Rodrigo Maia, você sujou o terninho à marinheira

"Sempre soubemos que necessitaríamos de forças, quando o dragão soltasse fogo pelas ventas. Já sentimos o calor de suas labaredas. Pode chegar. O país está em perigo. Precisamos de todos. Fique à vontade", escreve a jornalista Denise Assis ao deputado Rodrigo Maia

(Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia 

Prezado Rodrigo Maia,

Na última vez que o mencionei, neste espaço, você jogava bola com os amigos, no final da rua – bola que era sua, é bom que se diga -, fazendo o máximo para não sujar o seu terninho à marinheira, que mamãe lavou. 

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Você acabara de vir a público dizer, já no seu sexto ano de mandato e integrando o Democratas (DEM) – de onde saiu expulso –, que não contassem com a inclusão na pauta de algum dos vários pedidos de impeachment, contra Bolsonaro, para votação. Àquela altura o seu “não”, como diria o líder pedetista, Leonel Brizola, era um “não rotundo”. Daqueles que não dão margem ao “mas”... E, de público, em coletiva de imprensa, como fez várias vezes, explicava: “não há chance de eu colocar nenhum pedido de impeachment na pauta, antes de fevereiro de 2021 (data da sua saída do cargo de presidente da Câmara). Não o farei”, determinava, pouco se lhe dando a aflição do povo que rangia dentes em sofrimento diante das medidas tão surpreendentes quanto absurdas, saídas a cada dia da caneta Bic, de Bolsonaro. (Parei de usar).

 Ainda não havia pandemia no horizonte. As pesquisas já situavam o ocupante da cadeira presidencial com índices que oscilavam entre 29 e 30%, embora já pululassem nas manchetes e redes sociais, fatos repletos de crimes de responsabilidades, feitos por ele. O seu não era ideológico, convicto. Visava não somente deixar aberta uma porta com aquele de quem hoje você quer distância, como também preservar a sua “biografia”. Sua preocupação era manter, não só o terninho à marinheira, limpinho. Queria, você, também, salvar o currículo. Precisava fazer crer, tal como agora reforça, a imagem do homem do diálogo, mas que busca estar no controle. E, ainda, alegava não haver “correlação de forças” para o andamento do pedido.

Com motivos de sobra para o encaminhamento do impeachment, você não queria se indispor com a base fiel, “inarredável”, de Bolsonaro, que enquanto isto cavalgava no lombo da Nação, como quem sobe numa Harley Davidson. Não consta da Constituição - Lei 1079/50 -,  em seus 73 artigos, a exigência de que o povo esteja na rua, de camisa verde e amarela, pedindo a queda do presidente. Porém, sem dúvida, a população é parte fundamental nesse “espetáculo”. Sem o público, não há encenação. Mas também é verdade que a plateia vai sendo formada  aos poucos, não chega todo de uma vez só, para a apresentação. Vai tomando devagar os seus lugares, incentivada pela qualidade do que lhe é oferecido no palco. 

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Na comédia há um bordão: rir, comer e coçar, é só começar. Você não quis começar. Bateu pé, tal como o menino vestido à marinheira, do jogo no final da rua. A bola era sua. Pouco importava se ao se emocionar com a aprovação da reforma da Previdência, você chocou àqueles de quem cassou direitos adquiridos com muitas prisões e mortes – Manoel Fiel Filho! Presente! - de trabalhadores que lutaram para chegar às conquistas que em uma canetada foram dissolvidas. Tanto lhe fez, se homens alquebrados pelas péssimas condições de trabalho durante anos a fio viram escorrer entre os dedos o tempo de contribuição e sacrifícios feitos para, enfim, calçar os chinelos diante da TV, sem passar o crachá numa catraca eletrônica. Naquele momento, você só enxergou duas coisas: agradei ao governo e posso alcançar a aprovação da reeleição para mais um mandato e: o mercado me aplaude de pé. Sou chamada em todas as mídias.

Veio a pandemia. Uma ótima desculpa em que você se apegou para continuar sentado sob a pilha de pedidos de impeachment, com a desculpa de que não podia trazer mais problemas do que os causados pela doença. Podia. Eles eram muitos e muito mais fortes do que a consequência advinda da permanência de Bolsonaro no cargo: 500 mil mortes.  Sinto muito, mas há uma fatura dependurada em seu mandato à frente da Câmara, no quesito Covid-19. Retirar Bolsonaro do cargo era e é questão de vida ou morte para uma parcela expressiva da população. A desfavorecida, a que não contribui para a Previdência. A que rasga o teto de gastos com bocas famintas.

Naquele texto, onde falei da sua preocupação em manter limpo o seu terninho, chamei a atenção para o seu passado, para a biografia do seu pai. Mas, obviamente, os meus seis leitores não transitam em sua esfera de poder. Era uma tentativa de convencê-lo a olhar para o Brasil que você não via. Hoje, ao ser escorraçado do DEM, o exílio e a prisão de seu pai – que o obrigou a nascer chileno – vieram à lembrança. Foram usados por você, contra o passado autoritário dos familiares de ACM Neto (presidente do Democratas). 

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Agora, sem as luzes das câmeras a iluminar a sua nota contra o partido, você olha com carinho para o Brasil que o acolheu na volta do exílio e entende que andou sambando errado. Pelas mãos de um “intermediário”, concorda em tirar as lentes embaçadas por onde enxergava o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, a quem de alguma forma, ajudou a prender. Bem-vindo, Rodrigo Maia. Sempre soubemos que necessitaríamos de forças, quando o dragão soltasse fogo pelas ventas. Já sentimos o calor de suas labaredas. Pode chegar. Nós escovamos o seu terninho à marinheira. Nós colocamos mertiolate nos seus joelhos ralados. Nós remendamos a bola de couro que foi furada, na pelada, contra os grandalhões. O país está em perigo. Precisamos de todos. Fique à vontade. 

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