Ser autêntico foi o maior risco de Lucas. Também foi sua vitória
O ouro de Lucas Pinheiro Braathen em Bormio não é apenas vitória individual; é um golpe direto no velho complexo de vira-lata que insiste em subestimar o Brasil
Bormio, no coração dos Alpes italianos, amanheceu branca e silenciosa naquele 14 de fevereiro de 2026. Mas o silêncio foi apenas uma moldura provisória para o que se tornaria um terremoto simbólico na história esportiva brasileira. No Stelvio Ski Center, uma das pistas mais técnicas e implacáveis do circuito internacional, Lucas Pinheiro Braathen fez o que nenhuma geração antes dele ousara sequer imaginar: conquistou o primeiro ouro do Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno.
O feito ganha contornos ainda mais dramáticos quando se compreende o contexto. O Brasil, país tropical, estreou em Olimpíadas de Inverno em 1992, em Albertville. Desde então, a participação sempre foi marcada por pioneirismo, esforço quase artesanal e resultados discretos. Nunca uma medalha. Nunca um pódio. Apenas a obstinação de atletas que treinavam longe de casa, financiados por sonhos maiores que a estrutura disponível.
Foi preciso que um jovem de 25 anos, nascido na Noruega e filho de mãe brasileira, decidisse, há dois anos, competir sob a bandeira verde e amarela para alterar essa narrativa. Lucas Pinheiro Braathen já era nome consolidado na Copa do Mundo de esqui alpino quando optou por representar o Brasil. Sua decisão foi interpretada por alguns como gesto afetivo; agora, é também marco geopolítico do esporte.
A modalidade em que ele se consagrou — o slalom gigante — é uma prova de precisão e velocidade que exige equilíbrio quase coreográfico entre técnica e coragem. Diferente do slalom tradicional, em que os portões são mais próximos e as curvas mais fechadas, o slalom gigante combina alta velocidade com curvas amplas e ritmadas. Em Bormio, o traçado desenhado pela Federação Internacional apresentava cerca de cinquenta portas distribuídas ao longo de pouco mais de um quilômetro e meio de extensão, com desnível vertical superior a 400 metros. A inclinação variava entre trechos mais abertos, que exigiam aceleração máxima, e setores técnicos, onde qualquer centésimo perdido se tornava sentença.
São duas descidas, chamadas mangas. O tempo é somado. Vence quem apresentar o menor tempo combinado — e, sobretudo, quem souber ler a pista como quem lê um texto complexo: antecipando curvas, ajustando linhas, preservando velocidade na saída de cada arco.
Em Bormio, Lucas fez mais do que vencer. Ele desafiou Marco Odermatt, o suíço amplamente considerado um dos maiores nomes do esqui alpino contemporâneo, dono de 53 vitórias em etapas de Copa do Mundo e campeão olímpico do slalom gigante em 2022. Na primeira manga, o brasileiro registrou uma descida tecnicamente impecável, com linhas agressivas nas partes mais inclinadas e transições limpas nos trechos de maior compressão. Abriu quase um segundo de vantagem — uma eternidade em provas decididas por centésimos.
Na segunda manga, largando por último entre os líderes, precisava apenas manter a compostura diante da pressão que transforma joelhos em chumbo e pensamento em ruído. A neve já estava marcada, sulcada por dezenas de esquis. O piso mais quebrado exigia ajustes constantes de ângulo e distribuição de peso. Não houve ruído. Houve lucidez.
O tempo final: 2min25s, somando as duas descidas. Cinquenta e oito centésimos à frente de Marco Odermatt, medalha de prata. Mais de um segundo à frente de Loïc Meillard, também da Suíça, que conquistou o bronze. O pódio, portanto, foi majoritariamente suíço — com uma exceção histórica vestida de verde e amarelo.
Quando cruzou a linha, Lucas desabou na neve. Não era teatralidade. Era a ruptura de uma fronteira invisível.
A narração brasileira explodiu em uníssono: “É agora ou nunca! É agora!” A contagem regressiva virou clamor coletivo. Cinquenta centésimos abaixo. O Brasil inteiro empurrando nas últimas curvas. E então o grito que atravessou o Atlântico: medalha de ouro para o Brasil. Um momento para a história, repetido como mantra.
