Quem lucra com as bombas suicidas de Cabul?

O ISIS-Khorasan quer provar aos afegãos e ao mundo inteiro que o Talibã não consegue garantir a segurança da capital

www.brasil247.com - Feridos são levados a hospital após ataque no aeroporto de Cabul. 26/08/2021
Feridos são levados a hospital após ataque no aeroporto de Cabul. 26/08/2021 (Foto: REUTERS TV/1TV/Divulgação via REUTERS)


Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

As horrendas bombas suicidas de Cabul introduzem um vetor adicional em uma situação já incandescente: elas têm como objetivo provar aos afegãos e ao mundo inteiro que o recém-criado Emirado Islâmico do Afeganistão é incapaz de garantir a segurança da capital. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Até presente momento, pelo menos 103 pessoas – 90 afegãos (inclusive no mínimo 28 talibãs) e 13 soldados americanos - foram mortos, e pelo menos 1.300 saíram feridos, segundo o Ministério da Saúde Afegão.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A responsabilidade pelas bombas foi assumida em uma declaração publicada no canal Telegram da Amaq Media, a agência de notícias oficial do Estado Islâmico (ISIS). O que significa que a ordem partiu do comando central do ISIS, embora os responsáveis diretos sejam membros do ISIS-Khorasan, ou ISIS-K.

Atrevendo-se a assumir a herança do peso histórico e cultural das terras da Ásia Central que desde os tempos da Pérsia imperial se estendiam até o oeste dos Himalaias, esse desdobramento macula o nome do Khorasan.    

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O homem-bomba que executou a "operação de martírio próximo ao aeroporto de Cabul" foi identificado como um Abdul Rahman al-Logari. O que sugere que ele é afegão e originário da província vizinha de Logar. E sugere também que o ataque pode ter sido organizado por uma célula adormecida do ISIS-Khorasan. Uma análise eletrônica sofisticada de seu sistema de comunicações conseguiria provar essa hipótese - mas o Talibã não possui esses equipamentos. 

A narrativa que o ISIS, habilíssimo nas redes sociais, escolheu para a carnificina merece um exame cuidadoso. A declaração na Amaq Media acusa  o Talibã de "parceria" com os militares dos Estados Unidos na evacuação de "espiões". 

A mensagem caçoa das "medidas de segurança impostas pelas forças armadas norte-americanas e pela milícia Talibã na capital Cabul", já que seu "mártir" conseguiu chegar a uma distância de nada menos que cinco metros das forças americanas que supervisionavam as operações". 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Fica claro então que o recentemente renascido Emirado Islâmico do Afeganistão e a potência que antes ocupava o país estão enfrentando o mesmo inimigo. O ISIS-Khorasan é composto de um bando de fanáticos chamados de takfiris, porque eles definem todos os demais muçulmanos - neste caso o Talibã – como "apóstatas".

Fundado em 2015 por emigrantes jihadis despachados para o sudoeste do Paquistão, o ISIS-K é um animal astucioso. Seu atual chefe é um Shahab al-Mujahir, que foi um comandante de nível intermediário na rede Haqqani, sediada no Waziristão do Norte, nas áreas tribais paquistanesas, rede essa uma coleção de mujahidin e aspirantes a jihadis reunidos sob o mesmo guarda-chuva familiar.

Washington rotulou a rede Haqqani de organização terrorista já em 2010, e trata vários de seus membros como terroristas globais, entre eles Sirajuddin Haqqani, o chefe da família depois da morte do fundador Jalaluddin". 

Até recentemente, Sirajuddin era o vice-líder talibã para as províncias do leste – no mesmo nível que o Mulá Baradar, chefe do escritório político em Doha que, aliás, foi solto de Guantánamo em 2014. 

Um fato importante: o tio de Sirajuddin, Khalil Haqqani, anteriormente encarregado do financiamento externo da rede, agora chefia a segurança de Cabul e trabalha como diplomata em tempo integral. 

Os antigos líderes do ISIS-K foram exterminados por bombardeios aéreos norte-americanos em 2015 e 2016. O ISIS-K passou a ser uma força realmente desestabilizadora em 2020, quando o bando  reagrupado atacou a Universidade de Cabul, uma enfermaria de maternidade dos Médicos Sem Fronteiras, o Palácio Presidencial e o aeroporto.

Informações de Inteligência da OTAN citadas em um relatório da ONU calcula que o ISIS-K conta com um máximo de 2.200 jihadis divididos em pequenas células. É significativo que maioria é composta de não-afegãos: iraquianos, sauditas, kuwaitianos, paquistaneses, uzbeques, chechenos e uigures.

O perigo real é que o ISIS-K funciona como uma espécie de ímã para todos os tipos de ex-talibãs descontentes e ex-chefes guerreiros regionais frustrados  que não têm para onde ir.    

O perfeito alvo fácil 

A comoção despertada nestes últimos dias em meio à população civil nas redondezas do aeroporto de Cabul foi o alvo fácil perfeito para uma carnificina bem ao estilo ISIS. 

