirar recurso da saúde, da educação, do pobre, do assalariado, da classe média e não grita para tirar recursos dos megabilionários e milionários do Brasil

Nada mais dramaticamente autoritário do que o ultimato que Otavio Frias Filho (dono do jornal) deu à Presidenta Dilma e aos parlamentares para que resolvam a crise imediatamente.

O mundo vive uma crise. A Europa enfrenta uma crise há tempos, os EUA vivem em crise, a China apresenta sinais de recuo em seu crescimento, a Rússia entrou em recessão, a Grécia tornou-se inadimplente. O Brasil - que passou por mais de uma década em crescimento com distribuição da renda, reduziu a pobreza em 55%, elevou o salário real em 35%, dobrou o valor de compra do salário mínimo, saiu da décima primeira economia para a sétima economia do mundo -, também está em crise.

Não tivesse o presidente Lula apostado em políticas anticíclicas, elevando os estímulos para o consumo de massa, retirando impostos e fazendo isenções para setores de produção automobilística, linha branca, construção civil e alimentos; não tivesse ele segurado o preço dos combustíveis e energia, incentivado o crédito e reduzido as taxas de juros, hoje o Brasil estaria vivendo uma crise humanitária.

Sem isso, não teríamos hoje milhões de pessoas na classe média de consumo, e o desemprego estaria de volta em patamares iguais ou superiores ao do período FHC. Mas temos uma crise.

A crise brasileira tem origem histórica na brutal concentração de renda, acima de todos os padrões do capitalismo moderno. Todos sabem que o capitalismo se retroalimenta de suas crises reais ou provocadas para ampliar a concentração de riquezas, como bem observou Thomas Piketty em seu livro: "O Capital no século XXI."

A nossa crise é mais de conteúdo político e social do que econômico. O esgotamento parcial das políticas anticíclicas adotadas nos governos Lula e Dilma abriu espaço para que os setores da mídia financiados pelos rentistas se rearticulassem. Estes são os principais interessados em recuperar as migalhas distribuídas aos trabalhadores resgatados da exclusão dos bens de consumo e de cidadania.

A esses insaciáveis concentradores de riqueza juntaram-se setores importantes do judiciário, ávidos em obter maior parcela de poder, que transformaram instrumentos de justiça num teatro midiático para tentar impor a judicialização da política. Como bem escreveu o presidente do STF, Ricardo Levandowski, em artigo publicado na FSP 13/09/15, "a verbocidade de integrantes do Poder Judiciário, fora dos lindes processuais, de há muito é tida como comportamento incompatível com a autocontenção e austeridade que a função exige".

O esgarçamento do debate político-partidário, em especial, durante e após as eleições 2014 e ainda em voga; a manipulação pérfida da mídia em crise e ávida por financiamento, aninhada nos bolsões do preconceito de toda ordem, assim como de parte do judiciário ideologizado, politizado e partidarizado, são os principais ingredientes que movem uma crise política. De letalidade imensurável, esta crise atinge diretamente o Brasil, e com ela pretendem assegurar que os privilégios e status de classe sejam perpetuados. Uma aposta de alto risco.

Cabe a quem governa de forma legítima e democrática coordenar as ações e pôr fim a essa letalidade que ameaça a nossa paz social e a nossa democracia.

Cabe ao parlamento, como poder que pela sua natureza mais se aproxima do povo, não permitir que os sacrifícios que serão impostos recaiam sobre a população mais vulnerável: isso significa que na hora de cortar gastos, ao invés de tirar o prato de comida do pobre, deve-se tirar do iate do rico; ao invés de tirar do SUS, do hospital público, do medicamento, deve-se tirar do avião particular, do helicóptero novo, do carrão de luxo. É isso que está em jogo.

O editorial da Folha de S. Paulo (13/set) manda retirar recurso da saúde, da educação, do pobre, do assalariado, da classe média, e não grita para tirar recursos dos megabilionários e milionários do Brasil. Não propõe aumentar a tributação sobre grandes fortunas e sucessão de heranças. Não manda tributar lucro líquido dos bancos, nem reduzir as aviltantes taxas de juros que impedem o investimento produtivo. Não faz nem um apelo especial às nossas estrelas que brilham nas páginas da revista Forbes. Aliás, boa parte delas são donos das redes de comunicação, controladores do capital financeiro, e uma boa parte vive de concessão e financiamento público. Afinal, quem deve fazer sacrifícios é quem tem privilégios.

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