Racismo reverso imaginário

O assunto ficou me queimando o estômago durante vários dias

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(Foto: Filipo Studzinski Perotto)


02/02/2022

O assunto ficou me queimando o estômago durante vários dias, depois de ler o artigo intitulado  “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”, de Antônio Risério, publicado na Folha de SP do dia 15/1/2022. Usando fraseados retóricos, citações embaralhadas, e exemplos descontextualizados, o texto não conseguia esconder uma motivação política subjacente: atacar o movimento negro, desmoralizando a universidade e a esquerda, justamente quem atua de fato no combate ao racismo.

Como podia-se esperar, o artigo polêmico sobre um tema sensível gerou um número impressionante de reações (eu contei mais de 30 artigos em 10 dias, no site da Folha), a imensa maioria negativas. Em sua defesa, entretanto, insistiu-se em dizer que estariam atacando “apenas o autor” e não “seus argumentos”, ou que as críticas seriam apenas “viscerais”, “opondo-se à liberdade de expressão de um pensamento divergente”. O próprio Risério julga-se “vítima de censura” por parte de “patrulhas do politicamente correto” e “falanges da esquerda ideológica”. Os equívocos do texto foram, no entanto, apontados repetidamente. Em particular, e diferentemente do que alguns tem insinuado, a existência de “racismo estrutural” não é objeto de disputa dentro da comunidade acadêmica.

Um efeito nefasto do episódio, para além do dano causado pelo próprio artigo, é que o debate deixou um desagradável sabor de “mero duelo de narrativas”, como se fossem duas “torcidas” batendo boca. Essa sensação é muito clara quando se mergulha (como eu fiz) no pântano que são os comentários publicados pelos leitores, no fim da página de cada publicação. Isso porque, na Folha, os comentários são restritos aos assinantes. Mesmo assim, é de arrepiar.

Teorias mal-fundamentadas, como a exposta por Antônio Risério, precisam ser desmontadas e refutadas publicamente, de forma clara, rigorosa e sistemática. A ideia de “racismo reverso” não tem respaldo. Tais teses são marginais no mundo acadêmico, não por serem “perseguidas”, mas por não se apoiarem em evidências concretas. Não deveriam, portanto, receber atenção e espaço em veículos de comunicação que desejem respeitar a ciência e se afastar de teorias conspiratórias e negacionismos. 

Além disso, na defesa de Risério, seja por ingenuidade, seja por afinidade, tentou-se tratar o assunto como debate público sobre “tendências”, quando na verdade, trata-se de um ataque frontal, político e ideológico, contra o movimento negro, tentando colar-lhe uma imagem de “movimento terrorista”, de “perigo iminente”, ao denunciar, sem prova alguma, que seus adeptos fariam apologia à violência contra os brancos, citando “assassinatos” e “estupros”, e que estariam, silenciosamente, conspirando para “uma tomada de poder”. Trata-se de uma tentativa de caluniar e difamar o movimento negro. Assim Risério não deve ser tratado com “caridade”, como pediu um de seus defensores, mas sim com contexto: seu discurso corresponde à pratica das redes de pensamento da direita conservadora e da extrema-direita que procura criminalizar movimentos sociais, e de quebra, toda a esquerda junto.

Usando a Lógica

Alguns, para defender Risério, tentaram “equacionar” seus argumentos. Em lógica formal, quando aceita-se como verdadeira uma premissa falsa, pode-se “provar” dedutivamente conclusões falsas. Esse é exatamente o caso. Partindo da premissa de que o racismo estrutural não existe, o que resta são os episódios individuais de preconceito, injuria, ou violência racial (quando uma pessoa ameaça, ofende, ou agride outra por conta de sua cor, para dizer de forma simples). Daí todo o primeiro “equivoco”. Entre os participantes dos diversos grupos que formam o (heterogêneo) movimento negro, assim como entre cientistas sociais e juristas, não existe “tese” de que seria “impossível” um ato individual desse tipo partir, por exemplo, de um negro contra um branco. O fato é que não é um tema de estudo relevante, pois, tratando-se do mundo ocidental, em particular das Américas, e especificamente do Brasil, esse tipo de coisa só existe de forma isolada, e não sistemática, como é o caso das discriminações implícitas e explícitas e das violências físicas e simbólicas sofridas pelos negros, e praticadas consciente ou inconscientemente, não só por brancos, mas por toda a sociedade. Então não existe essa “tese a ser combatida”, como afirma Risério.

