Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca
"Para Darcy, educar era um ato de insubordinação, uma recusa radical a aceitar o Brasil como ele é"
A sentença de Darcy Ribeiro atravessa o tempo como um brado ainda incômodo, feroz e necessário. Não é um aforismo para repetição automática, mas uma convocação moral. Darcy não falava de si como indivíduo isolado, mas de um país inteiro que, ao escolher a resignação, se condena. Ao escolher a indignação, renasce.
Darcy Ribeiro foi, antes de tudo, um homem de causas. Aceitou conscientemente uma vida marcada por "derrotas", pois suas vitórias nunca foram medidas em cargos, verbas ou títulos, mas no gesto íntimo de jamais se curvar. Ele compreendia que o Brasil sempre exigiu dos que o amam um preço elevado: incompreensão, exílio, perseguição e fracasso institucional. Ainda assim, lutou como poucos, certo de que a obra de uma vida não se mede pelo que se conclui, mas pelo que se tenta sem descanso.
Sua batalha mais decisiva foi pela educação. Sonhou uma escola pública que fosse libertação, e não simples adestramento. Criou a Universidade de Brasília, reformou sistemas educacionais, escreveu projetos voltados ao futuro e viu muitos serem sabotados por elites míopes. Sabia que um país que priva seu povo de conhecimento prepara o próprio naufrágio. Para Darcy, educar era um ato de insubordinação, uma recusa radical a aceitar o Brasil como ele é.
No indigenismo, foi pioneiro. Ouviu, registrou, protegeu e intercedeu. Não tratou os povos originários como problemas, mas como fundamento vivo da nacionalidade. Idealizou o Parque Indígena do Xingu e o Museu do Índio, enfrentando o extermínio secular daqueles que, para ele, expressavam a essência mais profunda da brasilidade.
Ao olhar a realidade sem véus, formulou uma crítica contundente ao nosso destino coletivo ao afirmar que o Brasil é uma colônia de si mesmo. Sua defesa da soberania não era nacionalismo ingênuo, mas compreensão histórica. Sem autonomia econômica, democratização da terra e ruptura com a dependência estrutural, não há nação, apenas servidão disfarçada. O Brasil, dizia Darcy, só florescerá quando deixar de ser lucrativo para poucos e devastador para muitos.
Como intelectual e gestor público, trabalhou também pela cultura, criando instituições, bibliotecas e centros culturais. Acreditava que um país só se reconhece quando contempla a própria obra humana. Sua trajetória não foi a de acumular cargos, mas a de construir sentidos.
Movia-o a convicção de que uma vida inteira de fracassos pode ser moralmente superior a uma existência de neutralidade covarde. Ao afirmar que horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram, Darcy legou um manifesto de resistência indignada e combativa.
Em O Povo Brasileiro, sintetizou essa visão ao compreender o país como um drama civilizatório singular, nascido da dor indígena, da violência contra os negros escravizados e da mestiçagem que criou um povo novo, contraditório e resistente. Não romantizou essa história. Denunciou-a com fúria e a exaltou com esperança.
Sua crítica mais dura talvez tenha sido dirigida à juventude, não por desprezo, mas por amor inquieto. Via nela a apatia produzida pelo autoritarismo e exigia indignação, participação e compromisso político. Pedia que o país não fosse aceito como herança passiva, mas assumido como tarefa urgente.
Esse é o núcleo de sua frase imortal. Indignar-se é um dever cívico e moral. Resignar-se é trair o país.
Entre educação, povos indígenas, cultura, soberania e justiça social, Darcy construiu um legado que não cabe em manuais nem se esgota nas universidades. Seu legado é um espelho. A pergunta que ele nos lança permanece brutal: o que fazemos com nossa indignação? E, mais dura ainda, o que fazemos com nossa resignação?
O Brasil exige hoje exatamente aquilo que Darcy nunca abandonou: paixão, coragem, rebeldia e compromisso com os que nada têm. Como ele próprio afirmou, foi um homem de causas. O maior tributo que podemos lhe prestar é transformar essa afirmação em pergunta: de que causas somos capazes?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



