Rede Globo versus Oligarquias Partidárias: parteira da “nova política”?

Embora se saiba o que fazer e estando o cenário em aberto em diversos pontos, a única certeza que há agora é que nada de novo será feito de fato, pois depende em grande parte, ainda, o Partido dos Trabalhadores da colheita dos frutos que não plantou

Embora se saiba o que fazer e estando o cenário em aberto em diversos pontos, a única certeza que há agora é que nada de novo será feito de fato, pois depende em grande parte, ainda, o Partido dos Trabalhadores da colheita dos frutos que não plantou
Embora se saiba o que fazer e estando o cenário em aberto em diversos pontos, a única certeza que há agora é que nada de novo será feito de fato, pois depende em grande parte, ainda, o Partido dos Trabalhadores da colheita dos frutos que não plantou (Foto: Deivison Souza Cruz)

A crise atual possui múltiplas facetas, e uma das mais difíceis de serem compreendidas consiste na legitimidade das elites políticas. Tal legitimidade foi abalada por múltiplos fatores aos quais dificilmente poderiam ser enumerados e descritos profundamente na presente nota. A multiplicidade de interpretações que enquadram a conjuntura em termos de moralismo e de ética recai no pedantismo de desconsiderar os interesses, recursos, alianças e movimentação dos atores.

Nesse sentido, reconhece-se que são muitos, senão a maioria, os que buscam a crise política em termos de crise moral e ética. Tais analises são avessas a ruptura maquiaveliana (séc. XV) que expôs o centro da política como disputa de interesses aos quais são mobilizados recursos. Neste ponto que uma minoria de analistas erra menos ao toma tal questão como central. É esse ponto que tais enquadramentos buscam compreender o lapso de legitimidade entre os príncipes e candidatos a príncipes.

Outro ponto é que a questão aqui colocada não se relaciona (no momento) aos nomes colocados a baila e os recursos de cada um. Deixarei tal ponto para outro momento. Tampouco os eventos de semana passada (segunda de julho de 2017), em que no mesmo evento enterrou-se a CLT e condenou-se Lula a prisão. Simbolicamente ali se condenou toda a classe trabalhadora. A questão é com que legitimidade isso é feito? Esse é o ponto central da presente nota.

A legitimidade burocrática, expressa no cumprimento das regras e códigos legais, personificado na figura de moro, só ganha respaldo de fato com o verniz midiátido, que tenta blindá-lo como herói da justiça. E de pouco basta bradar que esta legitimidade inexiste, pois o foram efetivas. Além do poder burocrático, a aquiescência ao poder depende de vergar-se ao tradicional e no carisma (as três fontes de dominação, lembra Weber). Todas as três estão em crise no atual momento, e ainda assim as favas na atual crise política e econômica.

O ponto principal da crise de legitimidade relaciona-se, a saber, se as mesmas são conjunturais ou estruturais na democracia, ao qual destaca-se as denúncias de corrupção como capazes de corroer governos; ora de modo mais profundo ao conjunto das demandas não atendidas, evidenciando crises da democracia, onde a própria ruptura democrática é uma possibilidade. Nesse ambiente entre o fogo e a frigideira cabe destacar dois afluxos convergentes de interpretações ao nível internacional e local:

<> os que veem a crise como resultado de um projeto de restrição sistêmica da arena democrática a nível global ( ao qual destaca-se Chomsky, que me lembrei a pouco);
<> ou a nível local dificuldade histórica de incorporação das massas populacionais no processo político (Jessé Souza e Mara Telles, dentre outros);

A estas visões acrescento que parte do problema decorra também, em amplas posições do espectro ideológico e partidário, do hiato geracional que separa as lideranças políticas e parcelas consideráveis da população economicamente ativa. Hiato geracional é mais que diferença de idade, e a própria diferença de idade expressa um hiato comunicacional, de idade e simbólica entre lideranças formais e liderados informais.

É sobre o hiato geracional que a Globo capturou parcelas do poder burocrático para atacar as fontes de poder tradicional expressas nas elites partidárias, e no poder decorrente do carisma, persoficado na figura de Lula. Ao mesmo tempo, a Globo sabe que o poder burocrático não se sustenta por si só, e investe em uma guerra de vida e morte para construir novas fontes de poder tradicional investindo no esteio de mudança das elites políticas, seja intra partido, seja com novos partidos, mas sobretudo com novas lideranças jovens carismáticas, apesar destas terem cada vez menos poder político vis a vis as forças de mercado.

