Só eleição não tira país da crise, há que restaurar democracia

Os liberais-golpistas-midiáticos confundem pirataria com colonização. Acham que violar o instituto sagrado do voto popular derrubando governos legitimamente eleitos não perturba planos de longo prazo no país que for vítima de tal fenômeno

Os liberais-golpistas-midiáticos confundem pirataria com colonização. Acham que violar o instituto sagrado do voto popular derrubando governos legitimamente eleitos não perturba planos de longo prazo no país que for vítima de tal fenômeno
Os liberais-golpistas-midiáticos confundem pirataria com colonização. Acham que violar o instituto sagrado do voto popular derrubando governos legitimamente eleitos não perturba planos de longo prazo no país que for vítima de tal fenômeno (Foto: Eduardo Guimarães)

Há um movimento de um grupo de militantes petistas que, apesar de não ser grande, tem feito barulho nas redes e conseguiu até levar um ex-ministro da Justiça a um “debate” sobre como obter a volta de Dilma Rousseff ao cargo via Supremo Tribunal Federal.

Muitos têm se irritado com uma suposta “inutilidade” dessa ação, já que (praticamente) todos sabem que a possibilidade de o STF anular o impeachment – com base em seus incontáveis vícios de origem – é muito menor do que zero vezes zero.

Diante da virtual impossibilidade de o golpe ser anulado, perguntei ao dito ex-ministro da Justiça se acreditava mesmo que o STF tiraria Michel Temer do cargo e instalaria Dilma de volta, e ele me respondeu com uma premissa:

— As pessoas precisam ter pelo que lutar

Autores dessa iniciativa estão sendo acusados de adotar um tom dito “impositivo”, do estilo “quem não estiver comigo está contra mim”… Porém, vale a pena refletir sobre parte do que essas pessoas dizem.

O que tenho ouvido de pessoas próximas a Dilma é que ela nem quer voltar à Presidência – por razões mais do que óbvias, pois sabe que, mais uma vez, não a deixariam governar –, mas os militantes da anulação do impeachment afirmam que ela quer voltar, sim…

Independentemente do que Dilma queira ou do que queiram seus apoiadores, o fato é que não existe a possibilidade de seres humanos conseguirem recolocá-la no poder – quiçá alguma força divina, mas há controvérsias.

Todavia, a virtual impossibilidade de anular o ato jurídico-político que derrubou a ex-presidente da República não invalida o fato de que essa derrubada ilegal lançou uma maldição sobre o Brasil.

Muitos analistas têm dito, com boa dose de razão, que só um presidente eleito legitimamente, ou seja, pelo voto direto e em eleições livres, terá legitimidade e força política para fazer com que os agentes econômicos voltem a acreditar no Brasil.

Eles estão certos, mas não totalmente.

Um dos argumentos mais fortes dos fundamentalistas pela volta de Dilma é o de que a sua (dela) derrubada ilegal, levada a cabo sob uma desculpa qualquer, comprometeu a democracia brasileira.

E eles, nesse aspecto, têm toda razão.

Inventar desculpa para derrubar um presidente e conseguir, transforma a democracia brasileira em uma farsa, ou seja, não existe democracia em um país no qual é tão fácil jogar no lixo o voto majoritário de dezenas de milhões de eleitores.

Com efeito, sem democracia sólida não dá para confiar nas regras do jogo.

Os golpistas acharam, em pleno século XXI, que derrubar um governo que não está fazendo o que o capital quer seria salvo conduto para o golpe e proteção total dos rigores da lei para os que atentam contra a vontade popular.

Não é bem assim. Enganam-se os liberais-golpistas de Pindorama. O capital não confia de verdade em países nos quais ele mesmo, capital, derruba governos com tanta facilidade.

O capital até pode rapinar o que houver para ser rapinado nesses países e dar no pé, mas não confia nesse país para nele investir a médio e longo prazos, ou seja, para investir de verdade.

