Reflexões sobre o sofrimento humano

Como uma modalidade de escatologia profana, a filosofia de Marx se diferencia das religiões porque propõe o milênio nesta terra e coloca o fim do sofrimento na revolução social

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Li, pela segunda vez o livro do professor João Evangelista Tude de Melo, sobre Nietzsche e a cosmologia dos antigos (os filósofos pré-socráticos). Confesso que o meu interesse especial eram conceitos como “a vontade de potência” e “o mito do eterno retorno” tratados por Heráclito de Efésios. Em razão da enorme influência do pensamento nietzschiano sobre a filosofia contemporânea (a pós-modernidade), procurava uma fonte segura para entender aqueles conceitos, além das minhas leituras sobre Walter Benjamin.

 Fui, no entanto, atraído pela cosmologia ética dos Estóicos e sua filosofia sobre o sofrimento humano. Venho me importando muito com o sofrimento das pessoas, desde o começo do governo de Bolsonaro e a pandemia do Covid19 (que voltou a subir nas curvas móveis e imóveis da Secretaria de Saúde). Temas como a morte e o sofrimento sempre me impactaram muito, desde pequeno. Ainda como aluno interno em colégio de freiras holandesas era levado a assistir a dramatização da morte com a presença da dita cuja em palco, devidamente caracterizada. E por anos a fio, fui ao cinema atrás de filmes de terror e assombrações. Muitos anos depois, já na universidade, aprendi aquilo que se chamava “a catarse do sofá”, ou seja, o papel sublimatório que esses filmes têm em relação às nossas neuroses, fixações, medos e angústias.

 Mas nada disso se compara à exposição do livrinho de João Evangelista sobre a ética cosmológica dos antigos estóicos. Já tinha conhecimento dessas filosofias através da obra de Arthur Schopenhauer:” O mundo como vontade e representação” (livro que teria influenciado o pensamento de Nietzsche, com o sinal trocado). A ideia schoperauriana da nossa vontade como fonte do nosso sofrimento e a busca da “ataraxia”, aquele estado de equilíbrio onde não se deseja mais e por isso não se sofre”, baseada no conceito hindu de “nirvana” tinha chamado minha atenção.

 Os filósofos existencialistas e aqueles adeptos da “lebens filosofe” já tinham acentuado a falta de sentido no mundo. O primeiro Sartre chamou o ser humano como uma “paixão inútil” – um para-si querendo se transformar num em-si e sua postura de má-fé, ao não assumir com radicalidade a falta de sentido na vida humana. Mas, ao meu ver, tanto Schopenhauer e Nietzsche foram mais longe. E Freud ainda vem tratar as religiões de uma neurose coletiva, ao proporem uma fuga desse mundo como meio de evitar o sofrimento.

 É aqui onde entra os ensinamentos dos filósofos estoicos. Segundo eles, o mundo (o cosmos) tem uma lógica, um sentido, uma chave explicativa para tudo que acontece nesta vida. Nada é aleatório ou sem sentido. Tudo tem a sua explicação dentro desse universo físico e ético. A fonte de nossos sofrimentos é produto do desencontro entre a nossa autonomia da vontade (Kant) e a ordem cosmológica e moral. Quando desejamos algo que vai de encontro ao ordenamento do cosmos (e sua lógica), ocorre o sofrimento. Tudo é como se fosse resultado do acaso e da necessidade. Se fôssemos capazes de compreender isso, e nos resignássemos com os imperativos dessa ordem maior, não sofreríamos e atingiríamos a “atarraxia”, a imperturbabilidade do espírito, o nirvana. O sábio não é aquele que vitupera e reclama porque seus desejos e sonhos foram contrariados pelo mundo. Mas aquele que conhece a ordem cósmica e ética e se resigna ou obedece a ela. O desejo humano é a fonte das tristezas, frustrações, sofrimentos e agruras. A negação do desejo é a libertação do espírito.

 Provavelmente, o Cristianismo – sobretudo em sua versão agostiniana – deve ter herdado essa visão estoica do universo e da vida humana. Apenas, trocando o nome da ordem cosmológica e moral para vontade de Deus, providência divina. O que mereceu de Nietzsche uma dura reprimenda como a “religião dos escravos”, que ajudou aos humilhados e ofendidos a se resignarem diante da injustiça terrena, de olha na outra vida e no plano divino da salvação da alma.

 Descontando todos os motivos soteriológicos que caracterizam o marxismo, como doutrina política revolucionária, e a sua busca do paraíso terrestre, a utopia marxiana é imanente e social, não transcendente e individual. Como uma modalidade de escatologia profana, a filosofia de Marx se diferencia das religiões porque propõe o milênio nesta terra e coloca o fim do sofrimento na revolução social.

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