Salvando o Bolsonaro

"No fundo eu acho que a elite brasileira ainda prefere o Bolsonaro, desde que ele se comporte. Melhor um fascista sob controle do que um governo democrático e popular que foge ao controle da elite", diz o cartunista Miguel Paiva, sobre a crise política que se aprofunda no país

Miguel Paiva
Miguel Paiva (Foto: Miguel Paiva)
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No fundo eu acho que a elite brasileira ainda prefere o Bolsonaro, desde que ele se comporte. Melhor um fascista sob controle do que um governo democrático e popular que foge ao controle da elite. A grande imprensa, os empresários esclarecidos,  a classe média iluminada acabam revelando, se espremidas, que o Bolsonaro é um mal menor. As trapalhadas, a grosseria, a violência e até mesmo essa corrupção revelada recentemente mostram um modo suportável de ser desonesto, um modo que a elite tolera desde que mantenham um mínimo de classe. Isso inclui respeitar o STF, conversar civilizadamente com o Congresso e deixar a imprensa em paz.

Classe é o que falta ao Bolsonaro como se classe classificasse a pessoa. Quando Lula foi eleito a primeira vez cansei de ouvir entre as pessoas que frequentava que era um absurdo um metalúrgico ser eleito presidente da república. "Ele não sabe nem falar!!!". Veja. querido leitor, que essa questão do Weintraub também não saber falar acaba se parecendo só que o que o Weintraub não sabe dizer na verdade é um absurdo inaceitável, diferente do que às vezes o Lula dizia com erros sobre suas boas intenções. 

O falar errado não é o problema, o problema é o que se quer dizer. Ai está a questão. Bolsonaro não sabe falar, Moro cometia erros crassos, Weintraub é uma sumidade no português e por aí vamos. Mas o que eles queriam dizer é o que é grave. Weintraub conseguiu fugir. Moro se mandou antes do barco afundar e agora, que o comandante está quase para abandonar o navio vem a classe média alta, a elite brasileira e até mesmo a grande imprensa querer salvar a mandato do Bozo. 

O medo do governo popular é imenso. Não sei nem o porquê. Nada abalou os ganhos dos bancos e das empresas na época dos governos democráticos. Eles continuaram ganhando. Lula foi até criticado por isso. Mas havia uma ideia por detrás que incomodava a longo prazo e acaba sendo a evolução natural desses governos democráticos, a redistribuição de renda, a taxação das grandes fortunas e o investimento social pesado. 

Somos uma elite estruturada de maneira errada. Pensamos que somos aquilo que nem conseguimos ser ainda. Vivemos uma época de fausto sem termos vivenciado a civilização ou a democracia. Queremos tudo pessoa do plural não me incluo como cidadão mas me incluo como classe social e não queremos dividir nada. Quando uso a primeira pessoa do plural me considero branco, heterossexual e de classe média. Faço parte apesar de discordar e não agir como eles, desta elite que imagina um país que não existe. 

Lula foi eleito de forma esmagadora mas sempre deixou um sentimento mal resolvido. A elite, por mais que tenha mantido seu status, não gostava daquela ideia. Queria um presidente alto, forte, bonito e que falasse francês. A elite precisa acreditar na imagem que constrói de si mesma.

Bolsonaro, apesar de todos os absurdos e do fascismo latente que exerce, pode ser salvo como um pecador arrependido que um pastor dedicado consegue vergar. A elite é esse pastor. Melhor sempre acreditar no que não existe, no que imaginamos do que enfrentar um país real com todos os seus problema e que precisará da cota de sacrifício de todos para que possamos construir um país melhor. Não um Brasil para inglês ver, mas um Brasil para os brasileiros. bom de sentir, se respirar de viver.

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