Ser ou não ser favelado?

Tenho amigos em várias camadas sociais e se tivesse que escolher meus amigos mais chegados, os acabaria encontrando entre os favelados

Moro no Vidigal, mas não sou oficialmente um favelado. Ainda falta muito para eu conseguir ser um deles, em qualquer grau de sua escala variada na falta de recursos de sobrevivência, se formos querer uma abordagem sob o aspecto social de sua realidade.  Mas sou um favelado se considerarmos os aspectos culturais e filosóficos de uma triste realidade, em que se misturam cidadãos de qualquer casta ou origem, quando se mesclam numa ação conjunta, tanto na convivência mais íntima, quanto nas reivindicações de seres que repudiam as injustiças de um sistema que desqualifica e discrimina aqueles que não conseguem conjugar seu verbo, voltados para a autenticidade da relação humana.

Como artista, tendo vivido glórias e marginalizações por convicções políticas, pude perpassar por todos os matizes das relações sociais e concluir que dentre todas a mais autêntica e inquestionável sob o aspecto humano, sem dúvida alguma, é a do favelado. Filtro no favelado a relação mais autêntica e sincera do que as amalgamadas pelas circunstâncias de entrega à parâmetros e padrões, limitando sua soltura na relação com o semelhante.

Tenho amigos em várias camadas sociais e se tivesse que escolher meus amigos mais chegados, os acabaria encontrando entre os favelados. São uma espécie de amigos que te socorrem como os livros quando buscamos conhecimentos e soluções de problemas, sem nos pedir nada de volta, sempre dispostos na estante, atentos ao seu chamado. Mesmo que em troca você não atenda aos  seus, geralmente nas prateleiras do esquecimento, já habituados às desatenções. Nem por isso os desdenham ou cortam relações. Há um pacto natural de solidariedade, superando os pequenos pecados.

Na hora de um chamamento geral estarão presentes, mesmo sabendo que se pintar chicotadas, será em seu lombo, com certeza. Há uma filigrana de identidade coletiva que os diferencia de outras classes, dada talvez, pela aproximação geográfica de seu habitat, que os liga a quintais e ausência do desumano concreto dividindo em pequenos mundos o reduto exclusivo de cada um. É como se todos morassem na mesma casa e vizinhança fosse apenas a divisão por uma pequena cerca a separar as mais íntimas das individualidades. São todos uma grande família e se conhecem pelos nomes ou apelidos. Diferentemente do reino do asfalto, onde dificilmente se conhece o vizinho do lado.

A pobreza não é só o significado literal da falta do dinheiro. Na pobreza moral temos uma escala inversa de valores a culminar em maior volume nas oligarquias.  Ha nela virtudes que diferenciam os seres das demais camadas da sociedade. Uma delas e, com certeza, a de maior importância – a relação com o próximo, o respeito, a admiração, a comiseração e o engrandecimento do próximo, sem demagogia. Espero numa próxima oportunidade descrever a importância do espírito de união conseguidos em menos de 24 horas, mobilizando a favela do Vidigal a encarar a célebre remoção do fim dos anos 70, vencendo os desmandos da ditadura e conseguindo a sua interrupção. A gloriosa conquista do povo favelado que até o Papa Leão 13 veio saudar in locoa resistência do Vidigal.

Indiferentemente às influências malignas da mídia, da desatenção ou desleixo das autoridades em manter o sistema escravagista vitimando os mais oprimidos concentrados nas grandes favelas, ausência de hospitais e escolas e as demais mazelas, este povo concentrado nos morros, têm em seu poder a essência humana de resistência e poder de mobilidade, para superar seus males. Como na máxima encontrada na sutileza de seu gesto humanitário, que constato, persistindo no âmago de seu comportamento diário, a comprovar seu espírito coletivo na esperança de uma transformação. A máxima que extraí da boca de uma favelada, ao ser perguntada pelo repórter que cobria a catástrofe de uma enchente dos idos de sessenta: " Um pobre ajuda outro pobre até melhorar."

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