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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Seria estranho se o "mercado" aplaudisse Pochmann no IBGE

Márcio Pochmann (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Luís Nassif explicou muito bem (AQUI) quais as razões de Márcio Pochmann incomodar tanto Miriam Leitão e, em efeito manada, outros comentaristas de economia repetidores dos mantras do “mercado”. O professor da Unicamp, ex-presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, está sendo pintado por essa gente como um irresponsável tendente a fraudar dados quando alçado ao comando do IBGE. Essa espécie de “acusação preventiva” contra um cidadão sem máculas no passado pode vir a ser enquadrada em algum tipo penal? Consultaremos juristas num segundo tempo.

De outra parte, ser insultado por certas pessoas engrandece o currículo. Em termos de argumentação teórica, liberais e neoliberais - e suas vozes na mídia - jamais poderiam aplaudir a indicação de Pochmann por Lula para o IBGE ou qualquer cargo que fosse. Seu pensamento é 100% antidominação do Estado pelo “mercado”. O professor, autor de umas cinco dezenas de livros, enxerga a economia como disciplina humana, como instrumento formulador de estratégias que visem ao desenvolvimento do país e ao bem-estar da população. Como poderia o nome de Pochmann agradar o “mercado”?

Selecionamos alguns trechos de artigos de Márcio Pochmann publicados recentemente em veículos de imprensa não alinhados ao neoliberalismo. A leitura levará à óbvia constatação de que o professor da Unicamp jamais poderia agradar ao “mercado”, mesmo que alçado a uma instituição que não define a política econômica. Sinal de honestidade intelectual da parte dele.

A seguir, Pochmann: “a modernização no padrão de consumo posta em marcha com a estabilização monetária alcançada pelo Plano Real, em 1994, alcançou o limite destrutivo dos postos de trabalho da classe média assalariada e o endividamento das famílias de menor renda. Além disso, a viabilidade da estabilização monetária dependia de juros reais elevados, necessários para internalizar capitais externos, em geral especulativos, e permitir a valorização cambial (doença holandesa) fundamental à inundação de bens importados no mercado interno a preços inferiores.”

“(...) De outro lado e, por consequência, ocorreu a artificial elevação na taxa de juros promovida pelo Banco Central que, ao onerar as finanças públicas, promoveu o déficit público a ser financiado pelo maior endividamento do Estado e/ou austeridade fiscal, a elevação da maior carga fiscal, a privatização e o teto de limite aos gastos públicos não financeiros. Ao mesmo tempo, o patamar da taxa de juros reais passou a inibir os investimentos produtivos internos, alimentando o rentismo e a ‘maquiagem’ da montagem e empacotamento de insumos e componentes importados, travestidos de bens finais comercializados no mercado interno.”

“Na maior parte das vezes, as economias importadoras de bens e serviços digitais terminam financiando o consumo moderno com a produção e exportação de commodities minerais e vegetais. Isso muitas vezes é combinado à pobreza e baixos salários de ampla parcela da população com a intensa agressão ao meio ambiente.”

“A elevação da carga tributária em torno de 10 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) entre os anos 1990 e 2022 transcorreu assentada proporcionalmente mais na arrecadação sobre os segmentos dos rendimentos intermediários e empobrecidos. A classe e a fração de classe social dos proprietários terminaram sendo profundamente favorecidas.”

“Mesmo as novas atividades econômicas e modelos de negócios próprios da Era Digital, como a monetização das redes sociais, aplicativos e plataformas digitais, avançaram sem inclusão plena e efetiva no modelo atual de tributação. Com o passar do tempo, as distorções das ‘reformas pró-ricos1 impulsionadas pelo receituário neoliberal foram se tornando cada vez mais evidentes, operando contra os brasileiros que produzem e trabalham.”

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.