Trata-se, portanto, da captura do poder político tradicional e carismático pelo constructo de uma nova elite burocrática subordinada a mídia e conectado ao capital internacional. É nesse hiato geracional, mais profundo, que a algum tempos afirmo que a crença na legitimidade do golpe depende igualmente que seja apeada do poder a elite política e judiciária tradicional para dar lugar a uma mais jovem pró-mercado, articulada e subalterna aos meios de comunicação, em especial a Globo, esta ligada de forma íntima aos centros do capitalismo mundial. A crise evidencia um problema, mas o mais importante é que abre uma oportunidade impar a alguns atores.

No caso da Globo, trata-se do papel de vanguarda da consciência, e da formação do subconsciente nacional, capaz de acomodar os conflitos e amalgamar a aquiescência letárgica entre os miseráveis e a classe trabalhadora. Os Marinhos são os Lenines de 2016. Eles só confiam em quem podem controlar, mas também sabem que a crise aberta é tão profunda que a tibieza e postura hesitante das facções põe em risco o próprio golpe, e abre espaço e oportunidade do seu papel de domínio.

Sem a Globo tocando de ferrão o judiciário, a elite paulista e toda sorte de zumbis, não haveria o golpe de 2016, dificilmente haveria golpe. Mas os frutos não caminham sozinhos até o cesto, nem crescem no campo tal qual cogumelos depois da chuva. Servindo a Globo como articuladora entre diversas elites que conjuraram forças cotra Dilma, Lula e o PT, luta esta por um papel central na condução política do governo.

Temer é a ponte para o passado em termos formação do imaginário nacional. É uma ponte para o século XIX, em que se misturam a velhacaria nauseante, a completa falta de escrupulos e falta de discrição necessária a uma elite dominante, com o hiato ainda maior desta com o grosso da população economicamente ativa (GPEA), entre os 25 e 35 anos. Arriscariamos que, se o problema das esquerdas é que diferem desta faixa por uma geração, a dos velhacos é de duas ou mais.

A Globo sabe que precisa de uma elite mais jovem para dominar essa GPEA e fará de tudo pra produzií-la. E a legitimidade e recursos para tal decorre mais do que pelo seu papel como uma das articuladoras centrais do golpe, legitimidade que pode ser ou não reconhecida pelas demais facções, ancorar-se em uma miríade de favores, mas também por seu poder de fogo na produção de consensos, anuência e passividade pró-mercado.

Esse papel micro-sociológico do canhão midiático a ligação deste com o núcleo pensante do capitalismo global é que torna a emissora com um papel impar no processo.

Há múltiplos centros no golpe. Nós destacamos (1) núcleo burocrático-judicial (Golden Boys MPF/ Moro/ PF vs. velha elite do judiciário), (2) o núcleo ideológico (Globo, Civitas, etc.), (3) o núcleo econômico (elite paulista, capital financeiro internacional, empreiteiras deladoras), (4) o núcleo político (PSDB vs. PMDB). No momento atual, de briga entre as diversas facções, evidencia-se a luta campal aberta dos dois primeiros contra o último.

As razões para tal disputal, no que divergem apenas quanto ao comando posterior, e não no ataque a classe trabalhadora, relaciona-se aos custos operacionais da política. Numa primeira batalha, anterior a atual, o núcleo ideológico, burocrático e político abriram fogo contra parcela dos capitalistas nacionais como meio de derrubarem o PT do governo. Tal artilharia não se deu sem sequelas, pois configura de imediato a subordinação dos clãs empresariais antes articulados com o desenvolvimentismo lulo-petista, e os custos tradicionais da corrupção, com os demais clãs.

