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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Silvérios do século XXI

Entre a pressão econômica dos Estados Unidos e os interesses nacionais brasileiros, ressurge um debate histórico sobre soberania, responsabilidade e traição

Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Reprodução)
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A política brasileira voltou a esbarrar numa de suas palavras mais antigas e graves: traição. O debate reapareceu depois que Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo estiveram na Casa Branca para encontros com Donald Trump e, menos de 120 horas depois, o governo americano anunciou a intenção de impor tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Em qualquer país atento à própria história, a sequência dos acontecimentos despertaria inquietação. No Brasil, despertou também memória. Não apenas pelo impacto econômico da medida, mas pelo simbolismo político de brasileiros celebrarem ou estimularem pressões externas contra interesses nacionais.

A decisão da administração Trump foi apresentada como resposta a supostas práticas comerciais desleais. Seus efeitos, porém, alcançam setores estratégicos da economia brasileira e ampliam a insegurança para empresas, exportadores e trabalhadores. O aspecto mais revelador da crise não estava apenas nas tarifas. Estava na escolha dos alvos. Entre críticas ao comércio digital, à propriedade intelectual e à regulação econômica brasileira, Washington colocou o Pix no centro da disputa.

Nesse momento, a controvérsia deixou de ser apenas comercial. O Pix não pertence a um governo nem a um partido. Tornou-se parte da vida cotidiana dos brasileiros, da feira livre às grandes corporações. Ao reduzir custos, acelerar transações e ampliar a inclusão financeira, consolidou-se como uma das mais bem-sucedidas inovações institucionais já produzidas pelo Estado brasileiro. Ao questioná-lo, os Estados Unidos não atingem apenas uma ferramenta tecnológica. Atingem um instrumento de soberania financeira desenvolvido no Brasil e incorporado ao cotidiano de milhões de cidadãos.

A reação foi imediata. Nas redes sociais, nos programas de rádio, nos artigos de opinião e nas conversas cotidianas, multiplicaram-se acusações de traição contra aqueles que celebraram ou estimularam a pressão americana. A palavra é severa e não deve ser utilizada de forma leviana. Mas ela impõe uma reflexão inevitável. Quando agentes políticos buscam apoio externo contra interesses nacionais ou comemoram medidas capazes de prejudicar empresas brasileiras, empregos brasileiros e tecnologias desenvolvidas no Brasil, a discussão deixa o campo da disputa partidária e ingressa no terreno da responsabilidade histórica.

É nesse ponto que Joaquim Silvério dos Reis retorna ao debate público. Historiadores continuam discutindo suas circunstâncias pessoais, suas dívidas e suas motivações. A memória coletiva foi mais direta. Transformou-o no maior símbolo da delação política da história brasileira. Sua permanência no imaginário nacional decorre de uma pergunta simples e perturbadora: quanto vale uma pátria diante da conveniência pessoal?

Foi essa pergunta que Cecília Meireles explorou com rara força literária em Romanceiro da Inconfidência. No célebre “Romance XXXIV ou de Joaquim Silvério”, a poeta aproxima o delator mineiro de Judas Iscariotes. O verso permanece afiado décadas depois de escrito: “Melhor negócio que Judas fazes tu, Joaquim Silvério.” A comparação atravessou gerações porque fala menos sobre o século XVIII e mais sobre uma tentação recorrente da política: trocar compromissos coletivos por benefícios imediatos.

A força do poema está em mostrar que a traição não termina quando o ato é consumado. Ela continua vivendo na memória. Judas carrega o peso do remorso. Joaquim Silvério, na leitura de Cecília, parece envelhecer sem ele. A observação continua atual porque há traições movidas pela culpa e há aquelas executadas com a serenidade burocrática de quem acredita servir a uma causa superior.

Nenhum brasileiro precisa apoiar Lula para considerar inaceitável que uma potência estrangeira pressione a economia nacional em benefício dos próprios interesses. Tarifas não atingem apenas governos. Atingem fábricas, produtores rurais, transportadoras, trabalhadores e famílias. Da mesma forma, o Pix não pertence ao presidente da República. É uma conquista institucional construída por técnicos, servidores públicos e pela capacidade brasileira de inovação.

O aspecto mais preocupante dessa crise talvez seja a confusão deliberada entre adversário político e inimigo nacional. Quando alguém aceita que uma potência estrangeira imponha custos ao país para enfraquecer um governo, admite, na prática, causar danos à nação para atingir um adversário. Essa lógica dissolve qualquer noção consistente de interesse nacional e transforma divergências políticas legítimas em disputas em que o país passa a ser tratado como dano colateral.

Trump age segundo uma visão de mundo conhecida. Utiliza tarifas como instrumento de pressão e converte relações comerciais em instrumentos de disputa política. O problema brasileiro está menos em Washington do que na existência de brasileiros dispostos a oferecer sustentação interna a essa estratégia. Toda potência defende seus próprios interesses. O escândalo começa quando nacionais colaboram para ampliar a capacidade de pressão de uma potência estrangeira sobre o próprio país.

Por isso Joaquim Silvério voltou ao debate. Por isso Cecília Meireles voltou a ser citada. A literatura costuma iluminar momentos em que a linguagem política se revela insuficiente para explicar determinados acontecimentos. O episódio das tarifas e dos ataques ao Pix dificilmente será lembrado apenas como uma disputa comercial. Tornou-se também um teste de caráter público.

De um lado, está um país que desenvolveu uma tecnologia financeira admirada internacionalmente e adotada por praticamente toda a sua população. De outro, figuras políticas dispostas a vê-la enfraquecida caso isso produza dividendos eleitorais. A história brasileira conhece esse roteiro. Mudam os governos estrangeiros, mudam os interesses em disputa e mudam os personagens. Permanece a figura daquele que atravessa a porta em busca de vantagens particulares e deixa para trás o interesse coletivo.

Cecília Meireles escreveu sobre isso há décadas. Talvez seja por essa razão que seus versos continuem tão atuais. A traição raramente se apresenta como traição. Costuma chegar envolta em discursos patrióticos, promessas de liberdade e justificativas aparentemente nobres. No momento decisivo, porém, a pergunta permanece a mesma: quanto vale entregar o Brasil?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.