Outra coisa é o racismo estrutural. No meio acadêmico, esse é o verdadeiro sentido do conceito de “racismo”. Tal confusão no vocabulário, tomada como um erro, mostra que Antônio Risério é, no mínimo, um “intelectual” que está à margem da comunidade científica, um “outsider”. Na minha leitura, entretanto, não trata-se de um erro, mas de um artifício desonesto. O consenso nas ciências sociais é outro: de que existe, sim, racismo sistêmico no mundo ocidental, cicatriz aberta e profunda deixada pela escravidão negra, que no Brasil determinou a organização da sociedade dos séculos XVI até quase o século XX. Não é pouca coisa. O racismo estrutural é um conjunto de mecanismos sutis, que se manifesta de diversas formas, e que tem consequências sociais reais. Nesse sentido, é evidente que não existe “racismo reverso”, ou racismo contra os brancos. Independente da existência de exceções, não é preciso revisitar muito a historia do Brasil para constatar que os negros foram as principais vitimas desse sistema, e os brancos seus principais beneficiários.

Racismo Estrutural

Risério e outros acreditam que, o problema do racismo resume-se à existência de injuria racial, e secundariamente aceitam o fato de que a desigualdade social prejudica mais a população negra, que é em geral financeiramente mais pobre do que a branca, como se pode confirmar nas estatísticas censitárias. Assim, são contra as cotas raciais para negros na universidade, na política ou em cargos públicos, dizendo-se, no máximo, a favor de cotas sociais. O primeiro problema aí é que ignoram os estudos já feitos no Brasil e no mundo mostrando a eficiência dessas políticas de compensação no combate à discriminação e à desigualdade. 

O segundo problema é que, negando o racismo estrutural, negam a existência de centenas de tipos de discriminação, mais ou menos implícitas, que preenchem uma gama de matizes entre o crime de ódio racial, no extremo mais violento e direto, e a desigualdade social, no extremo mais indireto. O racismo estrutural, amplamente documentado, é o elo explicativo que liga o passado escravocrata, onipresente na nossa história e portanto na formação da nossa sociedade, aos fenômenos do racismo no presente: a recorrência de gestos explícitos de racismo (injuria e violência racial contra os negros), e o fato de os negros estarem na base da pirâmide de renda. Para piorar, não apenas nega o racismo estrutural, como também sugere que seja uma “invenção” da esquerda para fins doutrinários.

Em resumo: a partir da negação do racismo estrutural, esse discurso força a conclusão de que não há necessidade de políticas de compensação, e ao contrário, se estaria dando um “privilégio” aos negros, que poderiam “vencer na vida se quisessem”, e se não venceram até agora, é porque “a esquerda os hipnotiza”, fazendo com que “não se esforcem e fiquem reclamando”. Certos teóricos lamentam a disparição da ideia de Brasil como uma “democracia racial”, uma bela utopia, sem dúvida, mas que está na origem da negação do racismo que presenciamos hoje.

Risério sem rodeios

De bons cientistas (assim como de bons jornalistas) espera-se integridade e honestidade intelectual, e isso falta a Risério quando se autoproclama “corajoso” ou “visionário”, dizendo (nas suas próprias palavras) que “as milícias identitárias são brutais e truculentas”, “os identitários endeusam-se a si próprios”, “acham que são donos absolutos da verdade, que são moralmente superiores ao resto da espécie humana, querem dominar o mundo”, “levam a intolerância ao extremo”, “fazem isso reunidos em bandos”, “se tivessem poder, promoveriam banimentos e fuzilamentos”, “são obtusos, incapazes de enxergar um palmo além do seu nariz ou do seu quintal”. 

