Segundo turno: entre a diferença e a indiferença

Olhando para a experiência passada, com FHC: a vida de hoje é melhor, não é? E não falo da sua apenas. Falo do pobre que hoje pode ter sua casinha, do pobre e do preto chegando à faculdade

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Como ensina o magistral teólogo Leonardo Boff, todo ponto de vista é a vista de um ponto. Portanto, toda perspectiva social deriva das experiências que englobam as trajetórias de vida. Essa noção já era advogada nos primórdios da Democracia, em Atenas, quando Protágoras, representando a escola cética dos sofistas, já enunciava: "o Homem é a medida de todas as coisas". Descrentes de verdades morais além da criação humana, os atenienses transmutaram a centralidade da Política: se antes era a tirania sustentada pela espada, agora é o voto alcançado pela persuasão. No entanto, como Sócrates deflagrara posteriormente, não poucas vezes a maioria numérica é responsável por atrocidades e Democracia não é (ainda, ao menos) sinônimo de justiça social. Como temos um passado maior que o de Sócrates – visto que o calendário não parou de correr – sabemos que o pensador estava certo: a inquisição, o regime escravocrata, o nazismo e mesmo as mortes de Sócrates e Jesus (ambos marcos da narrativa ocidental, uma de prisma racional, a outra pelo viés da fé), todos foram condenados por plêiades majoritárias e não pela decisão de soberanos. Isto porque, se todo ponto de vista é a vista de um ponto, a única forma de se solidarizar com o sofrimento alheio é ultrapassar o individualismo.

Não quero ensinar o padre a rezar a missa, não quero converter os convertidos, nem quero remediar os curados. Quero falar ao montante colossal de pessoas que, seja pelo voto nulo/em branco, seja pela abstenção, não escolheu um dos candidatos. Vocês, a quem falo, totalizam praticamente 30% dos eleitores, se o primeiro turno for a referência. Vocês, indecisos, ou decididamente indiferentes ao processo eleitoral, são quem paradoxalmente decidirão os caminhos do país.

Há três caminhos diante do sofrimento alheio. O primeiro é o da ataraxia, do "tanto faz", de onde surgem os indiferentes. Simplesmente porque as mazelas só lhes interessa se batem à porta. Seu zelo é apenas com o prazer pessoal. A esses, lhes respondo com a culatra do egoísmo: a violência que os cerca e tantos os amedronta é fruto da desigualdade que só alarma quando a bala é perdida da favela; O segundo é o da afazia, a paralisação, o "nada fazer". Estes são os supostamente neutros. Supõem que seu distanciamento da Política lhes isenta de responsabilidade pela realidade social. No entanto, sempre vale repetir, neutro é quem escolheu o lado do mais forte. Para esses, como costumo exemplificar em sala, clareio que a neutralidade, diante de um espancamento, é não proteger os mais fracos, o que não é menos que cumplicidade com a violência; Por fim, há o caminho dos que se reconhecem com o pesar do Outro. A esses, peço que pensem nos que mais precisam também nas eleições.

Olhando para a experiência passada, com FHC: a vida de hoje é melhor, não é? E não falo da sua apenas. Falo do pobre que hoje pode ter sua casinha, do pobre e do preto chegando à faculdade, de quantas cestas básicas são possíveis de se comprar com um salário mínimo – porque é muito melhor discutir política quando a barriga tá cheia. Olhando para as propostas de hoje, sabemos como o PSDB está mais associado à meritocracia neoliberal, ao 'cada um por si', ao 'deixa que o mercado regule inteiramente a si mesmo', e isso quer dizer que os mais pobres e outras minorias, mais dependentes do Estado, ficam à deriva.

Aos que criticam a morosidade do PT em promover as transformações sociais, corroboro com duas ressalvas: a primeira é que, enfim, elas já existem. E, em segundo lugar, com a população polarizada como está, com um parlamento ainda mais conservador, com a guerra declarada ao partido da imprensa golpista (no caso em questão, leia-se VEJA), talvez haja condições como nunca para o PT ultrapassar seu pmdbismo.

Aos que não acreditam na via eleitoral como redenção da justiça social, comungo da ideia. Pois penso que grande parte das mudanças durante a História ocorreram por vias não-institucionais, pela combinação entre solidariedade e luta dos movimentos sociais.

Mas a posição solidária à vida dos que mais precisam, diante das forças políticas colocadas agora, à parte diferenças programáticas, é votar Dilma. Ser de Esquerda e agir diferente é ser mais compromissado com uma causa ou, no limite, com gerações que estão por vir e, portanto, ainda não sofrem. E segunda-feira, cada qual ao seu modo, institucionalmente ou não, partidariamente ou não, que construamos ainda mais mecanismos de proteção e emancipação das minorias.

Porque o Estado existe e se não vai cooperar para causas populares, irá atravancar esses processos. O poder é como a gravidade, tanto faz se referendamos ele, sua força simplesmente existe e nos impele. Nós não somos o que acreditamos, somos o que fazemos. E a indiferença é o peso morto da História.

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