Ao mesmo tempo, o núcleo ideológico, econômico e parcelas do núcleo burocrático, promovem a redução e subordinação da política, mesmo a política tradicional e conservadora em prol da prioridade para as relações de mercado. Esse é o sonho dourado dessas facções. Isto porque o princípio da maximização de lucros via exploração da mais valia quer pagar taxas operacionais cada vez menores aos políticos, seja via corrupção, seja via políticas redistributivas (de esquerda).
As facções ideológicas, econômica e burocrática abriram guerra campal para enfraquecer e subordinar as instituições políticas como um todo, reduzindo seu papel subsequente a gestão de mercado e repressão. Embora esse seja o desejo, não se trata de convertê-los diretamente em ação sem que existam reais oportunidades. Parte considerável da elite política que domina o cenário partidário ascendeu no curso do processo de democratização, estando esta elite hoje em vias ou de fato na aposentadoria, embora ainda no exercício do poder. Esse é o problema.

A crença de parcela do Grosso da população economicamente ativa, ascendente em termos de cosnumo nos anos dourados do lulo-petismo, é frágil em termos de sua ligação com o aparelhos políticos, razão pela qual a brecha de mercado em suas consciências é uma abertura infindável de imbecilidades. Tanto por parte da classe média tradicional quanto pela maioria dos ascendentes, o mercado, e não o Estado, o dinheiro e não as pessoas, é prioritário.

A ascensão social seria resultado de sua nobreza latente, não da convergência entre esforço e ambiente de oportunidades criados pelo Estado. Eís aqui o limite da consciência de classe de grande parte dessa geração. Foi nessa brecha que os aparatos ideológicos de mecado, notadametne a Globo, os Civita, etc, reforçou o elo entre a permeabilidade da classe média tradicional aos ascendentes pela convergência ideológica.

Em outro flanco, grupos extremistas de direita, formados sobretudo pelos fracassados da baixa classe média baixa dos anos de lulo-petismo, atuou na brecha da baixa imunidade psiquica, aproveitando-se especiamente ds mídias sociais e aplicativos de comunicação para fumigar o medo e ódio na sociedade. Entretanto, mesmo que a velha mídia tenha perdido parcelas consideráveis de seu poder, ela persiste central na produção e disseminação de conteúdos, ancorando-se tanto nos amplos recursos, quanto na conformação de reputações de credibilidade aos quais o público utiliza-se para ancorar seus posicionamentos individuais, mesmo ue sejam estes por puro hábito.

Ressalva-se que ondas de noticias falsas, com efeitos devastadores e geralmente relacionados a emergência de novas tecnologias e guerras (a florescência da imprensa pós revolução industrial), o papel do rádio antes e após a I Guerra Mundial na propaganda de guerra, o papel do cinema e da TV, o papel crescente da internet, e agora das mídias sociais, sempre esteve relacionado a produção e disseminação de conteúdos com intuitos ideológicos, sendo as noticias falsas parte da disputa política.

Tem sido no interrégno entre a disseminação de uma nova tecnologia e a capacidade/ habilidade/ resiliência individual em reistir a propaganda e separar fatos e fontes verificáveis de mentiras que o pânico se dissemina. Enquanto os individuos não criam anticorpos para as mentiras, elas os afetam e a própria sociedade. Em outras palavras, quando as pessoas perdem a noção do que seja verdadeiro ou falso, elas tornam-se frágeis em termos de pontos de referência para que se orientem e se posicionem frente a realidade. cosntruçãod e discernimento leva tempo e experiências concretas com o fracasso e a ilusão.
O papel da deisnformação, pelo seu conteúdo e mutiplicidade de desinformação, torna-se tanto o relógio e voz doce do pêndulo dos hipnotizadores, quanto o ruido que impede de ouvir um trêm, carro, aviã, música ou o choro d eum bebe a pocos metros. Muito dessas tecnologias sociais, psicológicas, de distorção da realidade convergiram devido a interesses externos, onde softwares de mapeamento de perfis individuais permitiram cevar as consciências não mais pelos monitores de TV, mas diretamente pelas telas de celular.

As revoluções coloridas que levaram a entrega de reservas de petróleo do norte da África e Oriente Médio, a captura de repúblicas ex-coministas, sendo a mais recente a Ucrânia pela Otan, não são uma fantasia de teóricos da conspiração.

No caso do Brasil, a transição demográfica tem feito com que haja um percentual elevado da população jovem no papel produtivo, com diferença de idade ao menos de uma geração para com a elite política. Havia e há condições profundas, que podem ser acirradas, para uma crise de legitimidade. Embora em outras épocas o poder da gerontocracia brasileira assumisse características menos conflitantes, o advento de rápidas mudanças culturais, sociais e de comunicação criaram condições para que o fosso de legitimidade se aprofundasse.