Na sua modéstia acadêmica, Risério diz que “é preciso ensinar os universitários e professores universitários a ler e escrever” e que o ambiente acadêmico, que o ignora, praticaria “covardia intelectual”. Com relação ao racismo estrutural, diz que “essa conversa de dívida histórica é picaretagem”, que seria um “truque, de enganar o povo, dizendo que todos eles foram vítimas do homem branco”, que “a autovitimização é um atalho para a autonobilitação”, que “cotas não são realmente necessárias”, que “dentro do PT, tudo que índio, preto, veado ou mulher diz, não se discute”, que só querem “celebrar os oprimidos”. Esse é Risério sem a roupagem intelectual, numa entrevista publicada em 2019, se autodefinindo da seguinte maneira: “não tenho medo de nada, montei uma plataforma de lançamento de mísseis político-culturais, e não vou parar de lançá-los.”

Gurus ideológicos: Antônio Risério faz lembrar Olavo de Carvalho

Antônio Risério, mais do que promover um debate sobre racismo, parece estar querendo ocupar o espaço de seu “ideólogo de direita”, de forma muito semelhante ao que fez o recentemente falecido Olavo de Carvalho, difusor da teoria do “marxismo cultural” e defensor da “superioridade” da cultura judaico-cristã europeia, que é outro “guru” sem relevância acadêmica, mas altamente popular entre um certo público carente de respaldo intelectual. Ambos publicam livros marcados antes de mais nada por um ativismo antiesquerda, e para justificar o fato de serem ignorados, filiam-se à teoria conspiratória de que seriam vítimas dos “esquerdopatas” que dominariam as universidades. 

Tal como Olavo de Carvalho, Antônio Risério é um autor academicamente irrelevante. Sua produção científica, pouco citada, remonta aos anos 90. De resto são livros bancados pelas editoras. A polêmica desperta paixões e vende bem. Seu artigo seria rejeitado em qualquer periódico científico sério. O autor, em todo o caso, já está curtindo o ganho de visibilidade nacional: tendo-se tornado o personagem principal da pauta de costumes do mês de janeiro, promete publicar mais um livro. Poderá pretender, se assim o desejar, a um cargo eletivo em 2022.

Olavo de Carvalho, alias, também foi projetado graças ao espaço dado por grandes jornais. Na Folha, em 1997, antecipou Risério em 25 anos: “Como negros e mulatos puderam subir tão alto, numa sociedade escravocrata, enquanto seus netos e bisnetos, desfrutando das liberdades republicanas, paparicados pela 'intelligentsia' universitária, não conseguem hoje produzir senão samba, funk e macumba e ainda se gabam de suas desprezíveis criações?”, “não tinham bebido o veneno universitário norte-americano”, “suas remotas origens africanas tinham sido neutralizadas”, “a cultura a que tinham se integrado não era branca, mas universal”, “era mais útil e mais honroso para o negro vencer individualmente do que ficar choramingando”, “em vez de buscar falsos consolos no ódio aos colonizadores, souberam se integrar criativamente no mundo cristão”, e termina acusando o movimento negro de “demagogos e palhaços”.

Ativistas políticos: Sérgio Camargo traduz Antônio Risério 

Sérgio Camargo, também negacionista, colocado pelo atual governo de extrema-direita à frente da Fundação Palmares, diz a mesma coisa que Antônio Risério, porém de forma muito mais clara, e com a vantagem de ter o lugar de fala a seu favor. Camargo se refere ao movimento negro como "escória maldita" e "vagabundos", e se autodeclara “o terror dos afromimizentos e da negrada vitimista”. Segundo ele, “o Brasil não é um país racista” e “a pele negra não é, no Brasil, um obstáculo para que ninguém prospere”. Mais precisamente, “o racismo no nosso país, de jeito nenhum e em hipótese alguma, é estrutural ou institucional, como sustenta a esquerda. O racismo é circunstancial e episódico. É um racismo que se expressa através de alguns imbecis que por algum motivo têm essa mentalidade lamentável”. Para completar, sustenta que a escravidão foi "benéfica para os descendentes" de escravizados no país, e que “a propagação do revanchismo racial da reparação histórica não faz sentido algum”.

Para Sergio Camargo “não há salvação para o movimento negro, precisa ser extinto, fortalecê-lo é fortalecer a esquerda”. Trata-se de “militância negra idiotizada”, “negros de coleira”, “negros vitimistas, ressentidos e rancorosos”. Quanto ao dia da consciência negra, “celebra a escravização de mentes negras pela esquerda.”, “no Brasil de hoje Zumbi seria um bandido ou defensor de bandido, integrante do MST”. Na sua visão, “é preciso que o negro se liberte, que dê as costas a esse movimento e busque no estudo, na disciplina, no mérito, no trabalho, na família, na pátria e na religião as forças para vencer as dificuldades”.

