Rio domesticado em janeiro
O crescimento do turismo internacional expõe o Brasil ao desejo global, mas também revela o risco de reduzir cultura viva a estética exportável
Caminhar pelo Rio de Janeiro no início de 2026 é atravessar uma cidade que passou a ser observada como objeto. Idiomas se misturam nas calçadas, câmeras se erguem como extensões naturais do olhar estrangeiro e a paisagem parece confirmada por uma expectativa prévia.
Não se trata de descoberta, mas de reconhecimento: o mundo vê no Rio aquilo que já decidiu ver.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Em 2025, o Brasil recebeu cerca de 6,9 milhões de turistas internacionais, crescimento superior a 8% em relação ao ano anterior. O Rio concentrou parte significativa desse fluxo, impulsionado por eventos culturais, retomada de voos e forte exposição internacional. O turismo injetou aproximadamente US$ 7 bilhões na economia nacional, gerando empregos diretos e indiretos. Os dados são celebrados, mas silenciam outra contabilidade: a simbólica.
Chamaram esse fenômeno de Brasilcore. Um rótulo elegante para um processo antigo. Não é a cultura brasileira que se internacionaliza espontaneamente; é o olhar externo que seleciona, recorta e devolve uma imagem tratada, sem arestas. O que circula são cores, corpos, festas e paisagens.
O que fica fora do enquadramento é o conflito, a desigualdade, o trabalho invisível e a história que sustenta essa aparência de leveza contínua.
O Rio não virou moda. Foi enquadrado.
A cidade passa a existir como linguagem publicitária, ajustada para não incomodar. Samba sem tensão vira trilha sonora. Carnaval sem política vira espetáculo exótico. Favela sem história vira pano de fundo. A cultura permanece reconhecível na forma, mas esvaziada no conteúdo.
Se João do Rio (1881–1921) caminhasse hoje por essas mesmas ruas, talvez repetisse, com outra inflexão, que “a rua é o elemento vital da cidade”, mas notaria que ela passou a ser também vitrine. O cronista que enxergava alma nos becos, febre nos carnavais e contradição nas multidões talvez se espantasse ao ver a rua convertida em experiência curada, filtrada, pronta para consumo. Aquele que escreveu que “as cidades têm nervos” perceberia que alguns deles foram anestesiados para não incomodar o visitante apressado. O Rio que João do Rio percorreu era excesso, choque, mistura indomável. O Rio de agora corre o risco de ser apenas circulação bonita, esvaziada de espanto — quando a rua deixa de narrar e passa apenas a exibir, algo essencial se perde no caminho.
A metáfora adequada não é a da vitrine, mas a do aquário. O mundo observa encantado os peixes coloridos, o movimento suave da água, a sensação de harmonia. O que não se vê são os filtros, os limites de vidro e o fato de que aquele ecossistema foi isolado do mar real. O aquário é belo justamente porque elimina o imprevisível. Cultura, quando perde imprevisibilidade, deixa de ser vida e passa a ser ornamento.
Não se trata de rejeitar o turismo nem de negar o intercâmbio cultural.
O problema começa quando o Rio aceita ser apenas aquário e abdica do oceano. Quando adapta sua linguagem para agradar, quando suaviza suas contradições para não assustar, quando transforma identidade em performance contínua. A economia agradece no curto prazo. A cultura cobra no longo.
O dilema do Rio não é ser visto, mas ser reduzido ao que não incomoda. Entre o aplauso externo e a erosão interna, a cidade corre o risco de trocar densidade por aceitação. Tendências passam. A perda simbólica permanece.
Cultura não é figurino nem cenário: é território, memória e conflito. Sem isso, o Rio deixa de ser narrativa e passa a ser apenas imagem — bonita, rentável e descartável.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
