Respondo a Boechat por que “não se resolve essa encrenca logo”

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(Foto: Alex Solnik)


Hoje de manhã na rádio Band News, meu colega Ricardo Boechat fez um desabafo que está na boca de todo mundo: "pô, resolve essa encrenca logo, seja como for, com Dilma ou sem Dilma, com Cunha ou sem Cunha, mas resolve de uma vez porque o país não aguenta mais ficar parado".

O que nós queremos, nós que estamos na planície, sujeitos a chuvas e trovoadas, nós que somos afetados pelo que determinam os que estão no Planalto, é que a situação se resolva de alguma forma, mas se resolva, para irmos em frente.

Os que estão no Planalto, no entanto, não estão com pressa alguma de resolver coisa nenhuma. E encontram novas maneiras de aumentar essa bola de neve. E sabe por que, Boechat? Porque a vida deles está resolvida.

Você, Boechat, que é um empregado (merecidamente muito bem pago, mas empregado) pode a qualquer momento (bato na madeira) perder o seu emprego por causa dessa paradeira que está no país, eu posso perder, nossos colegas podem perder. Mas os ministros do STF não. Os ministros do TSE não. Os deputados não. Os senadores, não.

Haja o que houver, Boechat, eles estão garantidos. Com o país parado ou não, economia andando ou não, no final do mês o gordo contracheque deles cai na conta. Cai, meu caro Boechat, e ai dos brasileiros se não cair! Eles provocam um terremoto no país se o contracheque não cair religiosamente no dia certo.

Você acha que o Dias Toffoli está preocupado em resolver alguma coisa logo? O Gilmar Mendes? Eles estão com o burro amarrado na sombra. E nós expostos ao sol, muitas vezes sem chapéu e sem protetor solar.

Sabe por que as coisas não se resolvem? Eu tenho um palpite.

Você sabe o que caracteriza exatamente o impeachment de um presidente da República? Você pode listar os motivos que levam a uma abertura de processo de impeachment? Você sabe definir "crime de responsabilidade"? Você sabe dizer o que caracteriza exatamente a quebra de decoro parlamentar?

Eu não sei, você não sabe, seu chefe Fernando Mitre não sabe, os juristas não sabem. Ninguém sabe. Não por sermos todos ignorantes, mas porque as leis não permitem saber. As leis são genéricas, em vez de oferecerem soluções claras conduzem a discussões intermináveis, porque dependem de interpretação.

Quer um exemplo? Collor foi cassado pelo Congresso Nacional. E depois absolvido pelo STF. Afinal, perguntamos nós, ele é culpado ou inocente? Quem quiser pode dizer que é culpado, pois foi cassado; quem não quiser, pode dizer que é inocente, pois foi absolvido. Passados 23 anos, a dúvida persiste.

A ausência de definições faz com que o debate saia do campo jurídico para o político. Do campo racional para o pega pra capar. Tanto nas esferas qualificadas quanto nas ruas. O que se leva em consideração, na maioria das vezes, é a simpatia por um partido ou outro e não a obediência à constituição. Daí os ânimos se acirram. Entra em campo a paixão e a razão vai dormir.

A falha não é nossa, mas de quem escreveu a constituição, deixando em aberto e sujeitas a interpretação leis fundamentais por não ter havido acordo para aprová-las mais definidas.

É, Boechat, além de desabafar e bater na madeira não podemos fazer mais nada. O que é para ontem vai ficar para depois de amanhã.

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