Não dá pra fugir do fato de estarmos vivendo a tragédia bolsonarista, que tem as “pautas de costumes” como central. O atual presidente, em seu discurso de posse, declarou estar libertando o pais da “inversão de valores e do politicamente correto”. Ja havia dito, sobre um quilombo, que "o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas; não fazem nada! nem para procriador não serve mais; mais de um bilhão por ano se gasta com eles". Esse é o contexto onde está inserido o artigo de Antônio Risério.

Racismo Reverso Imaginário, Ameaça Neonazista Real

No mesmo dia em que o artigo de Antônio Risério foi publicado, enquanto a Folha prestava esse desserviço, insuflando as redes sociais com um problema imaginário, e motivando um raro motim dentro da própria equipe, com um manifesto assinado por mais de 200 de seus jornalistas, o programa Fantástico, da rede Globo, exibia uma impactante reportagem mostrando o aumento da atividade neonazista no país, e da iminência do desencadeamento de episódios de violência real, motivada por discurso de ódio.

Em seu artigo, Antônio Risério utiliza exemplos anedóticos no intuito de descrever o movimento negro e seus diversos “coletivos” como uma espécie de “movimento neonazista reverso”, que simplesmente substitui o ideal de “supremacismo branco” pelo do “supremacismo negro” (defendendo estupros e assassinatos). Além de provavelmente incorrer em crime de calúnia e difamação, existe aí uma falácia (termo usado em lógica quando se falsifica uma prova). Mesmo que existam, constatar casos isolados não justifica supor uma tendência. Assim, parece-me que, ou o movimento negro está “tramando” sua “tomada de poder” de forma ultra-secreta, ou essa percepção existe apenas na imaginação de Antônio Risério e de outros que compartilham tal teoria conspiratória. 

O mesmo artifício falacioso é a base do seu livro sobre as “sinhás pretas”, ao citar casos de pessoas negras no Brasil que teriam conseguido ascender socialmente em pleno período escravocrata. Tais exemplos, talvez dezenas ou centenas, podem servir para ilustrar a complexidade e a perversidade do sistema, mas não tem nenhuma relevância considerando-se as atrocidades vividas por milhões de negros sequestrados, escravizados, explorados e massacrados por uma política de Estado, durante mais de 300 anos, numa sociedade então oficialmente regida pela dominação branca.

O papel da Folha

Marcos Augusto Gonçalves (editor do Ilustríssima), responsável por abrir diversas vezes o espaço da Folha para Antônio Risério, já havia escrito no jornal em 1992 (há 30 anos) sobre seu desconforto com o movimento multiculturalista, que denunciou como “radicalização dos lobbies minoritários”, “neo-separatismo voluntário”, e “febre do preservacionismo de raízes”. Em comunicação privada comigo, não demonstrou nenhuma inquietação com a repercussão, e disse que continuaria dando espaço a Risério assim que lançasse novo livro: “quando sair, analisamos”. Além dos próprios artigos de Risério, Leandro Narloch havia publicado um artigo poucas semanas antes, sugerindo que o movimento negro deveria se inspirar no “empreendedorismo” das “sinhás pretas”, gerando grande revolta dos leitores. Uma desagradável recorrência no tema.

A Folha, na sua resposta oficial, tentou defender-se dizendo que promove um pluralismo irrestrito, e (repetindo o próprio Antônio Risério) ponderou que não publicar o texto seria um gesto de censura. Assim Risério (e nesse episódio, a própria Folha) se apoiam numa estratégia que hoje é muito usada pelo bolsonarismo: bradar uma suposta defesa da “liberdade de expressão”, ameaçada por uma “patrulha do politicamente correto”.

Mas o fato é que a Folha faz escolhas. Não é qualquer um que pode escrever o que quiser. Por isso não vemos terraplanistas, nazistas, ou "cloroquiners" publicando artigos. Escolhe defender a descriminalização da Maconha. Escolhe não ter nenhum colunista bolsonarista. A Folha possui, sem dúvida, “fronteiras largas”, mas o microfone não é livre, desprovido de filtro. A Folha é um ator político, seus colunistas tem o privilégio de ter espaço no maior jornal do país. O tema do racismo não é um simples exercício filosófico genérico dissociado de contexto, mas está no centro de uma disputa política séria nos últimos anos com a ascensão do regime bolsonarista.

