Raí lembra ao Brasil que caráter vale mais do que patrocínio
Ex-capitão da Seleção Brasileira faz um contundente alerta sobre as bets e revela uma trajetória que une futebol, educação e compromisso público
Entre um jogo e outro da Copa do Mundo, a entrevista de Raí convida o leitor a interromper, ainda que por alguns minutos, a sucessão de análises sobre esquemas táticos, favoritos ao título e desempenho da Seleção Brasileira. O futebol aparece em quase todas as perguntas, mas a conversa alcança um território muito mais amplo quando o ex-capitão trata da expansão das bets no Brasil.
“O efeito das bets na sociedade brasileira é devastador". A frase resume uma preocupação que não nasceu agora. Raí revelou ter recusado cerca de 15 propostas para promover empresas de apostas esportivas. A informação ajuda a compreender a força de sua crítica. Num ambiente em que clubes, campeonatos, ex-jogadores, influenciadores, artistas e veículos de comunicação passaram a depender desse dinheiro, ele preferiu abrir mão de contratos lucrativos para preservar a coerência entre o que pensa e o que faz.
Foi justamente essa coerência que mais me chamou a atenção. É fácil condenar um modelo de negócios depois de nunca ter participado dele. Muito mais difícil é dizer não quando as propostas chegam à mesa e carregam cifras capazes de mudar o patrimônio de qualquer pessoa. A credibilidade de Raí nasce exatamente dessa escolha.
O debate sobre as apostas esportivas deixou de interessar apenas ao mercado do futebol. As plataformas ocupam transmissões de televisão, camisas, placas de publicidade, programas esportivos e redes sociais numa intensidade inédita. Ao mesmo tempo, crescem os relatos de famílias endividadas, jovens atraídos pela promessa de ganhos rápidos e consumidores incapazes de interromper o ciclo das apostas. Não se trata mais apenas de entretenimento. É uma questão social que exige regulamentação eficiente e fiscalização permanente, exatamente como defende Raí.
Enquanto avançava pela entrevista, comecei a perceber que aquela posição não poderia ser compreendida isoladamente. Ela faz parte de uma biografia construída muito antes da fama.
O Brasil inteiro conhece Raí. Pouquíssimos sabem que seu nome de batismo é Raimundo Souza Vieira de Oliveira. O apelido de infância acabou substituindo completamente o registro civil. A simplicidade do nome combina com uma trajetória que sempre evitou transformar prestígio em espetáculo.
A família ajuda a explicar muita coisa. O pai, Raimundo Vieira de Oliveira, funcionário público e autodidata, concluiu três cursos universitários ao longo da vida. Era apaixonado pela filosofia grega. Tanto que batizou os filhos mais velhos de Sócrates, Sófocles e Sóstenes. Cogitou dar ao caçula o nome de Xenofonte, ideia rejeitada por dona Guiomar antes do registro em cartório. Mais importante do que a curiosidade é o ambiente em que aquelas crianças cresceram. Livros e futebol nunca foram apresentados como escolhas opostas. O estudo era tratado como parte natural da formação humana.
Talvez por isso o menino tímido tenha encontrado justamente no futebol o caminho para descobrir a própria voz. O próprio Raí já contou que tinha enorme dificuldade para falar em público e fazer amizades. A bola lhe ofereceu muito mais do que uma profissão. Deu-lhe confiança para ocupar espaços que, na infância, pareciam inacessíveis. Antes de formar um grande jogador, o futebol ajudou a formar um cidadão capaz de dialogar com naturalidade em universidades, conferências internacionais e debates sobre políticas públicas.
Em 2013, Raí foi condecorado pela França com a Legião de Honra, a mais alta distinção civil do país, criada por Napoleão Bonaparte em 1802. A homenagem não reconheceu apenas o craque que ajudou a transformar o Paris Saint-Germain em um dos protagonistas do futebol francês. Reconheceu também o cidadão comprometido com educação, cultura e inclusão social. Poucos brasileiros ligados ao esporte receberam tamanho reconhecimento da República Francesa.
A relação construída com o país tornou-se ainda mais profunda ao longo dos anos. Raí adquiriu também a cidadania francesa, um gesto que simboliza pertencimento, mas nunca afastamento do Brasil. Ao contrário, passou a viver entre duas culturas e a aproximar experiências que considera complementares. Não por acaso, tornou-se uma das vozes mais respeitadas quando o assunto é a capacidade do esporte de produzir desenvolvimento humano.
O prestígio conquistado na França reapareceu de forma simbólica em julho de 2024. Raí foi escolhido para conduzir a tocha olímpica pelas ruas de Paris, privilégio reservado a personalidades cuja trajetória ultrapassa o campo profissional e alcança significado para a sociedade. Poucos atletas recebem um convite dessa natureza décadas depois de encerrar a carreira.
A entrevista também revela um homem que continua observando o futebol com serenidade. Ao analisar a Seleção Brasileira, evita procurar culpados ou fabricar explicações simplistas. Lembra que Carlo Ancelotti assumiu uma equipe ainda em construção, elogia o talento de Vini Júnior, Endrick e Neymar, reconhece a grandeza de Lionel Messi sem diminuir a dimensão histórica de Pelé e demonstra entusiasmo ao falar da série documental sobre Sócrates, dirigida por Walter Salles. Em todas as respostas, aparece a mesma característica: equilíbrio intelectual aliado à experiência de quem conhece o futebol por dentro.
Outro aspecto chamou minha atenção. Raí tornou-se pai aos dezoito anos e avô aos trinta e três, uma experiência pouco comum para um atleta de elite. Talvez por isso sempre tenha demonstrado uma maturidade que contrastava com a idade. A responsabilidade chegou cedo e parece ter ampliado sua percepção sobre aquilo que realmente permanece quando as arquibancadas silenciam.
Essa mesma simplicidade aparece em escolhas cotidianas. Há quase vinte e cinco anos, decidiu viver sem automóvel. Caminha sempre que possível, utiliza transporte público e costuma dizer que essa opção lhe devolveu uma relação mais humana com a cidade. Enquanto muitos associam sucesso ao isolamento proporcionado pelos vidros escuros de um carro, Raí prefere permanecer ao alcance das pessoas, observar o cotidiano e conversar com desconhecidos. É uma decisão aparentemente pequena, mas coerente com toda a trajetória que construiu.
Terminei a leitura convencido de que o Brasil produziu inúmeros jogadores extraordinários, mas poucos homens públicos da estatura de Raí. Sua autoridade não nasce apenas dos títulos conquistados, mas da coerência entre pensamento e ação. Estudou quando a fama lhe permitia acomodação. Investiu em educação quando poderia limitar-se aos negócios. Recusou contratos milionários para preservar convicções. Num tempo em que tantas figuras públicas ajustam o discurso aos patrocinadores, Raí fez o caminho inverso. Primeiro definiu os princípios. Depois construiu a própria biografia em torno deles. Talvez seja essa a maior vitória de sua carreira — uma vitória que não aparece nas estatísticas, mas permanece inteira na memória de quem ainda acredita que o esporte pode formar cidadãos antes de fabricar ídolos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

