Santa ingenuidade, Robin! A música da minha vida é o meme da minha vida

"Mesmo com as 'ilusões perdidas', tento preservar dentro de mim alguns sonhos, embora reconheça que Bolsonaro causou um abalo sísmico no meu otimismo. A vida não é filme, eu já entendi, mas me recuso a aceitar que tenhamos de perder a capacidade de sonhar quando enfim amadurecemos", escreve a jornalista Cynara Menezes

(Foto: Reprodução)

Por Cynara Menezes, no Socialista Morena e para o Jornalistas pela Democracia 

Eu tinha 17 anos quando os Paralamas do Sucesso lançaram a canção Ska!, no álbum O Passo do Lui, um dos meus favoritos, em 1984. Eu acabava de entrar na faculdade e era uma menina cheia de sonhos. Nem suspeitava que os versos “a vida não é filme, você não entendeu” virariam a trilha sonora não escolhida dos meus tropeços.

Toda vez que eu quebrei a cara sendo crédula demais com a vida, com a profissão, com as pessoas, com o mundo, lá vinha ela martelando o juízo: “a vida não é filme, fia, você não entendeu!” Mas aí eu quebrava a cara de novo e de novo a música ficava tocando na minha cabeça como um LP furado, girando sem parar numa vitrola. E sempre a posteriori. Por que não antes, caramba?

É como se eu fosse ao mesmo tempo o Batman e o Robin do meme. Meu lado ingênuo é o Robin. E o Batman é meu lado que caiu na real, esbofeteando o Robin com a frase demolidora: “A vida não é filme, porra, você ainda não entendeu?”

Aos 20 anos, acreditei que o primeiro grande amor era para sempre e que nós íamos envelhecer juntinhos… Como nos contos de fadas, como nos filmes de Hollywood, como vovô e vovó. Nem imaginava que isso fosse mais difícil do que ganhar na mega-sena. E aí vieram os problemas todos dos relacionamentos amorosos, problemas que eu, menina do interior, nem pensei que existissem. A vida não é filme, você não entendeu?

Aos 30, acreditei piamente que alguém que me ama fosse incapaz de me machucar, de me causar dor física. Minha história, ao contrário do que pensava, não era única: muitas mulheres viveram, como eu, a experiência traumática do desencantamento com o “príncipe” que virou sapo, e um sapo feroz. Mas isso eu só descobri depois.

Aos 40, acreditei que, numa relação madura, não rolassem sentimentos mesquinhos como o ciúme e outros desperdícios de tempo, e que fôssemos apenas aproveitar os dias, viajar pelo mundo e ser felizes. Quem disse? A vida seria tão menos complexa se fosse igual aos filmes… Será que são os personagens que complicam ou é o enredo que se repete, como numa novela ruim da Globo?

Aos 50, ainda acreditava ser possível manter a paixão no casamento. Bailar sobre a rotina ao som de Buena Vista… Os problemas, se pintassem, a gente resolveria juntos, ué. Conversando como adultos. E quando as complicações vieram (porque sempre vêm), não soube lidar com elas, ainda presa a uma visão excessivamente romantizada das relações amorosas, como nos filmes da Sessão da Tarde que assistia quando criança.

Não só no amor; na política, nas amizades, no jornalismo: tenho a impressão de ter sido ingênua em relação a tudo. Acreditei ser indispensável em alguns veículos onde trabalhei e não apenas uma peça da engrenagem que pode ser descartada a qualquer momento; acreditei que as amizades estavam acima de dinheiro e poder; acreditei que as ameaças de volta da ditadura eram paranoia, teoria da conspiração; acreditei que conseguiria me sustentar de forma independente como jornalista…

Mesmo com as 'ilusões perdidas', tento preservar dentro de mim alguns sonhos, embora reconheça que Bolsonaro causou um abalo sísmico no meu otimismo. A vida não é filme, eu já entendi, mas me recuso a aceitar que tenhamos de perder a capacidade de sonhar quando enfim amadurecemos

Percebo que muitas vezes fui tola como uma heroína de comédia romântica, cuja existência se resume ao celuloide. Eu não, sou de carne, osso, sangue, nervos. Por que misturei ficção e realidade desse jeito?

É como se eu fosse ao mesmo tempo o Batman e o Robin do meme. Meu lado ingênuo é o Robin, bobinho e cheio de fé no mundo, no amor e nos seres humanos. E o Batman é o lado que caiu na real depois de várias ciladas nos becos de Gotham City, esbofeteando o Robin com a frase demolidora: “A vida não é filme, porra, você ainda não entendeu?”

Deve ser a isso que chamam “ilusões perdidas”… Mas como viver sem elas? Ou será que é melhor assim? Porque, por outro lado, me sinto mais leve agora. O fim das ilusões me deixou menos ansiosa e sem tantas expectativas sobre a vida e sobre os outros.

A última estrofe da música dos Paralamas diz assim:

A vida não é filme
Você não entendeu
De todos os seus sonhos
Não restou nenhum
Ninguém foi ao seu quarto
Quando escureceu
E só você não viu
Não era filme algum

Não restou nenhum sonho? Poxa, mesmo com as “ilusões perdidas”, tento preservar dentro de mim alguns sonhos. Ainda creio na vida, no ser humano e no amor. Ainda creio no Brasil e num futuro melhor para o nosso povo, embora reconheça que Bolsonaro causou um abalo sísmico no meu otimismo incorruptível. A vida não é filme, eu já entendi, mas me recuso a aceitar que a capacidade de sonhar se vai quando enfim amadurecemos, à custa de tanto chacoalhão e tanta rasteira.

“Santa ingenuidade, Robin!”, vocês me dirão, talvez com razão. Mas acho que é preciso sempre uma dose de sonho para aguentar este mundo. Se não, que sentido tem?

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