Sete Minutos de Roda Viva

O sabujismo pátrio já nem se esforça mais para manter pegada à cara a máscara de imparcialidade. Não fossem as formalidades protocolares e o ambiente glacial do palácio usurpado, teria sido o mesmo que um "churrasco na firma"

O sabujismo pátrio já nem se esforça mais para manter pegada à cara a máscara de imparcialidade. Não fossem as formalidades protocolares e o ambiente glacial do palácio usurpado, teria sido o mesmo que um "churrasco na firma"
O sabujismo pátrio já nem se esforça mais para manter pegada à cara a máscara de imparcialidade. Não fossem as formalidades protocolares e o ambiente glacial do palácio usurpado, teria sido o mesmo que um "churrasco na firma" (Foto: Carlos Odas)

Se assim como eu, você não teve estômago para ver a entrevista de Michel Temer no programa Roda Viva, da TV Cultura de SP, sugiro que tape o nariz e veja o vídeo que se segue a esse texto. São sete minutos e vinte e dois segundos, cujo conteúdo revela muito mais do que as horas que qualquer um possa ter gasto em frente à TV vendo o resultado desse vexaminoso conluio. Digo que essa edição do Roda Viva não é o que foi ao ar, mas este vídeo. É muito mais significativo e, certamente, no futuro, será um dos muitos casos estudados em escolas de jornalismo sobre o que não praticar, quando o jornalismo no Brasil resolver se levar a sério.

O vídeo foi feito por um certo William Corrêa, diretor de jornalismo da TV Cultura de SP e também âncora do Jornal da Cultura, e postado nas redes sociais da emissora e do próprio autor. Se tiver juízo, William esconderá dos filhos (se, ou quando, os tiver) este desonroso registro sobre as práticas jornalísticas nos veículos mencionados por ele no vídeo. Sobretudo porque ele próprio protagoniza, na peça, o papel que nenhum jornalista – atendo-me à acepção precisa do termo "jornalismo" – deveria desejar para si: o de fâmulo de um governo.

Quando foi anunciada a banca que entrevistaria Michel Temer para o programa, pôde-se ouvir uma sonora gargalhada vinda dos poucos nichos que, no Brasil, ainda mantém com o jornalismo uma relação de respeito à verdade factual e à pluralidade de ideias e opiniões; era o espanto diante de cinismo tão explícito. Enfim, o sabujismo pátrio já nem se esforça mais para manter pegada à cara a máscara de imparcialidade, um simulacro que seja de seriedade? Não. Imagine-se a mesmíssima banca entrevistando Dilma ou Lula; não se poderia chamar entrevista, mas embate, assim como não se pode chamar entrevista ao que praticaram com Michel Temer, mas uma confraternização de final de ano adiantada. Não fossem as formalidades protocolares e o ambiente glacial do palácio usurpado, teria sido o mesmo que um "churrasco na firma".

Daí o mais crédulo leitor poderia alegar exagerada a desconfiança sobre a banca selecionada; por que não poderiam produzir uma boa entrevista com o "presidente"? Por que essa entrevista não poderia ser desafiadora para o entrevistado, ainda que não precisasse ser agressiva como seria se a entrevistada fosse Dilma? Por que ele não seria instado a responder sobre os embaraços públicos de ter sido citado mais de uma vez em delações no âmbito da Lava Jato, como solicitante e recebedor de propinas? Por que não se poderia solicitar-lhe que esmiuçasse um pouco mais de sua relação de longa data com Eduardo Cunha, seu parceiro político mais íntimo na última década? Por que não seria questionado sobre o fato de ter em seu ministério tantos investigados na Operação Lava Jato, além de um punhado de réus? Por que não seria questionado, de modo firme – ainda que não tão "firme" como seria Dilma –, sobre os resultados econômicos que não chegam após seis meses já de seu "governo", tendo o apoio de uma base parlamentar de 400 picaretas, digo, deputados, na Câmara, e o apoio da maioria do Senado? Por que não seria perguntado quais são os exemplos de sucesso no mundo que inspiram a sua "exacerbada política de austeridade fiscal" (sim, poderiam inclusive fingir que acreditam nisso)? Afinal, é óbvio que quem acha que essa parcela da imprensa é governista hoje, e foi oposicionista no passado recente, ia mesmo achincalhar uma banca formada por representantes desse jornalismo e desses veículos, não é mesmo? Veja o vídeo. Ele fala por si. E chega a ser inacreditável.

Algumas declarações, de tão elegantes, poderiam frequentar o "livro de presenças", se aquele fosse o casamento de Michel Temer – e não uma entrevista para um programa supostamente jornalístico. Quero me ater a duas delas que, penso eu, deixam claras o suficiente as intenções de entrevistadores e da fanfarronice toda (patrocinada, diga-se, com dinheiro público). Uma da indefectível Eliane Cantanhêde que, entre autoelogios e elogios rasgados ao "entrevistado", tascou, virando os olhinhos como quem comete uma inconfidência na manicure: "olha, aqui entre nós, de romance o 'presidente' entende". A outra, de Carlos Taquari, editor do Roda Viva: "mostramos que o 'presidente' é um homem e que, por trás do cargo, existem suas emoções e seus sentimentos". Imaginem o mesmo editor dizendo algo parecido sobre Dilma. Ou sobre Lula.

Em momento anterior do vídeo, um Sérgio Dávila da Folha, menciona um "juiz da suprema corte americana": "o melhor detergente é a luz do sol", como se transparência fosse o fato de dar uma entrevista amiga a veículos amigos. Ora, a luz do sol queima a todos, indistintamente; a luz dos refletores da TV Cultura, está provado, não.

Inevitavelmente, lembrei-me do caso da RCTV, da Venezuela, que, um dia após o frustrado golpe de 2002 contra Chávez, exibiu um inacreditável programa em que políticos, militares golpistas e jornalistas da própria empresa celebravam a derrubada do governo e davam detalhes de como haviam tramado todo o golpe. Aqui, miseravelmente, o golpe ainda vige e seus principais atores produzem peças de propaganda execráveis como a edição do Roda Viva com Michel Temer. Para a sorte de historiadores futuros, no entanto, William Corrêa produziu, involuntariamente, documento de valor igual ao daquele programa da RCTV.

Na semana em que governo e oposição venezuelanas anunciam ter chegado a um acordo, mediado pelo Vaticano, de convivência pacífica, institucional e política, e reiteram, ambos, o compromisso com a Constituição de seu país, a imprensa brasileira dá mais uma mostra de que tem razão o povo venezuelano, que em ato recente alertou os golpistas de lá: "nós não somos o Brasil". Não são mesmo.

 

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