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Heraldo Campos

Graduado em geologia (1976) pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas (UNESP), mestre em Geologia Geral e de Aplicação (1987) e doutor em Ciências (1993) pela USP. Pós-doutor (2000) pela Universidad Politécnica de Cataluña - UPC e pós-doutorado (2010) pela Escola de Engenharia de São Carlos (USP)

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Será que ainda está valendo?

Reflexões de duas décadas atrás sobre desigualdade, água e globalização seguem atuais — e indicam um cenário que, em muitos aspectos, se agravou

Será que ainda está valendo? (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasill)

Será que ainda está valendo? Fiz essa pergunta, há poucos dias, a alguns amigos, a partir do envio do texto a seguir, e as respostas foram mais ou menos nessa direção: “Acho que sim”, “Muito. A globalização acabando com a democracia foi o trecho que mais se encaixa hoje”, “Piorou” e “Com certeza, infelizmente”. O texto colocado para apreciação, de 17/07/2002, de quase 24 anos atrás, foi este:

“Não é mais possível separar processos ambientais daqueles provocados pelo homem. O homem é parte integrante do sistema Terra. O procedimento que deve levar à compreensão da realidade ambiental de uma região deve começar pela reflexão sobre o que concretamente existe na comunidade em que se está inserido. Essa reflexão é fundamental para a participação e atuação social na preservação do meio ambiente e passo decisivo para a desaceleração de atividades antrópicas que predispõem o aumento do desequilíbrio natural.

Na sociologia marxista, o lumpesinato é a camada social carente de consciência política, constituída pelos operários que vivem na miséria extrema e por indivíduos direta ou indiretamente desvinculados da produção social e que se dedicam a atividades marginais, como, por exemplo, o roubo e a prostituição.

Esse verbete do Aurélio, muito apropriado para os dias de hoje, representa uma dura realidade para quem vive à margem da sociedade, não experimentando a cidadania, dado seu baixo nível de instrução ou seu orçamento bastante limitado. Assim, não se pode falar em exclusão social sem considerar a distribuição de renda da população e seu acesso aos serviços públicos básicos.

A sociedade tem que se organizar, tem que lutar, porque, senão, os governos não ouvem. No campo, a organização mais relevante foi a do Movimento dos Sem Terra (MST), que surgiu em 1984, no Rio Grande do Sul, e que, desde então, luta por uma distribuição mais igualitária das terras e pelo fim do latifúndio improdutivo, que há muitos anos predomina no Brasil. Porém, chega ao século XXI sem ter ainda conquistado, em sua plenitude, esse direito.

O professor Milton Santos dizia que o processo autoritário da globalização excluía a democracia e nos levaria ao globalitarismo, representando o fim da crítica e da autocrítica.

E é na esteira de uma globalização da economia e suas múltiplas consequências que os serviços de águas estatais vão sendo gradualmente privatizados. A água é um direito da população. O governo tem que garantir que nenhum cidadão fique à margem desse bem público. Ela deve ser fraternalmente compartilhada e não utilizada como uma mercadoria de guerra, como ocorre em regiões do Oriente Médio, onde o controle de sua distribuição e utilização é, historicamente, cenário permanente de tensões e conflitos.

A criação da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) faz parte da estratégia norte-americana, com objetivos políticos, econômicos e militares de longa duração, para limitar a ação dos governos em suas políticas internas e facilitar o acesso das multinacionais aos serviços públicos. Para os mais de 300 milhões de pobres e miseráveis latino-americanos, a ALCA significa o reforço da mesma política de empobrecimento que já dura há séculos.

Dez anos depois da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (mais conhecida como Eco 92), realizada no Rio de Janeiro, representantes dos cinco continentes vão se reunir na chamada Cúpula Rio+10, na África do Sul, entre 26 de agosto e 4 de setembro deste ano. Neste momento de desafios às instituições governamentais, no que se refere ao saneamento básico, um dos programas de ação da Agenda 21 para melhorar a saúde do planeta, não temos nada a comemorar. A situação piorou.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 5 milhões de seres humanos morrem todo ano pela falta de água potável para beber ou por alguma doença provocada pela veiculação hídrica. Hoje, mais de 3 bilhões de pessoas em países subdesenvolvidos não têm saneamento básico, num processo intimamente ligado à questão da pobreza e da miséria, gerando a categoria do lumpensinato da água.

E, como foi dito por um índio mexicano, ‘já estão privatizando a água, agora só faltam privatizar as nuvens!’” [1]

A ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) foi recusada pela maioria dos governos de esquerda, pois perceberam que a estratégia era para favorecer, nitidamente, o governo norte-americano e, sem dúvida, a falta de água potável e de saneamento básico para os mais desassistidos, em escala global, no mínimo, é questionável.

Segundo informações recentes das Nações Unidas, “No ritmo atual, a promessa de água potável e saneamento para todas as crianças está cada vez mais distante.

Entre 2000 e 2024, a população global aumentou de 6,2 bilhões para 8,2 bilhões. Nesse período, um quarto da população mundial, 2,2 bilhões, obteve acesso à água potável e 2,8 bilhões ao saneamento.” [2]

Fontes [1] “O lumpesinato da água”. Artigo de Heraldo Campos, de 17/07/2002, publicado no Jornal Extra Classe. https://www.extraclasse.org.br/ambiente/2002/07/o-lumpesinato-da-agua/ [2] “Mundo tem 2,1 bilhões de pessoas sem água potável e 3,4 bilhões sem saneamento”. Matéria do ONU News, de 20/08/2025. https://news.un.org/pt/story/2025/08/1850796

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.