Quem não quer que Lula fique livre

"Mesmo com uma postura de oposição a Bolsonaro, um numeroso contingente de arrependidos e desiludidos se recusa assumir a campanha pela liberdade de Lula", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia. "Podem até criticar a Lava Jato, mas não incapazes de admitir que Lula tem direito à liberdade aqui e agora".

Lula
Lula (Foto: Ricardo Stuckert)

Sabemos que a luta política produz mais surpresas e dificuldades do que se costuma admitir. 

Quando as revelações da Vaza Jato demonstram de forma definitiva a natureza grotesca da prisão de Lula,  seria natural imaginar que o apoio ao movimento que tenta anular  um processo claramente injusto e tendencioso,  tivesse atingido a quase unanimidade dos setores democráticos  da sociedade brasileira, certo? Errado. 

Nos últimos dias tem sido fácil notar que a campanha pela liberdade de Lula, movimento "Lula Livre", iniciado no mesmo dia em que ele foi conduzido a Curitiba, enfrenta um silêncio impensável do ponto de vista da reconstrução das garantias democráticas ameaçadas pela Lava Jato e pelo processo autoritário iniciado pelo golpe de 2016, reforçado pela eleição de Jair Bolsonaro.  

Em três atos públicos ocorridos nos últimos dias, em São Paulo, a reivindicação pela liberdade de Lula foi motivo explícito e assumido num deles, o "Resistir é Preciso", realizado no TUCA, em 11 de setembro. Vários discursos e esquetes dramáticos fizeram apelos pela liberdade de Lula. Também se fez uma convocação para uma  ida em caravana a Curitiba, em apoio ao Lula e a militância que diariamente lhe dá "Bom Dia" e "Boa Noite". 

No dia 9, no Salão Nobre do Largo São Francisco,  a liberdade de Lula foi colocada por vários oradores convidados. O "Lula Livre" não fazia parte do acordo que convocou o ato, que tinha a defesa da liberdade de imprensa e de Glenn Greenwald como suas prioridades. O tema foi colocado por um dos organizadores, Paulo Zochi, presidente do sindicato dos jornalistas, que em sua intervenção recordou a decisão da Federação Nacional da categoria de empenhar-se pela "libertação imediata do ex-presidente Lula". 

Em 2 de setembro, no ato "Direitos-Já -- Fórum pela Democracia", um único orador, o governador do Maranhão Flávio Dino, fez referências explícitas e demoradas sobre a injustiça da prisão de Lula. Essa situação teve consequências políticas previsíveis. Momentos antes do ato, inconformados com a notícia de que as manifestações a favor de Lula -- a mais importante vítima individual dos ataques ao Estado Democrático de Direito em nossos dias -- não poderiam ter grande destaque, a maioria dos dirigentes do Partido dos Trabalhadores preferiu ficar fora do ato. 

Numa surpresa para alguns presentes, a manifestação foi encerrada por um vídeo de apoio de Fernando Henrique Cardoso, aliado discreto mas leal a Sérgio Moro, postura que manteve após as evasivas do ex- juiz em seu depoimento no Senado. 

O curioso é  que o espaço tímido -- digamos assim -- reservado a manifestações pela liberdade de Lula faz um contraste gritante com o atual momento jurídico-político do país. Mais do que nunca, o destino de Lula ocupa o centro das decisões sobre o futuro do regime democrático. 

Envolvendo um esforço político imenso, num processo a ser vencido palmo a palmo, manifestações a favor da sua libertação de Lula enfrentam uma hora que pode ser decisiva. 

Aguarda-se, para qualquer momento, o voto de minerva de Celso de Mello, num empate 2 a 2 que envolve a suspeita de parcialidade contra Moro. Mesmo considerando que as sentenças mais importantes  do Judiciário não são escritas em clima de Fla-Flu, toda manifestação -- serena, refletida, com vozes autorizadas -- a favor de Lula teria um valor político inegável. 

Ajudaria a mostrar  o respaldo a  uma decisão que, mesmo baseada no estrito cumprimento da Constituição e do Código de Processo Penal,  sempre será alvo de ataques por parte das forças mobilizados na criação de um estado de exceção em nosso país. 

Mesmo assumindo um bem vindo discurso oposicionista, o cada vez mais numeroso contingente de desiludidos, e arrependidos, além de  hipócritas de todos os matizes,   faz questão de deixar claro que não pretende confundir seu destino com a liberdade de Lula. 

Podem até aceitar críticas a Sérgio Moro e denunciar seus desmandos.  Mas se recusam a aceitar a única consequência lógica de um julgamento tendencioso, manietado -- a liberdade imediata do réu. 

Pode-se explicar esse comportamento por algumas razões evidentes. 

A timidez -- vamos falar assim -- daquilo que se tornou costume chamar de "setores médios", ou de "centro" em relação a situação de Lula, faz parte de uma mudança na situação política de conjunto, marcada pela decomposição e dispersão da base política de Bolsonaro e da Lava Jato.

Num país que tem a Argentina como um espelho imperfeito mas frequentemente inspirador, o renascimento em alta velocidade do peronismo sob as cinzas de Maurício Macri funciona como um pesadelo revivido de uma oposição que está sendo empurrada para a crítica e a oposição a Bolsonaro -- mas não foi capaz de construir uma alternativa política capaz de fazer sombra a Lula e seu universo. 

Há um velho e conhecido preconceito de classe, aqui, mas este não é um único fator. 

É o temor de uma força política única. 

Como o discurso de Ciro Gomes expressa de modo cristalino, a permanência de Lula na prisão garante uma imensa vantagem comparativa para adversários e concorrentes,  que assim evitam o risco de enfrentar o maior líder político do país no século XXI. 

Alguma dúvida? 

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