Zabihullah Mujahid – o novo ministro talibã da informação em Cabul que, nessa capacidade, fala à mídia global todos os dias - foi um dos que advertiram os países-membros da OTAN sobre a iminência de um ataque suicida do ISIS-K . Diplomatas de Bruxelas confirmaram esse fato.  

Paralelamente, não é segredo nos círculos de inteligência da Eurásia que o ISIS-K se tornou desproporcionalmente mais poderoso a partir de 2020, em razão de uma rota de transporte ligando Idlib, na Síria, ao leste do Afeganistão, informalmente conhecida como a Daesh Airlines.

Moscou e Teerã, mesmo nos mais altos escalões diplomáticos, culparam diretamente o eixo Estados Unidos-Reino Unido por serem os principais facilitadores dessa situação. Até mesmo a BBC, em fins de 2017, noticiou que centenas de jihadis do ISIS receberam salvo-conduto para sair de  Raqqa e da Síria, bem na cara dos americanos.  

As bombas de Cabul aconteceram depois de dois acontecimentos muito significativos.

O primeiro foi a afirmação de Mujahid, em uma entrevista à NBC norte-americana, no início desta semana, de que "não há prova de que Osama bin Laden esteve por trás do 11 de setembro" – um argumento que eu já havia  sugerido, ainda na semana passada, que viria em seu podcast.

O que significa que o Talibã já deu início a uma campanha para se desvincular do rótulo de "terrorista" associado ao 11 de setembro. O próximo passo talvez seja afirmar que a execução do 11 de setembro foi planejada em Hamburgo, e os detalhes operacionais foram coordenados a partir de dois apartamentos em Nova Jersey. 

Nada a ver com os afegãos. E tudo mantido dentro dos parâmetros da narrativa oficial - mas essa é uma outra e imensamente complicada história.

O Talibã terá que mostrar que o "terrorismo" foi praticado seu inimigo mortal, o ISIS, indo muito além da al-Qaeda de velha escola, que eles abrigaram até 2001. Mas por que razão eles hesitariam em fazer essas declarações? Afinal, os Estados Unidos reabilitaram a Jabhat Al-Nusra – ou a al-Qaeda na Síria – ao qualificá-la de "rebeldes moderados". 

A origem do ISIS é um tema incandescente. A organização foi gestada nos campos de prisioneiros do Iraque, com um núcleo formado por iraquianos com treinamento militar, representado por ex-oficiais do exército de Saddam, um bando  fanático demitido ainda em 2003 por Paul Bremmer, dirigente da Autoridade Provisória de Coalizão.

O ISIS-K leva o trabalho do ISIS do Sudoeste Asiático até o cruzamento da Ásia Central e do Sul, no Afeganistão. Não há indícios dignos de crédito de que o ISIS-K tenha vínculos com o serviço de inteligência paquistanês.

Ao contrário: o ISIS-K é frouxamente alinhado ao Tehreek-e-Taliban (TTP), também conhecido como o Talibã paquistanês, inimigo mortal de Islamabad. A agenda do TTP não tem qualquer ligação com o moderado Talibã afegão liderado pelo Baradar, participante do processo de Doha. 

A OCX vem em socorro 

O outro evento significativo ligado às bombas de Cabul foi o fato de o episódio ter ocorrido apenas um dia depois de um outro telefonema entre os Presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping. 

O Kremlin ressaltou que os dois países "estão prontos para intensificar os esforços de combate às ameaças de terrorismo e ao tráfico de drogas vindas do território do Afeganistão"; a importância de "estabelecer a paz" e de "evitar a disseminação da instabilidade para as regiões adjacentes". 

O que nos leva ao xis da questão: conjuntamente, os dois presidentes se comprometeram a "aproveitar ao máximo o potencial"  da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), fundada há vinte anos pelos "cinco de Xangai", mesmo antes do 11 de setembro, com o objetivo de combater "o terrorismo, o separatismo e o extremismo". 

A cúpula da OCX terá lugar no próximo mês, em Dushanbe – quando o Irã, com toda a certeza, será aceito como membro pleno. As bombas de Cabul dão à OCX a oportunidade de se pronunciar com veemência máxima. 

Seja qual for a coalizão tribal formada para governar o Emirado Islâmico do Afeganistão, ela se mesclará a todo o aparato da cooperação regional econômica e de segurança, liderada pelos três principais atores da integração eurasiana: Rússia, China e Irã. 

O histórico mostra que Moscou conta com todos os meios necessários para ajudar o Emirado Islâmico em sua luta contra o ISIS-K no Afeganistão. Afinal, os russos expulsaram o ISIS de todas as regiões importantes da Síria, confinando-os ao caldeirão de Idlib. .  

No final das contas, ninguém, a não ser o ISIS, quer um Afeganistão aterrorizado, da mesma forma que ninguém quer uma guerra civil no Afeganistão. Portanto, a ordem do dia aponta não apenas para uma luta frontal, liderada pela OCX, contra todas as células terroristas do ISIS-K existentes no Afeganistão, mas também para uma campanha integrada com o objetivo de eliminar qualquer possibilidade de existência de uma base social takfiri na Ásia Central e do Sul.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email