Resistência é o que resta

O governo eleito é ainda mais excludente que o de Temer. Ele vai entregar todas as reservas naturais e empresas estratégicas para o mercado financeiro nacional e internacional. Vai governar para 15% da população de um país com mais de 200 milhões de pessoas, multidiverso e mundialmente reconhecido pela sua desigualdade. A miséria, nos últimos dois anos, aumentou em dois milhões de pessoas, atingindo 52 milhões brasileiros

Resistência é o que resta
Resistência é o que resta (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

O término do ano de 2018 encerra um período recente da nossa história, cuja compreensão é possível somente se analisado a partir do fim das eleições de 2014. Entre janeiro de 2015 e abril de 2016, o Brasil viveu intensamente o período de sabotagem ao governo da ex-presidenta Dilma Rousseff, culminando no processo fraudulento de impeachment, mundialmente reconhecido como um golpe de Estado. Desde então, os poucos avanços políticos, econômicos e sociais, conquistados durante os governos do Partido dos Trabalhadores, foram solapados pelo projeto ultraliberal derrotado, em 2014. Desde então, Brasil vem sendo conduzido por uma ponte ao atraso.

Um Estado Ampliado foi substituído por um Estado Mínimo, voltado para menos de 10% da sociedade brasileira. O golpe foi possível graças a um consórcio formado por vários atores: a elite mais atrasada do mundo e seu braço político, a imprensa venal, e parte dos poderes Legislativo, Judiciário, da Polícia Federal e do Ministério Público. O esquema do golpe foi consagrado por um senador, ao referir-se ao estancamento de uma "sangria": "com o Supremo, com tudo". O diálogo entre Jucá e Machado repercutiu em todos os grandes jornais do País, mas foi incapaz de mobilizar a indignação da sociedade, de um modo geral, mas também dos órgãos de fiscalização e controle.

E essa é a outra personagem do golpe, uma sociedade historicamente alheia à realidade política do Brasil. A despolitização vem desde os primórdios da sua formação. A Constituição de 1824, por exemplo, proibia africanos e descendentes de frequentarem as escolas por serem portadores de doenças e moléstias. Quase 180 anos depois, em 2003, num de seus primeiros atos com presidente da República, Lula sancionou a Lei 10.639, que inclui no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Esse empoderamento é a fonte do medo da elite e do seu ódio contra Lula.

A elite nunca desenvolveu qualquer relação com esta terra, que não fosse de expropriação. E essa consciência é passada para as gerações seguintes. Sua condição de rapineira, como historicamente faz com a África, é favorecida pelo alheamento social. Quando a Monarquia foi derrubada por um golpe desferido pela dupla, latifúndio e armas, para se instalar a República rural brasileira, o intelectual, Aldo Lobo, descreveu a reação popular da seguinte forma: "O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem saber o que significava". Uma República instalada de cima para baixo, sem a participação popular, sem, de fato, uma revolução que alçasse a maior parte da população ao poder.

O fato é que os pobres assistiram, impassíveis e confusos, ao primeiro golpe de Estado da nossa história, que expulsou um brasileiro do seu país. A recém-nascida República, não apenas não realizou a fundamental de todas as reformas, a agrária, deixando milhões de brasileiros à mercê de trabalharem em troca de um prato de comida. Ela também massacrou focos de organização da classe trabalhadora, de crítica autônoma à República e ao modo de produção vigente, como em Canudos e Palmares. Uma federação que nasce da exclusão e não da inclusão.

De lá para cá, entre outros golpes de Estado, ao longo da história, chegamos a 2018 e realizamos o que pedíamos, desde 2016, eleições diretas. O último ano revelou toda a farsa para solapar definitivamente a soberania nacional, tendo o Lula como objeto de distração para esconder o açambarcamento do Estado Democrático de Direito e do direito à autodeterminação dos povos. Enquanto a imprensa venal mantém Lula em evidência, mais de 20 bilhões de barris de petróleo já foram entregues, ao valor de um refrigerante por barril. O Brasil está entregando óleo cru, quando possui 17 refinarias subutilizadas. A ativação das unidades geraria milhares de empregos na cadeia produtiva do petróleo. Não se tem notícia de qualquer manifestação de protesto de algum militar brasileiro. A soberania nacional está sendo solapada sob o silêncio das Forças Armadas.

E é dessa maneira que a elite deseja este País, calado e eterno produtor de commodities. Além de brejeira e truculenta, é também entreguista e sabuja. Ela não acredita nesta terra e na sua gente. Esse é mais um motivo do ódio da elite contra o Lula. Ele acreditou nos dois. O ex-presidente ofereceu as condições políticas, mas foi a classe trabalhadora quem fez este País passar da 16ª para a 6ª economia mundial. O PT e o Lula acreditaram, e o Brasil saiu, oito anos após o início dos seus governos, do Mapa da Fome, monitorado pela ONU.

O governo eleito é ainda mais excludente que o de Temer. Ele vai entregar todas as reservas naturais e empresas estratégicas para o mercado financeiro nacional e internacional. Vai governar para 15% da população de um país com mais de 200 milhões de pessoas, multidiverso e mundialmente reconhecido pela sua desigualdade. A miséria, nos últimos dois anos, aumentou em dois milhões de pessoas, atingindo 52 milhões brasileiros. As políticas ultraliberalizantes e excludentes do governo Bolsonaro não deixam dúvidas de que a miséria deve se aprofundar ainda mais.

O país, até pouco tempo, estava construindo seu submarino nuclear, construiu um moderno acelerador de partículas, revitalizou sua indústria naval petroleira, com mais de 80 embarcações em construção e 150 encomendadas. Em 2014, o Brasil chegou a ter 5% de desemprego, com as mesmas mais de 100 leis trabalhistas revogadas por Temer, na reforma trabalhista, que será aprofundada pelo novo governo. Em 2003, as reservas cambiais brasileiras eram de R$ 37 bilhões. Lula e Dilma deixaram para o Brasil uma reserva de R$ 380 bilhões. O PIB, em 2002, foi de R$ 1,5 trilhão. Já em 2015, foi de R$ 5,5 trilhões. Portanto, é uma falácia dizer que o PT quebrou o País.

A Petrobras valia R$ 15 bilhões, em 2003. Em 2015, ela valia mais de R$ 200 bilhões. Agora, por meio de uma eleição direta, o Brasil está entregue aos interesses de empresas estatais e privadas de outros países, que estão comprando a Petrobras e levando o óleo brasileiro. Desejo que, a partir de 2019, a classe trabalhadora saiba se reorganizar para resistir ao ataque perpetrado pela elite, que fará de tudo para ampliar a senzala. A organização é o caminho e as ruas são o espaço para resistir e restituir o Brasil aos brasileiros e restabelecer a justiça, com a liberdade do companheiro Lula.

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