Rio: ninguém solta a mão de ninguém contra Crivella e Bolsonaro

"Está se formando na capital do Rio de Janeiro a rede ‘todos contra Crivella’, uma espécie de 'ninguém solta a mão de ninguém' que atravessa bolhas ideológicas", escreve Eliane Lobato sobre as eleições no Rio

Jair Bolsonaro e o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella
Jair Bolsonaro e o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
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O ‘destino’ parece ter catapultado o prefeito carioca Marcelo Crivella (Republicanos) ao segundo turno para que a humilhação seja maior. A primeira pesquisa divulgada após o primeiro turno, do instituto Real Time Big Data/CNN, dia 18, crava 71% dos votos válidos para o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) e 29% para Crivella, o candidato oficialmente apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Está se formando na capital do Rio de Janeiro a rede ‘todos contra Crivella’, uma espécie de “ninguém solta a mão de ninguém” que atravessa bolhas ideológicas.

Não significa que Paes seja o preferido desse amalgamado pelotão que mira um bispo licenciado, Crivella, para acertar também um capitão reformado, Bolsonaro. Paes tem alto índice de rejeição, 32%, porém, seu concorrente consegue praticamente dobrar o percentual, 62%, segundo as principais pesquisas.  

Parênteses para um detalhe curioso: repete-se no Rio uma similaridade com a disputa americana entre um Democrata (Biden) e um Republicano (Trump) apoiado por Bolsonaro. Tudo indica que o resultado será igual, com a vitória do democrata Paes já que, no mapa de votações do primeiro turno, ele ganhou em 44 zonas eleitorais contra cinco do republicano Crivella. Bolsonaro deve perder de novo. Vai repetir o vexame de não reconhecer o vencedor carioca, como faz com o americano?  

O PT, que concorreu com Benedita da Silva, já declarou apoio ao DEM no segundo turno. A nota, que agradou a militância, ressalta: “Consideramos que derrotar Crivella e Bolsonaro é a prioridade. Precisamos virar a página dessa administração desastrada e incompetente." A proposta conservadora do DEM está em “um campo político distante das bandeiras defendidas pelo PT”, mas, agora, ‘o inimigo do meu inimigo é meu amigo’, como me disse um petista de proa, repetindo um provérbio com origem apontada, e sem confirmação, no Oriente Médio.

O PSOL não emitiu nota ainda mas, seu principal nome, o deputado federal Marcelo Freixo, se antecipou na defesa do chamado “voto crítico” a favor do ex-prefeito. Freixo deixa claro que isso não significa alinhamento da bancada ao DEM. Vale lembrar que o PSOL assina a maior tristeza de Bolsonaro nas urnas deste ano: seu filho Carlos teve 34% menos eleitores em relação ao pleito anterior, perdendo o posto de vereador mais votado para o psolista Tarcísio Motta. Apesar da queda, Carluxo, como é chamado, ficou em segundo lugar no ranking.

O PDT e sua candidata, Martha Rocha, ao se retirarem da disputa de segundo turno perderam mais do que Paes poderia ganhar com o apoio. Carlos Lupi, presidente nacional do partido, justificou apontando uma difícil escolha “entre o diabo e o coisa ruim.” Ora, se o quadro é assim tão grave, por que o partido se ausenta?  A atitude  é considerada até por fãs da legenda criada por Leonel Brizola (1922/2004), como “coisa pior” porque se exime de responsabilidade. Em memes na internet, a decisão  é comparada à ida de Ciro Gomes para Paris, em 2018,  após ser derrotado na disputa presidencial, deixando no vácuo um segundo turno belicoso entre Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro.  

A esquerda carioca sai das urnas com melhor performance. A petista Benedita ficou em terceiro lugar na disputa, conseguindo diminuir a alta rejeição (em torno de 30%) e se equiparar à Martha, rejeitada por metade desse percentual. O principal mérito da campanha de Benedita foi romper o ódio e o antipetismo reinantes na eleição anterior. A candidata do PSOL, Renata Souza, não alcançou os dois dígitos mas o partido formou a maior bancada de vereadores, sete ao todo (mesmo número obtido pelo DEM e o Republicanos).

O campeonato de pior problema do Rio tem, hoje, um difícil pódio. Um forte candidato é o avanço da milícia. Todo o estado sofre com o poder paralelo de criminosos, mas a capital fluminense é, também, a capital do poder miliciano. As urnas de 2020 emitem sinais secundários e um deles, seguramente, é a rejeição de um comando político aliado de uma poderosa família acusada de ligação com a milícia. Combater este tipo de crime organizado não é restrito a apenas uma esfera de poder; é preciso ação federal estadual e municipal já que os tentáculos alcançam todas.  

Um pouco de história. A prefeitura do Rio está sob a troca de comando de dois nomes desde 1993: César Maia e Eduardo Paes. Maia governou a cidade de 1993 a 1997, passou o bastão para seu vice Luiz Paulo Conde (PFL), que ficou até 2001 e o devolveu a Maia, cujos dois mandatos consecutivos terminaram em 2009. Ele entregou o município a Eduardo Paes, que também foi reeleito e ficou até 2017, quando Marcelo Crivella assumiu.  

Hoje, Maia, que acaba de ser eleito vereador, e Paes, estão conseguindo habitar o mesmo metro quadrado ideológico depois de se odiarem durante anos. A reaproximação começou em 2018.  Paes é padrinho da primogênita de Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara e filho de César.  Em entrevista, Cesar Maia me disse, certa vez, que Paes era uma “cria” dele e se tornara seu inimigo fidagal mas... entendia (engolia) que Rodrigo mantivesse laços pessoais. Hoje, as hostilidades, pelo menos as públicas, dão lugar a tapinha nos ombros.  

Nada indica, entretanto, que Bolsonaro será persona non gratano Rio, mesmo com a muito possível vitória de Paes. A história explica, como sempre. Afinal, não é Rodrigo Maia que tem segurado Bolsonaro na cadeira presidencial? São 56 – cinquenta e seis! – pedidos de impeachment feitos por autores de todas as colorações políticas e Maia os mantém trancados em uma gaveta gigantesca.  Se ele não se preocupa com os graves males que o presidente causa ao país a ponto de permitir que sejam debatidos no Congresso, por que seria diferente com o pobre Rio de Janeiro?

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