Quem é mesmo anti-sistema?
Quem detém o símbolo anda na frente
Quem é mesmo anti-sistema ?
A extrema direita é anti-sistema (capitalista neoliberal), ou a esquerda é quem deve ser protagonista nesta função?
Pelo discurso e pela postura ofensiva , quem hoje parece ser anti-sistema é a extrema direita.
Eles próprios se auto denominam como anti-sistema.
Faz parte do conteúdo da sua narrativa.
Contudo, sabemos, na crua verdade, a extrema direita é o aprofundamento do sistema .
É a colocação do sistema capitalista em um patamar sem filtro e sem culpa.
É a radicalização máxima do individualismo, sem o menor senso de empatia, solidariedade ou até mesmo humanidade entre as pessoas.
É o uso predador e destrutivo do meio ambiente sem qualquer remorso.
É a colocação do mérito individual como um pilar a ser seguido e do super enriquecimento como algo a ser venerado e intocado.
É a desproteção total do trabalhador em favor da acumulação e do lucro do capital.
Para perceber como é assim, basta ver o posicionamento da extrema direita bolsonarista nos projetos e votações que acontecem no Congresso.
São contra políticas públicas sociais, contra taxação de super ricos, a favor de afrouxamento ou liberação geral nas leis de proteção ambiental....e nesta linha de posição a favor do capital sempre seguem. É explícito.
Mas, então, porque na conjuntura atual parece que esta gente torpe é anti-sistema, e não a esquerda, que é quem de fato deve ser, e assim deve ser vista ?
A esquerda perde sua condição essencial de anti-sistema quando, estando no governo, ou estando nas disputas pelo governo, minimiza ou suprime a radicalização do seu discurso, de suas propostas e suas ações.
De forma a se posicionar ela mesma ( e assim ser percebida na ótica da população), como sendo apenas uma melhor gerenciadora do modelo econômico e social capitalista.
A esquerda perde sua essência de ser rompimento e superação do sistema capitalista quando se dispõe apenas a governar mitigando os efeitos e as mazelas produzidas pelo capitalismo, principalmente pelo receituário neoliberal.
Quando a população não vislumbra mais na esquerda a opção concreta de rompimento com o sistema que explora, subjuga e empobrece, abre-se o caminho para que a extrema direita, com a radicalização discursiva, seja vista como perspectiva de rompimento.
Vimos isso na recente derrota da esquerda chilena para um candidato de extrema direita na eleição presidencial.
Foi a resposta da maioria da população chilena, causada pela frustração com os resultados do governo de Boric, o qual foi absolutamente tímido em suas ações para superar as mazelas econômicas e sociais da sociedade chilena.
A esquerda jamais deve dosar o seu discurso e suas propostas porque, ao fazer isso, perde sua essência, e, perde aquilo que é caríssimo em se tratando de política: perde o símbolo de ser percebida como instrumento de esperança e transformação.
A esquerda deixando de ter esse símbolo para si, ele é oportunamente capturado pela extrema direita.
No Brasil de 2026, é necessário que o Governo Lula e que o conjunto dos partidos de esquerda tenham a perspectiva nítida à sua frente: estar na ofensiva de propor pautas que rompam com o modelo de exploração capitalista.
O fim da escala de trabalho 6x1 é um elemento chave nesta direção.
Isto confronta o sistema, porque toca no âmago da acumulação de riqueza e da exploração das pessoas em função desta acumulação.
É uma disputa duríssima a ser feita, especialmente pela correlação de forças amplamente desfavorável no Congresso, e pelo grau de acirramento social que acontece pela pesada força militante dos milhões de adeptos do bolsonarismo no país.
Mas é uma disputa prática e simbólica vital para o governo e o conjunto da esquerda.
Esta disputa, somada a outras pautas de confronto ao capital, além da própria continuidade das ações do Governo Lula, formarão a plataforma por onde caminharemos para vencer a eleição do ano que vem, e continuar fazendo as transformações necessárias para a maioria da população do país.
Para concluir, é preciso que se tenha no horizonte que, no próximo Governo Lula, será preciso ousar muito mais.
Cavocar mais fundo nas transformações.
Não apenas mitigar os efeitos do capitalismo, mas ousar superá-los.
Na política, quem detém o símbolo de ser esperança e transformação, tem um trunfo enorme.
Conquistar este símbolo e o manter é tarefa do conjunto da esquerda, tanto no governo , quanto na militância social.
Que não nos falte ousadia e coragem.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

