Saco de bondades

www.brasil247.com - Moedas de real
Moedas de real (Foto: REUTERS/Bruno Domingos)


Jair estava irreconhecível. Nada de mau humor, palavrões ou grosserias. Entrou em casa, viu as duas filhas brincando na sala, e foi dizendo:

- Vamos ali fora, o papai quer mostrar uma coisa pra vocês!

As filhinhas não puderam crer. Na garagem estavam duas bicicletas infantis elétricas, tinindo de novas.

- Pra minhas princesas se divertirem no parque. Aliás, querem ir agora, o papai leva.

Dona Isaltina, a diarista, veio de mangueira na mão querendo aguar os vasos de azaleias. Ficou olhando a cena com jeito arisco. Jair se dirigiu a ela, com a mesma afetividade:

- E não precisa ficar olhando os presentes com o olho comprido, Tininha, querida. Você também merece ser muito bem tratada.

O espanto da idosa só crescia. 

- É isso aí. Depois você confere no aplicativo do banco no seu celular. Depositei, além do seu 13º adiantado, mais 14º e 15º - anunciou Jair.

Isaltina tentou balbuciar alguma coisa, mas o patrão já voltara para dentro de casa. Na sala, encontrou a sogra. 

- Dona Marlene, abriu a gaveta do seu criado-mudo hoje? – perguntou, mantendo a atitude carinhosa

A sogra não compreendeu bem a pergunta. Respondeu apenas que não vira nada no quarto. Jair pediu que ela, por favor, fosse dar uma verificada. Segundos depois, ecoou o brado pelas paredes do sobrado.

- Genrinho, mas o quê é isso? Uma pedra de jade num trancelim! É de verdade mesmo?!
- Não só é original, como mandei trazer da China.

Marlene teve que se abanar e tomar água com açúcar para atenuar a pressão arterial. 

- Você me mata, Jair! – declarou beijando a joia.

Foi quando a esposa saiu do banho.

- O que houve aqui? Eu só escuto gente aos urros: as meninas, dona Isaltina, agora a mãe.
- Não foi nada, tesouro. Estou apenas demonstrando às pessoas que vivem comigo o quanto elas são importantes. E só faltava manifestar isso ao meu grande amor.

Dizendo tais palavras, tirou do bolso um envelope e entregou à mulher. Ela o rasgou e leu o conteúdo, de si para si:

- Duas passagens, de primeira classe, para Miami, hospedagem em hotel seis estrelas...

Jair complementou, a boca rasgada por um imenso sorriso:

- Nossa segunda lua de mel, Elvira, merecemos isso.

A esposa colocou o envelope em cima da mesinha de centro e avisou:

- Deixa eu preparar meu almoço que eu ganho mais.

Aflito, Jair foi atrás. Na cozinha, se mostrou magoado.

- Mas, meu bem, não gostou do mimo? Poxa, te dei com tanto amor...
- Como se eu não te conhecesse, Jair – afirmou Elvira.

Fazendo cara de desentendido, ele indagou:

- Como assim, flor?

Ela colocou as mãos na cintura e desembuchou:

- Como assim que o senhor, quando percebe que quero me separar, já vai abrindo a burra, despejando o saco de bondades em casa pra não largar o osso! Depois vêm as consequências...
- Que consequências, Maria Elvira? Me fala? – disse Jair, já mudando para um tom mais agressivo.

Elvira falou:

- Os agiotas.
Almoçaram calados. Semanas depois, Jair foi substituído.

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