Ruas se tornam novo eixo político do país

"A queda da economia é um desastre, a diplomacia não para de produzir fiascos, mas a mobilização de estudantes e trabalhadores tornou-se o centro da cena política do país", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia; "As ruas alimentam a resistência e darão a última palavra no esforço para defender os direitos da maioria - a começar pela greve geral contra a reforma da Previdência, marcada para sexta-feira, 14"

Ruas se tornam novo eixo político do país
Ruas se tornam novo eixo político do país

Paulo Moreira Leite, para o Jornalistas pela Democracia

A recessão de 0,2% no primeiro trimestre é a mais recente notícia ruim para o governo Bolsonaro em geral e para Paulo Guedes em particular.

Ao dar continuidade a política econômica de Temer-Meirelles, apenas radicalizando o que se fazia anteriormente, o novo governo colheu o que plantou. Confirma sua incapacidade de apontar qualquer perspectiva crível de melhora nos próximos meses.

Ao insistir na miragem infantil de que o futuro dos empregos e do crescimento da oitava economia do planeta irá depender exclusivamente da reforma da Previdência, o Planalto não apenas confirma a estreiteza de horizontes intelectuais de Paulo Guedes. Faz uma aposta de altíssimo risco.

 A hipótese real de acabar abandonado por um Congresso que não para de emitir sinais de que não irá suicidar-se voluntariamente, por puro espírito de equipe, e já toma distância das ideias mais estúpidas em debate, como a capitalização individual, ameaça marcar o fim precoce de um governo que não conseguiu começar.

A solução-relâmpago de um pacto entre os Três Poderes perdeu qualquer charme em menos de 72 horas, transformando-se na versão século XXI dos Três Patetas da Junta Militar denunciados com humor e coragem por Ulysses Guimarães.   

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Os sinais externos também não ajudam Bolsonaro. Detalhada, corajosa, a mensagem do Papa Francisco a Lula cobre de vergonha todos aqueles que articularam a perseguição ao maior líder político de nosso tempo, e colheram benefícios com sua exclusão do pleito de 2018.

Há outras tragédias diplomáticas. O golpista Guaidó revelou-se um aliado incapaz e comprometedor. Ao jurar amor eterno a Benjamin Netanyahu, provocando de modo arrogante aliados históricos do Brasil, conquistados após décadas de uma diplomacia independente e responsável no Oriente Médio, Bolsonaro e Ernesto Araújo deixaram claro quem são inocentes inúteis em atividade no país.

A previsível indiferença de Washington a qualquer necessidade real dos brasileiros, o desrespeito aberto por nossa soberania,  mostram a futilidade de concessões anunciadas e grandes encomendas já entregues por Brasília, como a Embraer agora transformada em Boeing do Brasil.

A grande derrota de Bolsonaro, o fator decisivo de sua condição, no entanto, encontra-se nas ruas do país.

A gigantesca mobilização de 15 de maio, confirmada pelos combativos protestos de ontem -- só não sabe quem não viu -- confirma o ponto principal da luta política,  hoje, amanhã e depois.

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Bolsonaro até conseguiu uma vitória eleitoral em dois turnos, nas circunstâncias que nem é preciso comentar aqui.

Mas as ruas mostram que foi incapaz de impor uma derrota duradoura e profunda à juventude e aos trabalhadores do país.

Numa atitude que desmente a visão de que teria ocorrido no Brasil uma espécie de conversão ideológica à direita, a resistência popular aos abusos, desmandos e ameaças de Bolsonaro & Cia já se tornou o elemento principal da cena política.

Passados apenas cinco meses da posse, essa mobilização alimenta a  resistência e terá a última palavra no esforço para defender os direitos da maioria -- a começar pela greve geral contra a reforma da Previdência, marcada para sexta-feira, 14. A luta popular cresce e ainda não mostrou toda sua força.   

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