Reencontro de Historiadores: uma Celebração de Conhecimento e Amizade
Fraga Filho nos convida a refletir sobre as continuidades e rupturas na história, destacando a resiliência e a agência dos indivíduos em contextos adversos
O dia era 29 de julho de 2024, e eu, Ivan Rios, estava em Salvador, onde moro atualmente. Ao saber que meu querido e admirado professor Walter Fraga Filho estava na cidade, não pude conter a emoção e decidi ir ao seu encontro no Arquivo Público do Estado da Bahia, localizado na Baixa de Quintas. Já ao adentrar o local, não consegui segurar os berros de felicidade ao ver aquele que foi meu grande mentor na faculdade de História pela UNEB, Campus V, em Santo Antônio de Jesus, entre os anos de 2004 a 2006. Vejam só, já haviam se passado mais de 18 anos desde a última vez que o vi.
Logo percebi o tremendo "mico" que havia cometido, pois aquele era um "local sagrado" dedicado à pesquisa e à concentração. Pedi desculpas rapidamente e tratei de conversar lá fora, naquela belíssima paisagem que adorna a imponência do prédio colonial onde é sediado o Arquivo Público Estadual de Salvador. Walter, com seu sorriso sereno e olhar compreensivo, apenas riu e me abraçou, como se o tempo não tivesse passado.
Walter Fraga Filho, além de ser um professor excepcional, é um autor renomado e premiado. Seu livro "Encruzilhadas da Liberdade: histórias e trajetórias de escravos e libertos na Bahia, 1870-1910" recebeu o Prêmio de melhor livro sobre a América Latina da American Historical Association. Esta obra é um verdadeiro tesouro para a compreensão da nossa história, pois explora as complexas trajetórias de escravos e libertos na Bahia, destacando suas lutas e estratégias de sobrevivência em um período crucial de transição.
Outro destaque em sua carreira é o livro "Uma história da cultura afro-brasileira", que também recebeu reconhecimento significativo, sendo premiado com o Prêmio Jabuti na categoria Didático e Paradidático. Este livro é fundamental para quem deseja entender a rica e diversa cultura afro-brasileira, abordando desde as tradições e práticas culturais até as contribuições dos afrodescendentes para a formação da identidade nacional. A obra de Fraga Filho é uma referência indispensável para estudiosos e entusiastas da história e cultura do Brasil.
Além dessas contribuições, Walter Fraga Filho escreveu "Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século XIX", um livro que examina a vida dos marginalizados na Bahia do século XIX, incluindo mendigos, crianças de rua e vagabundos. Através de uma análise detalhada de fontes históricas, Fraga Filho oferece compreensões valiosas sobre as condições de vida desses grupos e suas estratégias de sobrevivência. Este trabalho é crucial para a compreensão da história social da Bahia, revelando aspectos muitas vezes negligenciados pela historiografia tradicional.
Ambas as obras de Walter Fraga Filho, "Encruzilhadas da Liberdade" e "Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século XIX", contribuem significativamente para a compreensão da história social e cultural da Bahia e do Brasil. Elas não apenas iluminam as experiências de grupos marginalizados, mas também desafiam narrativas simplistas e oferecem uma visão mais complexa e humana do passado. Através de sua pesquisa rigorosa e narrativa envolvente, Fraga Filho nos convida a refletir sobre as continuidades e rupturas na história brasileira, destacando a resiliência e a agência dos indivíduos em contextos adversos.
Eu não poderia perder a oportunidade de levar meu exemplar de "Encruzilhadas da Liberdade" para que ele autografasse e fizesse uma dedicatória exclusiva. Ao entregar o livro a ele, senti um misto de orgulho e gratidão. Walter, com sua caligrafia elegante, escreveu palavras que guardarei para sempre no coração. Aquele momento foi um reconhecimento não só da importância de sua obra, mas também do impacto que ele teve na minha formação e na de tantos outros alunos.
Nos dias atuais, onde impera a indiferença e a superficialidade nas relações humanas, o reconhecimento e a gratidão para com os professores são gestos que se tornam ainda mais valiosos. Eles são os verdadeiros guardiões do conhecimento, aqueles que nos inspiram a questionar, a pesquisar e a entender o mundo ao nosso redor. Walter Fraga Filho, com sua dedicação e paixão pela história, é um exemplo vivo disso.
Ao nos despedirmos, prometemos não deixar que outros 18 anos se passassem sem nos vermos. Aquele reencontro foi mais do que uma simples visita; foi uma celebração da amizade, do respeito e do amor pelo conhecimento. E assim, saí do Arquivo Público do Estado da Bahia com o coração leve e a certeza de que, apesar do tempo e da distância, algumas conexões serão perpetuadas por toda a vida.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

