Sob a ética da responsabilidade

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Há quem considere ética e moral como sinônimos. Não o são. A começar pela origem, “ethos” vem do grego e “mores” do latim. Simplificadamente a ética é a ciência do comportamento e a moral é a sua prática. A ética, por assim dizer, “julga” a moral. A ética corresponde a valores mais universalizados e duradouros enquanto a moral varia com o tempo e o lugar. Mas isso agora é de menor importância, quero me fixar na concepção weberiana da ética do político, porque inúmeros exemplos dessa abordagem pululam em nosso dias tão confusos.

Weber afirmava que o político constantemente se defronta com um dilema para se posicionar. Tanto pode se orientar pela ética da convicção, onde os valores e crenças prevalecem, quanto pelo que ele chamou de ética da responsabilidade, quando decide com base nas possíveis consequências, “calculando”, medindo a repercussão das suas decisões. Em suma, nesse viés o político decide de forma pragmática (palavra usada com frequência na política para explicar determinadas posturas). 

Exemplo vívido é o atual processo eleitoral em curso nas duas casas do Congresso. Em ambas os candidatos que, segundo consta, serão apoiados pela esquerda (generalizando) são, em função do seus históricos de perfil de direita, talvez até de extrema direita, no caso do candidato no Senado (por sua maior proximidade com o bolsonarismo).

Nitidamente a esquerda avaliou pragmaticamente as consequências de uma ou de várias candidaturas próprias.  Pouca chance de êxito e, com isso, aumentaria muito a probabilidade de vitória de um candidato absolutamente contrário à visão progressista. No caso o deputado Lyra e a senadora Tebet. Optaram então por decidir apoio fora do seu espectro ideológico e contra a mencionada dupla.   

Também ocorre algo semelhante na Câmara. Estão esquentando (ou esfriando) 60 pedidos de impeachment nas gavetas do atual presidente, deputado Rodrigo Maia. De um lado e cada vez mais ele critica, até de forma veemente, uma série de atitudes e posturas do Bolsonaro e de outro ele não coloca o impedimento na pauta. Com a ética da convicção Maia condena muito do que o governo faz (com exceção da agenda econômica, da qual ele é defensor entusiasta), contudo sob a égide da ética da responsabilidade ele tranca o andamento do (s) processo (s) de impedimento do Presidente.

Assim, Rodrigo Maia está sendo calculista. Ele parece temer a opinião do seu eleitorado mais conservador, caso toque a coisa adiante. Também parece preocupado com a ascensão da esquerda com a possível defenestração do Bolsonaro. E ainda, talvez, queira   manter uma relação “amistosa” com a mídia (oligopolista e figadal adversária das esquerdas) e que, com razão, é considerada “o quarto poder”. Ou seja faz um cálculo de consequências, não se orienta pela ética.   

Por outro lado, nesse mister, há que se questionar tamanha concentração de poder nas mãos do presidente da Câmara. Talvez uma comissão ou outra forma de colegiado devesse decidir assunto tão importante como os processos de impeachment. 

A questão da verdadeira “guerra da vacina” que foi deflagrada no país representa, por sua vez, um doloroso e vergonhoso exemplo do emprego da ética da responsabilidade (acho que Weber usou de eufemismo quando criou o termo). Bolsonaro e Doria se engalfinham em contenda absurda, ambos querendo vencer a “corrida da vacina”, sem levar em conta a urgência da questão. Não estão focados na salvação de vidas humanas, estão concentrados em vencer uma batalha politiqueira.

Um se vale de argumentos “infantilóides” (perdão pelo neologismo) afirmando que não só o vírus mas também a vacina são “comunistas” (e dá margem para que seus seguidores mais imbecilizados digam que a tal vacina pode inocular o vírus do comunismo, isso e outras sandices). O outro se vale da tibieza, negativismo e “batição de cabeça” do governo federal para fazer proselitismo sobre o assunto. Se pudesse o vírus agradeceria a ambos e a mais alguns e algumas que contribuem para o caos sanitário.

Dados do último dia 12 mostram que no mundo 28 milhões já foram vacinados e no “Brasilzão” – zero. E ainda dizem que Deus é brasileiro. Talvez, mas parece que o momento os capetas estão à solta. 

Que Deus me perdoe!

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