Segurança sem norte

O fiasco paulista em projetos que tenham a inclusão social como questão de segurança pública se dá pela falta de vontade política e comando

A criminalidade e a sensação de insegurança estão entre as principais razões da deterioração da qualidade de vida dos paulistas. Embora alguns indicadores tenham melhorado em São Paulo na última década, voltam, em rodízio, a oscilar, a subir e a piorar nas estatísticas.

A Polícia Civil perdeu 3.000 policiais em 10 anos (chegou a ter quase 33 mil; hoje, 29.517). Roubos registraram a nona alta seguida no Estado, e o governo admite que só resolve 2% dos casos. O Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) dá conta de apenas 12% dos casos de latrocínios. E por aí vai.

Infelizmente, o que vemos é um clima de desencontro e desestímulo a policiais, baixa integração entre as polícias (que mal se falam), perícia em situação precária, falta de planejamento, pouca investigação, uso capenga de modernos bancos de DNA, balísticos e impressões digitais, pouca ênfase na prevenção, falta de interação entre secretarias...

Poderíamos apontar mais resultados de uma gestão titubeante, marcada pela falta de vontade política e critérios para, por exemplo, dar sequência a projetos importantes que perderam o rumo, minguaram ou desapareceram. Exemplos? No sistema prisional, o abandono das Apacs (Associação de Proteção e Amparo aos Condenados), que nasceu em São José dos Campos e foi sucesso durante anos. Funcionam no Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Maranhão, Piauí e em Minas. Vários países adotam o modelo. Aqui, sumiu. Outra sigla entrou no vácuo: PCC.

Que fim levaram os Consegs (Conselhos Comunitários de Segurança)? O policiamento comunitário? A política de integração das polícias? As reuniões de planejamento trimestrais? As pesquisas de vitimização? O programa de penas alternativas? E as ações de bloqueio? O foco no desarmamento?

As polícias paulistas sabem o que fazer, mas precisam de um norte. Podemos reconstruir um clima de efetiva colaboração e maior eficiência. Temos profissionais competentes. Como prefeito da capital, tive a honra de trabalhar ao lado de muitos deles. Criamos em 2009 a Operação Delegada, que remunerou e colocou nas ruas quase 4.000 policiais militares.

Poucos sabem que o Estado de São Paulo iniciou em 2007, um ano antes das UPPs do Rio e também inspirada em experiência colombiana, a Virada Social. Um projeto baseado no pressuposto de que a violência não pode ser enfrentada só com a ação policial --a inclusão social é um instrumento vital.

A experiência foi testada em São Mateus, Jardim Elisa Maria e Paraisópolis. Mas não passou da chamada fase de saturação policial. As ações de curto, médio e longo prazos nas áreas da saúde, educação e outras melhorias na qualidade de vida, tudo isso estava previsto, mas ninguém sabe, ninguém viu.

A diferença entre o sucesso na Colômbia, os resultados no Rio e o fiasco paulista, nesse e em outros projetos, é, frisamos, a falta de vontade política, de comando firme e de perseverança num trabalho sério.

Usamos na prefeitura (e o Rio usou com as UPPs) novos paradigmas para pensar a segurança. Fomos além, com a Cidade Limpa, ciclofaixas, a Virada Cultural, o reforço escolar nas escolas municipais, assistência social, esporte, cultura, oportunidades de emprego, educação no trânsito e outras ações preventivas. A OMS (Organização Mundial de Saúde) afirma que iniciativas assim aumentam a sensação de segurança e melhoram a qualidade de vida das pessoas.

São Paulo pode. Tem recursos. Tem fibra e brasileiros decididos a enfrentar grandes desafios. Não pode é ficar patinando e perdendo tempo com falta de visão, inapetência e fraquezas administrativas.

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