Tal efeito não foi resolvido pela absorção das novas gerações ao cenário político. Porque tal socialização política dentro dos partidos e dos movimentos sociais não ocorreu. Todas as fichas do lulo-petismo foram jogadas na integração, necessária, diga-se, pelo consumo no mercado. Foi nesse vácuo que as novas tenologias encontraram um campo fértil e não disputado, onde toda sorte de patologias pudessem encontrar crédulos assíveis de serem mobilizados para derrubar Dilma em 2014.

Os custos estratosféricos gastos pelos golpistas para monitoramento de redes socias, na disseminação de borgs e boots, e na diferneça de votação entre Aécio e Dilma justamente nos grandes centros urbanos do Centro Sul, onde o consumo de smartphones e de internet é maior, é sintomático das operações de guerra que ainda vivenciamos pela dipusta da consciência.

As condições prévias já existiam, faltava que a credibilidade interpessoal no compartilhamento de conteúdo reverberasse o unissono do Fora Dilma. Fatores econômicos, a seca, a paralisia decisória no Congresso foram apontados em diversos outros estudo, bem como o componente de propaganda. O terreno fértil onde tais fatores ganharam as proporções vistas demanda ainda estudos.

Junho de 2013 converge assim diversos fatores, mas o que me chama a atenção é onde estavam aqueles jovens do grosso da PEA que não nos partidos políticos e movimentos sociais? Foram mobilizados em grande parte por efeitos de guerra psicológica cevada por novas tecnologias. Essa característica disruptiva aprofundou o problema de legitimidade que dificilmente será resolvido pelas lideranças tradicionais.

Trata-se também de uma mistura da Teoria da Lei de Ferro das Oligarquias (ver Michels) com guerra psicológica e de mercado no estado mais sofisticado que já vi a olho nu. O ponto nevrálgico da estratégia funda-se na ideia de que todo o ataque aos políticos tradicionais e sistema partidário torna necessário uma nova elite que ela possa comandar/ subordinar diretamente.

Como os partidos cerraram as portas aos mais jovens, foram estes desligitimados por fora dos partidos. O fato de eleitores terem deixado de votar e o Congresso conservador eleito seja ainda mais impermeável aos jovens tem elevado a octanagem do conflito. Partidos novos, ligados diretamente ao sistema financeiro, esforços de rejuvenescimento cosmético dos partidos pinçando novas lideranças tem sido atropelado pelo curso dos acontecimentos.
Em parte, juntamente com o eleitorado, os cacos do sistema político e eleitoral brasileiro antes sinalizado para o anti-partidarismo e alienação, emergem agora se reagrupando no extremismo de direita, onde a saída fascista de Bolsonaro encontra lastro profundo pela capilaridade de grupos neonazistas, neofascistas e de apoio latente/ explícito a ditadura militar.