Nenhum assunto nem ninguém é intocável. Todas as “verdades” estabelecidas são passíveis de dúvida. Todos nós somos passíveis de crítica, na universidade, na ciência, e nos movimentos sociais inclusive. São empreendimentos humanos, recheados de subjetividade, e portanto, avançam tateando. Mas para que a crítica gere um debate construtivo, é preciso responsabilidade, honestidade intelectual, e rigor. Distorcer, confundir, e difamar com objetivo político e midiático não é crítica. A revolta contra o artigo de Risério vem daí. A dureza dirigida à Folha pela publicação vem do fato de ser hoje o veículo jornalístico brasileiro de quem mais se espera integridade. 

Exemplos desse tal racismo

A violência aparece no jornal. Nesse ciclo de duas semanas, ao menos 3 casos de violência ligada ao racismo foram divulgadas pela Folha, entre as ameaças nazistas feitas a um participante negro do reality-show, a abordagem policial violenta a um negro que estava ao volante de seu próprio carro, culminando com o assassinato do trabalhador congolês na Barra da Tijuca. Mesmo assim, tem gente que insiste em dizer e publicar que “não vê racismo”, e que acha que é invenção, ou “mimimi”, mesmo que as estatísticas digam o contrário. Se o que é evidente é negado, imagine-se o que exige mais sensibilidade para entender?

A filha de João, um amigo meu, que é negro, voltou da escola triste, o amiguinho havia dito que seu cabelo era “ruim”. O menino provavelmente ouve isso dos pais, e repete inocentemente. A família de João já conhece a agressão, como tantas que negros costumam ouvir ao longo da vida. Hesitaram entre fingir que “não era nada” dizendo para “não dar bola”, ou explicar que era o garotinho quem estava errado, e que o cabelo dela “era bonito sim”. Por sorte não orientaram a filha a responder, senão seriam acusados de “racismo reverso”. A minha filhinha é loira, quando passeamos pelas cidades do Brasil, por diversas vezes desconhecidos nos abordam: “como é linda”, “princesa”, “vai ser artista de tevê”. Em toda a sua boa vontade, estão apenas fazendo mais um elogio racista, ainda que de forma inconsciente: “linda porque loira”. 

Para mim, homem e branco, a liberdade de sonhar sempre foi irrestrita: eu podia querer ser o que eu quisesse, sem nunca ser “reenviado ao meu devido lugar”. Isso não é verdade para João, que foi o único negro na sua turma de faculdade, e que era tácita mas permanentemente lembrado disso. O assédio é uma forma sutil de violência moral, através de humilhação, ofensa, constrangimento, que destrói nossa confiança em nós mesmos. Negros passam a vida no Brasil nesse dilema: deixar pra lá pra não se incomodar, ou tomar consciência. Quando isso acontece, é um caminho sem volta, que causa indignação crescente a cada agressão vivida ou presenciada. João sabe que, mais dia menos dia, sua filha chegará a essa encruzilhada, por mais que tente protegê-la.

Daria pra citar tantas historias: do negro que, correndo para não chegar atrasado ao vestibular, foi preso (“negro correndo é bandido”), da negra que respondeu a uma grosseria e foi demitida, do negro que nunca foi promovido pois seu comportamento não era adequado, ou simplesmente porque não se via nele um quadro promissor, da menina negra que nunca assiste desenhos animados onde os super-heróis são como ela, do negro que foi preso por engano e ficou um mês esperando para ser ouvido, do grupo de negros que foi abordado com truculência pela policia, da negra que foi seguida e revistada pelo segurança do shopping pela sua “atitude suspeita”, do CV com foto que acabou sendo preterido, não se sabe bem por quê, da negra que não teve o emprego por que exigia “boa aparência”, do negro que sabe que “é melhor baixar a cabeça”. Convido a Folha a abrir espaço para as pessoas negras que queiram contar situações de racismo, de preferência os mais sutis, para que os leitores que não entendem, tenham ideia do que é.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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