Os liberais-golpistas-midiáticos confundem pirataria com colonização. Acham que violar o instituto sagrado do voto popular derrubando governos legitimamente eleitos não perturba planos de longo prazo no país que for vítima de tal fenômeno.

Ora, você investiria o seu rico dinheirinho em um país no qual você não sabe quem estará governando daqui a seis meses?

Você investiria alguma coisa em um país no qual você não sabe se um político que vencer uma eleição vai levar ou, mesmo levando a vitória, se vai conseguir se manter no cargo?

Enfim, você apostaria em países nos quais as regras do jogo só valem até que alguém, por um ato de força, mude-as de uma hora para outra?

De que adianta eleger Lula, Ciro Gomes ou Bolsonaro se ninguém sabe se, uma vez eleitos, vão conseguir implantar o projeto que conseguirem consagrar nas urnas? E esse é um dos argumentos dos crentes na volta de Dilma.

Segundo os que acreditam na possibilidade de fazer o acovardado STF criar coragem e cumprir a lei – e, aí, eles têm carradas de razão, de novo –, se Lula for eleito em 2018 a maioria de direita que será eleita para o Congresso na mesma eleição não iria deixá-lo governar.

Não tenho a menor dúvida de que qualquer candidato de esquerda que porventura se eleja em 2018 sem conseguir eleger uma bancada forte para atuar em sua base de apoio, não irá conseguir governar e correrá o risco de ser derrubado.

A nova (?) realidade gera novas premissas obrigatórias para todo candidato progressista a presidente.

Os vices, a partir do golpe liderado por Michel Temer contra Dilma, terão que ser muito mais bem escolhidos. Alianças da centro-esquerda com a centro-direita e a direita de aluguel tornar-se-ão inviáveis, o que é ruim para a centro-esquerda…

Hoje, estaria inviabilizada a eleição na qual Lula chegou à Presidência, em 2002. Todos saberiam do risco de ele ser derrubado à primeira crise de popularidade que surgisse por conta de problemas cíclicos nas economias.

Por um lado, é ruim para a esquerda. O Brasil é um país conservador que não resiste a votar em conservadores. Muito eleitor do PMDB, do PP e de outros partidos de direita votou neles para o Legislativo e em Lula ou Dilma para presidente.

Após o golpe de 2016, o que Lula ou qualquer outro candidato de esquerda terá que fazer, em 2018 e para sempre, será dizer ao eleitor, durante as campanhas eleitorais, que, se esse eleitor não votar nos candidatos a deputado e senador aliados a si, se eleito não conseguirá governar.

E poderá ser derrubado.

A possibilidade de golpe, de derrubada de governo legitimamente eleito, de parlamento que não deixa o eleito governar, vai entrar de vez nas campanhas eleitorais. Se, se não entrar, o eleito poderá ter um triste fim.

Diante disso tudo, os devotos da volta de Dilma têm razão ao menos em um ponto: eleger  Lula sem a reparação do golpe contra Dilma não vai adiantar nada.

Isso quer dizer que você é favorável ao movimento Volta, Dilma, Eduardo? Nunca fui contra, mas não acredito nele.

Acredito que sem a reversão do impeachment, a eleição legitima de um novo presidente só será crível para investidores se o eleito conseguir eleger consigo uma sólida base de apoio, alinhada a seu pensamento político-ideológico. Sem isso, não governará.

*

PS: Surgiu dúvida sobre se Lula irá depor a Moro por teleconferência ou presencialmente em 3 de maio. Nesse aspecto, matéria do portal G1, da Globo, afirma que “O juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas ações da Lava Jato na primeira instância, agendou nesta sexta-feira (3/3) o interrogatório dos réus na ação penal que envolve um triplex em Guarujá, no litoral de São Paulo. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve ser interrogado em 3 de maio, às 14h, na sede da Justiça Federal do Paraná, em Curitiba.

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