Sobre a dificuldade em se construir alianças pela esquerda

Um modelo mais eficaz costuraria alianças políticas a partir de um programa comum discutido por todos os que delas participam. A construção de um programa comum possui uma maior probabilidade de que todos os que participaram de sua elaboração se comprometam com ele

(Foto: Foto: Pablo Nacer (Brasil 247))

As eleições municipais de 2020 se aproximam. Em muitas das principais capitais do país as gestões atuais estão mal avaliadas e se confrontando com sérias dificuldades administrativas. No Rio de Janeiro, por exemplo, funcionários terceirizados que trabalham em hospitais e postos de saúde estão sem receber desde outrubro e paralizaram o atendimento ao público. Hoje, doze de dezembro, a imprensa noticia que um homem de 53 anos com suspeita de enfarte morreu após esperar durante cinco horas por atendimento dentro de uma unidade de saúde, a Coordenação de Emergência Regional do Leblon, bairro com um dos metros quadrados mais caros do país. O prefeito-bispo-evangélico afirma que este caos se deve às dívidas deixadas pelo seu antecessor. O Tribunal de Contas do Município afirma que o prefeito assumiu com dinheiro em caixa. 

Desde a gestão César Maia que a prefeitura do Rio vem privatizando a gestão dos hospitais públicos, transferindo-a para organizações privadas e terceirizando a mão-de-obra dos servidores. O fato é que este modelo privatista não funciona. O governo municipal está em crise e a oposição de esquerda não consegue construir uma aliança que exponha a fragilidade do bispo-prefeito e se consolide como uma real opção à política neoliberal instalada no município.

Notícias dão conta de uma possível aliança de esquerda capitaneada pelo deputado federal Marcelo Freixo que concorreria às eleições para prefeito do Rio de Janeiro ano que vem. Como um ioiô, uma hora esta aliança se consolida, outra hora ela se enfraquece, uma hora avança, outra hora recua, indo e vindo ao sabor das vaidades e dos interesses partidários. Lula quer que o PT lance candidatos em todos os municípios para fortalecer o partido para as eleições de 2022, se é que teremos eleições em 2022. O PSOL, o PCdoB e o PCB querem a mesma coisa. 

Setores do PT avaliam que Marcelo Freixo só consegue se eleger com o apoio do partido e propõem emprurrar a aliança de esquerda com a barriga até o mês de julho, quando esta situação ficar clara para o PSOL. Desta maneira, avaliam, poderão negociar em melhores condições com o PSOL. No fundo, os partidos estão pensando em si mesmos, em aumentar seu cacife político, mesmo que isto siginifique uma possibilidade real de um segundo turno entre Marcelo Crivella e Eduardo Paes, que é o que as pesquisas preliminares que estão sendo divulgadas indicam no momento.

Mas, afinal de contas, qual é a dificuldade em se construir uma aliança de esquerda que derrote o fascismo pentecostal no Rio de Janeiro? O problema está na maneira como estas alianças são construídas, a partir de nomes. É uma aliança no Rio entorno do Marcelo Freixo, em São Paulo, entorno do Haddad uma proposta que privilegia sempre a união a partir dos nomes dos caciques do momento em cada um dos partidos em cada cidade.

A construção de alianças políticas a partir de nomes tem uma enorme probabilidade de dar errado. O exemplo maior e mais recente foi a aliança PT-PMDB na chapa Dilma-Temer. Feita desta maneira, o nome secundário na chapa, geralmente o vice, não tem o menor compromisso com o programa que o elegeu, mas mantém seu compromisso com seu partido de origem.

Um modelo mais eficaz costuraria alianças políticas a partir de um programa comum discutido por todos os que delas participam. A construção de um programa comum possui uma maior probabilidade de que todos os que participaram de sua elaboração se comprometam com ele. Probabilidade, não certeza, porque nas alianças resta sempre um elemento subjetivo que pode ser incontrolável que é a vaidade dos sujeitos. Pode ser que, ao assumir o poder, alguém resolva que não cumprirá o previamente acordado.

Um programa comum, este deve ser o ponto de partida para uma aliança de esquerda. Quem será o cabeça de chapa não faz a menor diferença. Uma aliança costurada desta maneira teria uma grande possibilidade de emplacar um programa de esquerda na prefeitura do Rio de Janeiro a partir de 2021 fosse o eleito Marcelo Freixo, Jandira Feghali, Lindbergh Farias, Benedita da Silva, Alessandro Molon ou qualquer outro nome. As vaidades ficariam em segundo plano. Existem certos princípios comuns à esquerda a partir dos quais o programa poderia ser construído: educação pública gratuita e de qualidade para todos; saúde pública gratuita e de qualidade para todos; IPTU diferenciado com os mais ricos pagando mais; investimento pesado em transporte público; desoneração dos trabalhadores que ganham salários mais baixos; políticas públicas de inclusão social estes seriam alguns desses princípios que dariam suporte à aliança de esquerda.

A construção de uma aliança consistente a partir de um programa comum, elaborado por representantes de todos os partidos de esquerda, contribuiria para unificar ainda mais os partidos cujos representantes conviveriam mais tempo discutindo os princípios basilares de um programa de esquerda, ganhando tempo para aparar as arestas existentes. Além do mais, com uma unidade fortemente construída seria mesmo possível eleger-se um tertius, uma alternativa que pudesse suplantar as vaidades individuais e unificar a esquerda.

Por enquanto as perspectivas não são nada animadoras com as vaidades e os interesses partidários se impondo à unidade política. É preciso maturidade e virtù política para evitar o cenário desastroso de um segundo turno entre Crivella e Paes.

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