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Maurici de Morais

Deputado estadual (PT-SP)

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São Paulo acende alerta para o futuro econômico

A perda de dinamismo da economia paulista não é apenas um dado conjuntural, é resultado das escolhas políticas do governo Tarcísio de Freitas

Tarcísio de Freitas (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
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Sinais preocupantes começam a surgir no horizonte do desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo. Tradicional locomotiva do país, o Estado vem apresentando, desde 2022, um desempenho inferior ao da economia nacional. Dados da Fundação Seade mostram que, nos últimos quatro anos, o Produto Interno Bruto (PIB) paulista cresceu 9,3%, enquanto o Brasil avançou 11,9% no mesmo período. A tendência também se reflete na arrecadação: a participação do ICMS paulista no total nacional caiu de 29,6% para 27,8%, evidenciando uma perda gradual de protagonismo econômico.

Esse cenário não pode ser explicado por um único fator. O mundo atravessa transformações profundas, impulsionadas por tensões geopolíticas, pela crise climática e pela rápida disseminação de tecnologias disruptivas, como a inteligência artificial. Sem coordenação e políticas públicas eficazes, essas mudanças podem resultar em efeitos negativos, como a destruição de empregos, a perda de competências e o enfraquecimento do tecido produtivo.

Diante dessas incertezas, o Governo Federal tem buscado estruturar respostas por meio de instrumentos regulatórios, financeiros e fiscais. Iniciativas como a Nova Indústria Brasil, os investimentos em energia sustentável, a ampliação do Plano Safra e políticas de apoio a setores impactados por mudanças no cenário internacional indicam uma tentativa de fortalecer a economia no curto prazo e ampliar seu potencial no médio e longo prazo. Além disso, há uma ênfase crescente em ciência, tecnologia e inovação como motores de novos ciclos de crescimento.

No entanto, em um país de dimensões continentais e grande diversidade regional como o Brasil, políticas nacionais, por si só, não são suficientes. Estados e municípios desempenham papel decisivo na formulação de estratégias alinhadas às suas realidades econômicas e sociais. É nesse ponto que surgem críticas à atual condução da política econômica paulista. 

O governo Tarcísio de Freitas tem adotado como eixo central uma agenda baseada em privatizações e concessões, sustentada por uma premissa que tem se mostrado cada vez mais equivocada: a de que o setor privado seria mais eficiente do que o público. Paralelamente, a atual gestão amplia a concessão de incentivos fiscais às empresas, que deve alcançar cerca de R$ 85 bilhões em 2026, em um processo sem transparência ou contrapartidas claras. Há ainda pouca ênfase em políticas estruturadas voltadas à economia digital, à transição ecológica, ao desenvolvimento de capacidades em inteligência artificial ou à modernização produtiva.

Essa estratégia é justificada, sobretudo, pela ideia genérica de “melhoria do ambiente de negócios”. No entanto, ela não tem se traduzido em ganhos concretos de desempenho econômico em São Paulo. Ao contrário, somam-se críticas quanto aos efeitos das privatizações e concessões, frequentemente associadas à elevação de custos e à perda de qualidade de serviços públicos à população, como mostram a privatização da Sabesp e as concessões das linhas da CPTM, para citar apenas dois exemplos.

Outro ponto sensível é o enfraquecimento de instituições fundamentais para a produção de conhecimento, inovação e tecnologia, que, ao longo de décadas, consolidaram-se como um dos maiores ativos de São Paulo. Empresas brasileiras altamente competitivas no cenário global nasceram e cresceram apoiadas por esse ecossistema, que envolve universidades públicas, institutos de pesquisa e centros de formação técnica. Integram essa lista, por exemplo, empresas do porte da Embraer e farmacêuticas nacionais como Cristália e a EMS. 

No entanto, essas estruturas educacionais vêm enfrentando pressões orçamentárias, limitações de investimento e ameaças ao uso de seus recursos e patrimônios. O Centro Paula Souza, responsável pelas Etecs e Fatecs, tem perdido espaço para uma política que redireciona o ensino profissionalizante para escolas da rede estadual, com cursos que exigem menos estrutura. Há ainda a tentativa de venda de terras dos institutos de pesquisa e Fapesp, e a fixação de limites estreitos para o investimento nas universidades estaduais: USP, Unicamp e Unesp.  

O governo Tarcísio tem insistido na construção de uma imagem de “boa gestão”, sustentada por narrativas que não correspondem aos dados concretos. O que fica de fora desse discurso é o fato de que, durante sua administração, São Paulo acumulou déficit orçamentário por três anos consecutivos. Em 2023, o rombo foi de R$ 1,6 bilhão. Já em 2024, o resultado positivo de R$ 8,2 bilhões só ocorreu devido a uma receita extraordinária e não recorrente: a venda de ações da Sabesp, que gerou R$ 14,7 bilhões em receita. O próprio Tribunal de Contas do Estado destacou que, sem esse recurso pontual, o ano também teria fechado no vermelho. Em 2025, a situação fiscal voltou a se deteriorar, com um déficit expressivo de R$ 12,2 bilhões. 

Ao longo de décadas, São Paulo construiu uma economia diversificada e dinâmica com base em políticas públicas consistentes. O apoio de instituições como bancos de fomento e agências de pesquisa foi determinante para esse processo. O que se observa atualmente, porém, é um afastamento dessa tradição. A redução do papel do Estado na indução do desenvolvimento e a ausência de uma estratégia clara para enfrentar os desafios contemporâneos já começam a produzir efeitos visíveis.

A perda de dinamismo da economia paulista não é apenas um dado conjuntural, é resultado das escolhas políticas do governo Tarcísio de Freitas. E esse é um problema que tem se tornado grande demais para ser empurrado para debaixo do tapete. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.