Quem diria: já estamos no pós bolsonarismo

O editor e colunista do 247 Gustavo Conde registra o fim prematuro do bolsonarismo e alerta que, embora alvissareiro, este é um processo insuficiente; para Conde, é hora de reconstruir e 'reassumir' o país, com o aprendizado traumático oriundo do gesto de se 'brincar com a democracia'; Conde acredita que o momento histórico é propício para uma nova agenda que, por sua vez, ocupe imediatamente os espaços vazios deixados pelo risível governo de transição de Jair Bolsonaro    

Quem diria: já estamos no pós bolsonarismo
Quem diria: já estamos no pós bolsonarismo (Foto: REUTERS/Ricardo Moraes)

Acho que a gente superestimou demais o bolsonarismo. Eles ganharam a eleição - com fraude e crime - e só. A manutenção dessa bolha de ódio é insustentável.

O que não quer dizer muita coisa. O país está a deriva e precisa ser devolvido ao povo, ao seu destino, a sua soberania.

Bolsonarismo no chão, resta o trabalho hercúleo de restaurar uma democracia inteira.

Temos o desafio de reorganizar o sistema político-partidário e, sobretudo, o sistema judicial, podre e corrupto, cheio de vícios e prepotências.

Mas há também a economia toda, os sistemas de educação e de saúde.

É praticamente fazer tudo de novo. Alguém vai se furtar a isso?

É uma tarefa que exige responsabilidade e coragem.

A gente vive uma situação inédita de um governo que acaba de ser eleito e que foi jogado na lata de lixo da história em tempo recorde, antes mesmo de assumir.

Fizeram o favor - e agradecemos, de coração - de destruir o PSDB, o partido mais dissimulado que o Brasil já teve - que deixa uma herança muito mais que maldita, uma herança de ódio e incompetência.

Mas, o fim do PSDB, por mais boa notícia que seja, não dá conta do tamanho da encrenca social que nós temos pela frente.

É preciso, acima de tudo, não se intimidar e parar com essa mania de autoflagelo (a autocrítica travestida de masoquismo).

É a hora dos movimentos sociais, das ações públicas, do discurso reinvestido de demandas históricas, de novos projetos, novos políticos, novos horizontes.

Essas horas de crise generalizada são as melhores para se ressignificar valores, programas, palavras e gestos.

Há todo um substrato para que nós construamos uma nação forte, verdadeiramente soberana e livre da doença histórica do golpismo.

A hora é essa, é exatamente essa.

É reorganizar o que foi feito de bom em termos de políticas públicas ao longo da história, repudiar as práticas patrimonialistas e atrasadas e restaurar a nossa própria capacidade de construir um país com a nossa força legítima de cidadãos e sujeitos históricos.

Porque a construção de um país é um processo que não tem fim. É preciso reconstruí-lo um pouco todos os dias.

Talvez, esse tenha sido o erro de muita gente progressista, que em algum momento achou que a missão 'estava cumprida'.

Não. Não estava nem nunca vai estar.

A derrocada prematura do bolsonarismo é uma boa notícia, mas é completamente insuficiente.

A sociedade brasileira mudou e quer mais, muito mais.

Nós temos que discutir o nosso próprio destino sem as amarras colonialistas do passado e sem os fantasmas dos magnatas da imprensa - sempre querendo nos forçar goela abaixo narrativas espúrias e fraudulentas.

O legado dos governos do PT nos deu autoestima e nós vamos precisar imensamente dessa autoestima neste momento.

O legado dos governos do PT, diga-se de passagem, não é o 'legado dos governos do PT'. É o legado do povo brasileiro, de toda a sociedade brasileira.

Nós construímos tudo aquilo, assim como destruímos depois (que não se fuja à responsabilidade, afinal, somos uma 'sociedade' e não um amontoado de segmentos fragmentados).

O preço de brincar com a democracia chegou forte e é perceptível que todos estão em processo de "aprender a lição".

Que não se brinque mais com a democracia, que não se brinque mais com o próprio futuro, que não se brinque mais com o próprio passado, que não se brinque mais com a história.

Construir uma nação é uma odisseia. E reconstruir uma nação é igualmente uma odisseia, plena de riscos e intempéries, mas, sobretudo, plena de vida, emoções, afetos, arte e conquistas.

Vamos reconstruir um país, nós. Não são os políticos ou os partidos políticos que farão isso por nós: somos nós mesmos.

Basta de terceirizar tarefa tão importante, interessante, profunda e necessária. Aliás, que também não se negue mais a política. Porque negar a política é negar a própria possibilidade de ação histórica direta pelo direito ao próprio futuro.

O Brasil nunca esteve tão pronto para viver a sua mais profunda mudança de patamar social e político. Tomemos essa tarefa como quem toma conta de si, como quem toma conta de seu filho, como quem toma conta de seu futuro, como que toma conta do sentido mais profundo de sua própria vida.

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