Quem vai assinar a nova Carta aos Brasileiros?

O​ ​que​ ​o​ ​ex-presidente​ ​Lula​ ​disse,​ ​ao​ ​fim​ ​e​ ​ao​ ​cabo,​ ​é​ ​que, desta​ ​vez​, ​a​ ​"Carta​ ​ao​ ​Povo​ ​Brasileiro"​ ​terá​ ​de​ ​ser​ ​"escrita"​ ​pelo​ ​mercado. Quem perderá mais neste estica-e-puxa será uma incógnita, mas ao não confrontar Bolsonaro e nem de sinalizar ao mercado, a candidatura do ex-presidente perde duas oportunidades

lula
lula (Foto: Leopoldo Vieira)

Pesquisa da XP Investimentos mostrou crescimento de Bolsonaro tanto na receptividade de investidores ao seu nome quanto na crença de que ele poderá ganhar. A marcha dele ao centro segue acelerada e eficiente.

Se realmente anunciar seu economista-chefe, Bolsonaro entrará num game novo, o de discutir propostas concretas para a solução econômica brasileira, o que pode lhe render mais pontos, para a tragédia dos tucanos, cuja unidade segue distante do horizonte. No entanto, se bem confrontado pela esquerda, por meio de soluções exequíveis e previsíveis, poderá desidratar. 

A hora ´é agora, pois Bolsonaro é o único outsider que provou não ser uma bolha ou uma pele de establishment

Lula caiu na intenção de voto dos jovens ( 60% dos eleitores de Bolsonaro já são desta categoria). Uns podem creditar à falta um discurso mais socialista. Outros propugnarão generalidades sobre dialogar com os jovens. Contudo, o que lhe falta é confrontar Bolsonaro. 

​Apesar de não parecer,  na cronometragem do jogo eleitoral deste instante, ​Lula​ tem vantagem na​ ​correlação de​ ​forças, pois  quando o assunto é infraestrutura, a grande maioria vincula o tema à geração de empregos, educação e saúde e metade defende expandir despesas para isso. Em geral, o brasileiro discorda de teses conservadoras e a última pesquisa do IBGE revelou que 26,8 milhões de brasileiros estão sem emprego ou trabalhando menos do que gostariam ou poderiam. 

Concretamente,​ ​todas​ ​as​ ​PECs​ ​aprovadas​ ​por​ ​Temer​ ​estão​ ​sob​ ​júdice​ ​de​ ​2018 e os dados de desempenho fiscal, emprego e crescimento não tem força para produzir, a curto prazo, nenhuma melhora na popularidade do governo e, consequentemente, no potencial de um candidato reformista liberal.

Lula mandou recados ao mercado na semana retrasada: Sabe que ele não é de extrema-esquerda porque já o viram governar, tem excelentes índices relevantes ao monetarismo para mostrar de seu legado, dará preferência à produção e não à especulação, não trabalhará com privatizações e reformas sob as bases atuais e no ritmo como são tocadas, se “ninguém” aceita aumento de impostos para financiar a solução fiscal, mas há Refis para geral, então a isenção tributária vai começar pelo salário mínimo. 

O​ ​que​ ​o​ ​ex-presidente​ ​Lula​ ​disse,​ ​ao​ ​fim​ ​e​ ​ao​ ​cabo,​ ​é​ ​que, desta​ ​vez​, ​a​ ​“Carta​ ​ao​ ​Povo​ ​Brasileiro”​ ​terá​ ​de​ ​ser​ ​“escrita”​ ​pelo​ ​mercado. 

Quem perderá mais neste estica-e-puxa será uma incógnita, mas ao não confrontar Bolsonaro e nem de sinalizar ao mercado, a candidatura do ex-presidente perde duas oportunidades: a) testar a possibilidade de antecipar um cenário de vitória em primeiro turno nas pesquisas, agregando apoios da direita moderada - ainda mais com o PSDB enrolado em guerras intestinas - e dos que ávidos para derrotar o “fascismo”; e b) antecipar a projeção de sua imagem como o estabilizador para atores-chave das instituições (imaginem o impacto de pesquisas do mercado mostrando crença na vitória de Lula com a Bolsa pontuando nem que fosse em uma média justa com o período 2003-2010?) 

Para tal, bastam dois conceitos-chave: regulação política da economia em prol da justiça social e a do estado em prol da responsabilidade fiscal, devidamente reiterados.

 A imprensa noticiou que o ex-presidente Lula  buscou demover o líder do MTST, Guilherme Boulos, a lançar seu nome à presidência pelo PSOL. A pergunta que não quer calar, sendo isto verossímil, é por quê?

 Boulos na disputa fechará a conta de todos os relevantes partidos de esquerda terem candidatos, enquanto isso Lula ganha mais liberdade para se movimentar, sem estar acorrentado a esta ou aquela idiossincrasia sobre alianças, programa e narrativa. 

Não há semelhanças entre as origens do Impeachment e a crise da social-democracia na Europa.  Aliás, no principal país do Velho Continente, a Alemanha, o Partido Social Democrata (SPD) deu a mão à Angela Merkel para formar um gabinete, recuando da posição oposicionista. Novas eleições poderiam abrir mais oportunidades para a extrema-direita, que voltou ao parlamento, fato inédito desde 1945. 

Pelo visto, não é só no Brasil que saídas consistentes exigirão coalizões consistentes. É Coisa de grandes nações. Ou, então, que haja uma vitória eleitoral significativa, impossível no contexto hodierno nacional se apenas se reforçar a polarização. 

Por outro lado, articulações “esquerdo-criativas”, como o Podemos espanhol, seguem batendo prego no sabão, sonhando com o dia em que serão realmente alternativas de poder. Nada contra, só a distinção entre idealpolitik e wishful thinking.

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