A Globo pretende subordinar essas facções por seu caráter faccionista e polarizadr na sociedade, divergente das narrativas acomodadoras e subordinadoras do conflito, presentes nas novelas. A globo bate nos atores reais da política nos noticiários, enquanto assopra a consciência nacional com contos de gata borralheira nas novelas.
Sem uma nova narrativa reagrupadora e acomodadora dos conflitos na sociedade brasileira, as chances das contradições acumularem-se ao ponto de tornarem-se explicitas e destas para conflitos políticos de grande monta eleva-se a cada passo. Esse é o temor, mas também o cenário estratégico ao qual a empresa busca se legitimar, na condução psicológica das massas.
Não se sabe onde, não se sabe qual será o estopim, mas o que se sabe é que em algum momento o barril de pólvora de diferenças regionais, de raça e de renda podem resultar em guerra campal. A Venezuela que a Globo conjurou e produziu pode torna-se verdade uma vez que os trabalhadores e pobres, o subúrbio pobre, não voltou a sua normal letargia bovina em direção ao sacrifício e abate cotidiano pela venda da força de trabalho.
Assim como na transição entre o fim da Ditadura e a redemocratização, a Globo produziu um Collor como chamariz do novo na política, em oposição ao velho da política tradicional e da esquerda jurássica, a emissora tem igual consciência que precisará desse novo nome, e o inventará, para conseguir envernizar de legitimidade sua narrativa junto os diversos segmentos da sociedade.
A crise foi uma oportunidade não apenas para apear Dilma, Lula e o PT do governo e recolocar uma velha elite, mas para sua continuidade, precisará de uma nova e jovem elite pró-mercado, descompromissada com as redes de interesse tradicional que formam as relações no âmago da sociedade brasileira.
A rigor, essas elites partidárias, mesmo em cidades pequenas, tem um hiato de ao menos uma geração entre lideranças políticas e o núcleo da população economicamente ativa. Em contrapartida, grande parte da consciência dessa massa descolou-se dessa liderança tradicional e foi capturada por mecanismos de guerra psicológica. (O ponto sobre guerra e operação ´psicológica tratei em outras notas, ver 1, 2, 3, 4 e 5).
Assim como essa "consciência" ou "alienação" política, no sentido Manheiniano de formação de ideologias, tem sido formada diretamente pelos mídia tradicional e com suporte tecnológico de mapeamento de perfis individuais, e portanto não mediada ou legitimada via partidos e políticos tradicionais, tornou-se o modus operandi da antiga política, obsoletos para a produção de legitimidade.

Sobretudo, o domínio contra a esquerda política depende que uma nova e jovem elite dominante pró-mercado alcance o poder e exerça projeção de poder e autoridade sobre o conjunto da população em uma nova narrativa agregadora, subordinadora dos conflitos. Como bem lembra Weber, nenhum domínio se exerce apenas pela força e pelas regras burocráticas.

As tratativas por tornar Moro o herói, e demonizar o cheiro de naftalina de Temer são parte de uma mesma lógica contra os trabalhadores. Temer não cria legitimidade política pela propaganda, do mesmo modo, Moro é isento o bastante de carisma de tal modo que o investimento feito em sua imagem seja excessivo, não produzindo o efeito de consenso que antes se esperava dele, tampouco o fazendo dominar a casta judiciária ao qual burocraticamente é subalterno.

Para dar seguimento ao golpe, a Globo atacou e destruiu parte dos capitalistas nacionais, e há de se esperar que estes tenham meios de retaliar em algum momento. Os flertes da Globo junto a elite judiciária, o esforço por dominar o governo Temer, o investimento em tornar Luciano Huck e seu proselitismo assistencialista chinfrin como o novo herói dos miseráveis de classe trabalhadora tem sido o exercício do poder ideológico e político para que os Marinhos mantenham-se como o centro proeminente do poder para as próximas décadas.

Não se trata apenas das dívidas da emissora. O domínio político no Brasil no último meio século teve como lastro e contrapeso o papel da emissora. E ela sabe que se quer sobreviver nos próximos anos terá que adotar uma postura agressiva rumo ao centro de poder que hora ocupou informalmente, mas de fato, na rede de poder nacional.

A Globo interpreta que a ideologia legitimadora do mercado depende no Brasil da centralidade de seu papel como meio de comunicação formador das consciências. Ela precisa compensar seus ativos de caixa, mas também se adaptar as novas oportunidades. Embora fracassada em negócios, acredita que o papel cêntrico como capital ideológico precisa ser sobre-remunerado.

Não é que a Globo não identifique novas legitimidades ao capital em novos processos, mas sim que avalia que seu conhecimento histórico e de articulação entre as tensões sociais, sua psicologia das novelas e seu terror jornalistico sejam de primordial necessidade para o equilíbrio político do Brasil como nação subalterna. É esse seu papel da consciência junto ao mercado que vem sendo atacado pelas novas tecnologias.

De modo mais resumido, interpreto que a Globo quer receber como antes por um papel ao qual ainda é importante, embora cada vez menor, na deformação das consciências dos miseráveis e de parte da classe trabalhadora. Portanto, discordando dos que veem no crescimento da internet e das concorrentes o enfraquecimento desta empresa, o que assistimos não é o canto de cisne da emissora, mas sim a ante-sala de seus planos futuros que, não obstruídos, serão perpetuados.

