Racismo e capitalismo de perversão

"Enquanto existir capitalismo não haverá chance para a maioria da população humana na Terra", afirma Marcia Tiburi

www.brasil247.com -
(Foto: Reuters/Brendan McDermid)


É o capitalismo que produz o racismo.

As pessoas vítimas de racismo fazem parte do contingente humano a ser eliminado pela política da morte que se alastra a cada dia. Ela não foi inventada hoje. Ela retoma o antigo tanatopoder, o poder da matança, no contexto em que muitos acreditam que o biopoder (o cálculo do poder sobre a vida) se sustentaria apenas no capitalismo de sedução pelo qual cada um se deixaria dominar em troca de conforto e diversão, apesar do trabalho pesado, da precarização da vida e da aniquilação da subjetividade. 

Enquanto houver capitalismo haverá racismo mesmo naquele capitalismo que finge negociar com as pessoas que ele mesmo racializa, proscreve e vitimiza. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O racismo é a forma moderna da xenofobia que já estava presente nas mais antigos impérios políticos e sistemas de pensamento. A xenofobia não foi superada, ao contrário, foi intensificada em racismo. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

George Floyd, assim como o vendedor ambulante nigeriano morto na Itália ou o grupo de africanos assassinados pela polícia espanhola em Melila, assim como Moïse Kabagambe, o jovem congolês morto a pauladas em um quiosque da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, não são exemplos fortuitos, mas casos de assassinato dentro de um projeto explícito dos Estados autoritários a serviço do capitalismo neoliberal e que tanto mais mira os corpos negros, quanto mais esses corpos lutam por emancipação contra o capitalismo. 

A matança de pessoas afrodescendentes nas favelas brasileiras, as chacinas produzidas pela polícia em nome do Estado são, além de extermínio racial, terrorismo que visa implantar o medo antes da morte chegar. O terrorismo é utilitário para o capitalismo de perversão que assedia o mundo hoje. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

No capitalismo de perversão não basta matar, é preciso ameaçar e aterrorizar, garantindo assim, o gozo perverso dos agentes do capital. Esses agentes do racismo são agentes do fascismo.

De forma muito direta: a matança é projeto do capitalismo neoliberal. O racismo leva à matança, ou melhor, ele é um com a matança. 

O ódio racista tem algo em comum com o machismo, um tipo de autoritarismo naturalizado na sociedade patriarcal. Ambos servem para alimentar uma economia psíquica que faz parte da produção do poder contemporâneo e que gera uma economia real e material. Nessa economia, pessoas afrodescententes são tratadas como corpos para o trabalho, assim como mulheres. Justamente diante disso é que, no capitalismo, a revolução das mulheres negras é a mais importante e significativa, porque, seus corpos estão na mira do capital, tanto por sua raça quanto por seu gênero. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ora, não há neoliberalismo sem racismo, machismo e outras formas de autoritarismo que fazem parte da estrutura do capitalismo. Só por isso já podemos dizer que o neoliberalismo, como forma contemporânea do capitalismo que gera tudo isso, é gêmeo do fascismo. Não é por acaso que neoliberalismo e fascismo compartilham seu nascimento e avanço na história do século 20. Ambos produzem subjetividades cínicas que obsedam subjetividades escravizadas pelo racismo, os racistas que são também fascistas. 

Não interromperemos a matança de pessoas (negras, mulheres, indígenas, ativistas, LGBTs e tanto outros), sem a análise e a desativação da máquina do capitalismo neoliberal que é a mesma que gera o fascismo. Para isso, precisamos assumir que o capitalismo é um totalitarismo. Ele é um sistema de opressão completo que ilude sobre a liberdade, o bem-estar e a verdade, numa eterna e repetitiva distorção e perversão do sentido de todas as coisas. 

Por fim, é um erro tratar a questão da opressão como questão de poder, como se o poder não fosse uma questão do capital. Não se deve esquecer que o capitalismo, por sua vez, é racista e patriarcal. Precisamos, portanto, questionar o capitalismo e buscar maneiras de desmontá-lo, o que não acontecerá sem a desmontagem do racismo e do machismo. 

Na sua forma de ser, o capitalismo ocupa todos os espaços e visa o domínio total do mundo e dos corpos. 

Enquanto existir capitalismo não haverá chance para a maioria da população humana na Terra. 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email