Minutos depois, já no pódio, ao som do Hino Nacional, Lucas cantou cada verso com a voz embargada. Não era protocolo; era pertencimento. O ouro brilhava no peito, mas o que cintilava nos olhos era algo mais antigo: identidade.
Logo depois de descer do pódio, ainda com o ouro no peito e a respiração entrecortada, Lucas explicou com simplicidade o que havia acontecido na pista: “É inexplicável. Não sei colocar em palavras.” E completou: queria que aquilo servisse de inspiração para crianças que acreditam que nada é impossível, independentemente da origem ou da cor da pele.
A um repórter italiano respondeu: “E claro que, como a gente tava falando, né, entre as descidas, a neve é completamente diferente. Era preciso fazer ajustes. Eu consegui isso. Eu achei o balanço. Tava esquiando com o coração. E quando você esquia do jeito que você é, e possui uma fé gigante, tudo é possível.”
No instante em que a neve se calou para ouvir o Brasil, essas suas palavras pareciam ecoar algo muito maior do que uma análise técnica da corrida. Lucas encarnava, ali, uma antiga sentença de ‘Abdu’l-Bahá, registrada por volta de 1919: “Nada lhe será impossível se tiver fé, pois, assim como é a sua fé, assim serão seus poderes e talentos.” O que se viu em Bormio foi precisamente isso: fé transformada em precisão, coragem convertida em linha perfeita, e o impossível cintilando como ouro sob o céu frio dos Alpes.
Ele descreveu a segunda descida como “uma guerra”. A neve estava irregular, exigindo leitura constante do terreno. “Eu tava puxando, tentando achar o flow”, disse. Encontrou o equilíbrio. Esquiou com o coração. E quando cruzou a linha, o grito que saiu foi em português: “Vamos!”. Exausto, pernas queimando, pensamento misturado entre três idiomas, escolheu a língua da mãe.
Foi nesse instante, diante da tela, que não consegui conter as lágrimas. Ao vê-lo cantar o hino no alto do pódio, senti algo que ultrapassava o esporte. Era um sentimento vivo de pertencimento a um povo, a uma história compartilhada. Havia ali identidade. Havia humanidade comum.
Talvez por isso essa conquista tenha ressoado em mim com uma camada adicional de memória. Meu primeiro encontro com a neve aconteceu em setembro de 1997, na Suíça, na Academia Landegg, em Rorschach, onde ministrei um curso intitulado “O Pensamento Vivo de Shoghi Effendi”. Entre aulas e conversas, observava pela janela a montanha branca que me parecia tão distante quanto um planeta.
Num fim de tarde, amigos perguntaram se eu tinha algum sonho ainda não realizado. Respondi: sempre quis esquiar. Cresci no Nordeste brasileiro; neve era paisagem de cinema. No dia seguinte, após breves instruções, tentei descer a montanha na estação mais baixa. O primeiro desafio foi manter-me em pé. Os esquis pareciam gigantes, pesados, indomáveis. Vieram quedas sucessivas. A neve salvava o corpo; o ego, nem tanto.
Consegui duas fotos — era um tempo anterior aos smartphones. Foi uma experiência intensa, quase épica na minha escala pessoal. Talvez por isso eu saiba que a montanha nunca concede nada de graça. Cada curva exige decisão. Cada descida é um pacto entre técnica e coragem.
Há uma dimensão estrutural nessa conquista. Ao migrar da poderosa federação norueguesa para a pequena Confederação Brasileira, Lucas abriu mão de estabilidade e estrutura. Montou equipe, reorganizou carreira, ficou um ano fora das competições. Retornou em processo de reconstrução. O ouro não nasceu do improviso; nasceu de planejamento e convicção.
O Brasil já não pode mais dizer que a neve lhe é estranha. Em Bormio, sob o céu cinza dos Alpes, a bandeira verde e amarela dialogou com o branco absoluto da montanha. Lucas Pinheiro Braathen não venceu apenas uma corrida. Ele redefiniu os limites do possível — com marcas técnicas impecáveis, precisão cirúrgica e, acima de tudo, um coração que soube transformar frio em pertencimento.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