A Globo busca os jovens Golden Boys do mercado como uma elite subalterna a ela no poder. Ao mesmo tempo, a empresa sabe que há limites para tanto, pois tem meia vida curta os líderes políticos, como experiências de marketing e laboratório midiático. Ainda assim, para o que importa que é o poder de imediato como meio para o poder estratégico, são imprescindíveis e, portanto, faz amplamente tais experimentos.

A cada meia temporada lança novos elementos radioativos de seus balões de ensaio, e capturando e cooptando candidatos a líderes para sua rede de poder. Mas para o que importa, que é a preocupação central ao nível nacional e local, intenção mais profunda desse ensaio, relaciona-se ao fato que esse hiato de poder, como um amplo campo de oportunidades para a Globo, seria menor caso os partidos políticos tradicionais tivessem novas lideranças que reduzissem o hiato entre o grosso da população produtiva e o poder político e burocrático propriamente dito.

Como conclusão provisória dessa nota, ou os partidos lançam novas lideranças em 2018, criam novas estratégias e meio de ligarem-se aos seus eleitores, e definem uma relação especifica com os meios de comunicação, ou não sobreviverão. A Globo, como facção mais consciente, articula-se no sentido de promover o sequestro das consciências, moldando novas lideranças e redes de poder transversal aos partidos. Restará saber como o campo de esquerda reagirá aos seus próprios problemas e a seus adversários, mas também as oportunidades.

Como bem dizem gestores performáticos e marketeiros, na crise também se cria. Todavia, o élan, o lastro e o efeito diapasão entre massas e liderança são mais que jogo de luzes e prestidigitação, e sim liga capaz de dar consistência ao tecido social, conformá-lo. A velharia conservadora soube melhor que a esquerda se renovar, e encontra-se nos cabelos engomados dos jovens homens de negócio e da jovem elite judiciária (neo hipsters) e dos jovens assentados nos púlpitos das seitas neo-pentecostais e do tradicionalismo conservador católico.

A ambição de poder e a falta de deferência com elites tradicionais (os cabeças pretas vs brancas no PSDB, por exemplo) torna a disputa do maquinário do poder complexo. Na burocracia, a baixa permeabilidade foi abalroada pela massiva entrada de novos concursados que, no judiciário, atropelaram as elites tradicionais. A classe trabalhadora, por sua vez, precisa o quanto antes de novas lideranças forjadas a quente. Mais do que nunca, de pouco adiantará a experiência, resistência, sabedoria e força dos "velhos ursos" na ausência da criatividade, agilidade e velocidade dos combatentes dos mais jovens.

A crença de que o lastro de Lula irá resolver essa questão é uma doce ilusão de que gostaria muito de acreditar. Os mais jovens cambiam-se cada vez mais para o fascismo, e o fato de dentre os mais jovens a penetração do candidato de extrema direita ser duas vezes maior que o velho urso do PT é sintomático de que alguma coisa está errada. O que está errado hoje é resultado da Lei de Ferro das Oligárquicas criada nos anos dourados do lulo-petismo.

Desta feia, após o zênite do lulo-petismo os adversários prepararam calmamente seu enterro. O apunhalaram no meio da tarde e este sangra até o final do dia. Não chegamos sequer a madrugada. Porém antes que o dia amanheça, é urgente que esse corpo velho (mas não tão velho quanto os dos demais partidos) se rejuvenesça, para que não venha o mesmo ser enterrado junto ao seu líder máximo. Sem isto, o declínio lento do partido será uma constante nos próximos anos.

E embora se saiba o que fazer e estando o cenário em aberto em diversos pontos, a única certeza que há agora é que nada de novo será feito de fato, pois depende em grande parte, ainda, o Partido dos Trabalhadores da colheita dos frutos que não plantou. O que plantou em termos de políticas públicas e ascensão social não se converteu em consciência de classe e organização partidária.

Seus lideres acreditaram no republicanismo e de que os efeitos da economia se converteriam automaticamente em amplo lastro par ao partido, muito além de sua base tradicional. Todas essas crenças persistem na mesma medida que persistem abobalhados sem saber o que os atingiu. Enquanto isso a esquerda e a classe trabalhadora amargarão novos golpes, consolidando assim o ciclo político que não se fechará exceto daqui uns 20 ou trinta anos.

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