Sobre Elon Musk, Bolívia, Arrogância e Esperança

Evo Morales pode retornar do exílio ao seu país. E as lindas bandeiras quadriculadas com as cores do arco-íris podem voltar a flamular nos céus bolivianos. Elas anunciam a Esperança no povo da América Latina

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O resultado das eleições na Bolívia trouxe a todos nós progressistas ares de Esperança que estávamos urgentemente necessitando. A vitória de Luis “Lucho” Arce e do Movimiento al Socialismo e a reversão do perverso Golpe de 2019 – que viveu muito menos do que seus perpetradores esperavam – nos deixa claro que o trabalho de base feito por Evo Morales em seus quase 14 anos de governo de fato foram eficazes. Mais da metade da população provou possuir consciência política, sabendo se defender das garras da extrema-direita fundamentalista, racista, ultraconservadora e, é claro, patrocinada pelos Estados Unidos da América.

Ao escrever isto, me é impossível não refletir a respeito do Brasil. Por que no Brasil se alastrou em meio ao povo tamanha ignorância política e inconsciência eleitoral? Os mesmos 14 anos anos de governo do companheiro Lula e da companheira Dilma não cumpriram o papel de educação do povo neste âmbito? Provavelmente não. É claro, deve-se levar em consideração que o Brasil possui uma população gigantesca, quase 18 vezes maior que a da Bolívia, que beira os 12 milhões de habitantes, e isto é um fator que torna tudo muito mais complicado. Mas este trabalho deveria ter sido mais bem feito. Enfim, tudo isso é algo para refletirmos e aprendermos para o futuro.

No momento estamos ainda comemorando a conquista da vez, que não é somente boliviana, mas sim progressista mundial. Todavia, um capítulo paralelo nesta história é digno de ser relatado. Refiro-me ao episódio do bilionário estadunidense Elon Musk, que em um de seus muitos “lapsos de sinceridade” de repente decidiu evidenciar ao planeta a sua ideologia imperialista, dominadora e opressora. Ocorreu que em 25 de julho deste ano, comentando o Golpe na Bolívia, o cidadão tuitou o seguinte: “Nós daremos o golpe de estado em quem quisermos. Lidem com isso.”

Mas o que motivou esta escancarada manifestação conquistadora por parte deste completo imbecil? É simples. Para a produção de seus “maravilhosos carros”, ele necessita de lítio. E o minério não é obtido tão facilmente como ele gostaria. Uma das maiores reservas de lítio do mundo se encontra em Salar de Uyuni, na Bolívia. Argentina, China e Austrália são outros países que podem também oferecer o produto, ou seja, o capitalista está cada vez mais preocupado acerca de onde comprar e o quanto pagar por ele. Ainda que no momento ele o adquira da Austrália, os preços globais do minério estão intimamente relacionados a questões de nacionalização ou privatização de todas as reservas mundiais. Ou seja, a nacionalização na Bolívia afeta sem dúvidas os preços na Austrália e machuca os bolsos de Musk.

Na época do tuíte em questão, Glenn Greenwald comentou o fato: “Quando entrevistei Evo Morales na Cidade do México em dezembro passado (2019) – um mês depois de ser forçado a deixar a Bolívia sob ameaças – ele deixou muito claro que considerou o que aconteceu como o que chamou de ‘Golpe do Lítio’. É bom que Elon Musk esteja admitindo isso.”

Hoje nos é claro que quando o Golpe de 2019 ocorreu, não somente os interesses políticos de dominação dos EUA estavam sendo contemplados, mas também proveitos específicos de alguns de seus bilionários estavam sobre o tabuleiro de jogos da Extrema-direita. Musk, em um típico chilique de internet no estilo “eu sou rico e posso tudo”, mostrou então abertamente qual é o seu verdadeiro caráter. Por isso devemos ficar atento às suas manobras políticas, afinal uma pessoa poderosa e rica com a ideologia que possui, sempre será uma ameaça.

Este cidadão há anos libera suas pérolas cada vez que abre a boca ou digita algo. Suas falas transitam entre o revoltante e o ridículo. Vejam, ele se considera “meio Democrata e meio Republicano”, o que significa meramente que ele é amigo de quem está no poder, simples assim. Doou dinheiro para Bush quando este era presidente, depois para Obama, quando este o era. Ele também já afirmou ser “socialmente liberal e fiscalmente conservador”. Leia-se: ele pouco se importa se os homossexuais podem se casar ou não, por exemplo, contanto que os ricos continuem pagando absurdamente menos impostos em proporção a o que os pobres pagam. Suas palavras nos deixam em dúvida se se tratam de pura hipocrisia ou de confusão mental: ele já se autointitulou “socialista” e defensor da “democracia direta”. Pois é, mas aparentemente não para os bolivianos, que não devem ser dignos de tais de conceitos, ao menos que se deitem aos pés do rei dos “carros verdes”...

Eu poderia gastar muitas palavras elencando todas as imbecilidades que este cidadão já pronunciou e continua a pronunciar do alto dos seus 92 bilhões de dólares, mas pouparei a mim mesmo e aos caros leitor e leitora. (Quem quiser, depois procure suas fantasias sobre a futura civilização em Marte, que são um bizarro capítulo à parte). Concluamos então com a “cereja no bolo”, uma declaração em que ele explicita como enxerga o seu país (em entrevista ao Think Tank Wattenberg):

“Bem, quero dizer, acho que os Estados Unidos são o maior país que já existiu na Terra. E acho que será difícil argumentar objetivamente que não é. Acho que os fatos realmente apontam a essa direção. É a maior força para o bem de qualquer país que já existiu.”

É, sua declaração acima é piada pronta, mas o achincalhamento que Musk levou nas redes sociais após o Socialismo derrotar o Fascismo boliviano-estadunidense, também o é. O jornalista Ken Klippenstein, que possui histórica inimizade com Musk não deixou barato, escrevendo que estava “solicitando um exame de bem-estar de Elon Musk”. No Brasil Carlos Latuff tuitou “O povo da Bolívia disse NÃO ao golpe militar, à CIA e ao idiota golpista Elon Musk”. E os Young Turks, maior canal progressista de análise e opinião política dos EUA, publicou um vídeo específico sobre a sujeira de Musk.

Pois bem, considerando os terríveis anos que estamos vivendo, ao menos nessa batalha, a Democracia e o Humanismo venceram. Mas nem por isso nos esqueceremos do Golpe. E nem da agora substituída marionete Jeanine Áñez, a ilegítima presidenta de Bíblia na mão, que havia feito graça de Evo Morales, o chamando de “pobre índio”. Foi ela também que chamou de “satânica” a celebração do ano novo do povo Aimará, que corresponde a cerca de 1,5 milhão de pessoas que vivem na Bolívia.

Mas agora Evo Morales pode retornar do exílio ao seu país. E as lindas bandeiras quadriculadas com as cores do arco-íris podem voltar a flamular nos céus bolivianos. Elas anunciam a Esperança no povo da América Latina, e a Resistência à arrogância de tantos “Elon Musks” que nos ímpares dias de hoje proclamam abertamente a o que vieram. Nosso recado está dado. Nem sempre a corda arrebenta do lado mais fraco.

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