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Giselle Mathias

Advogada em Brasília, integra a ABJD/DF e a RENAP – Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares e #partidA/DF

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Sobre o medo de Amar!

Não sei se conseguirei superar o medo que tenho desse sentimento, e se não irei sabotá-lo se surgir novamente, mas deixo aqui esse relato para uma reflexão, para pensar sobre o que estamos valorizando, sobre como usamos o nosso tempo, o quanto nos isolamos daqueles que estão a nossa volta, e indago: Por que tememos a possibilidade de somente amar o outro?

Quando adolescente li o livro “O Banquete” de Platão, um debate entre filósofos sobre o Amor. Me encantei com o debate e com a definição que mais se encaixou no meu querer e na minha crença do que deveria ser esse afeto tão desejado por todos.

A definição apreendida por minha leitura descrevia o amor como um sentimento tão belo, e quando belo, vivido a partir do ver o outro, amar o ser, o sim e o não. A virtude desse afeto está ligada ao senti-lo puramente pelo ser, sem a construção do que a partir dele possa ser conquistado, frutificado, e sem interesses outros que não seja apenas amar o ser amado.

No decorrer da vida observei que apesar de acreditar nesse amor ainda não havia desfrutado dele, e quando me deparei com essa realidade, simplesmente, entristeci. Trago aqui essa minha sensação porque me parece que não sou a única, e que talvez essa minha percepção seja a de muitas outras pessoas, diante do que nos é vendido como amor, e ao final mais nos afasta de vivermos esse sentimento do que nos estimula a senti-lo. 

Enquanto jovem, mesmo sem ser religiosa, amei como deveria, com a intenção de construir uma família, pois os filhos seriam o resultado de tal sentimento, o fruto do amor iniciado na infância e concretizado na juventude. Casei-me, tive filhos, amei conforme o figurino estabelecido no senso comum da sociedade, cumpri meu papel.

Cheguei em um momento que passei a questionar esse formato, voltei a sonhar que o afeto tão desejado fosse como aquele por mim aprendido no “Banquete”, não o encontrei em meu casamento, e o resultado foi o fim do que para mim já não fazia mais sentido, pois não amávamos o que éramos, o amor havia sido construído no que nos propomos enquanto casal e a sociedade, a construção de uma família.

Imaginei a partir daí que o recomeço da minha vida aos 45 anos seria algo calmo, sereno, um sentimento maduro, amistoso e que o parceiro seria apenas para uma boa companhia, sem muitos sobressaltos e arroubos juvenis, pois o sentido dos afetos teria se alterado com a idade, talvez o que imaginava como amor se realizaria, mas sem a intensidade da menina, seria apenas um gostar.

Mas hoje não posso dizer que a forma como vejo e acredito no amor não tenha se realizado, a verdade é que realmente experimentei essa sensação que tanto desejei, amar e desejar alguém pelo que ele é, pela troca de olhares, impressões, cheiros, conversas, o tom da voz, sotaques, desejos e cumplicidades, sem a expectativa do amor se realizar a partir do esperado filho e do que esperam de uma relação à dois, mas o sentimento se realizar somente pela vontade e querer de estar junto, sem os planos impostos culturalmente do amor para a procriação, exigido da juventude.

Porém, surpreendentemente, quando conheci esse homem que me fez ver a possibilidade de viver o amor sonhado por mim, me apavorei. O medo tomou conta de mim, não consegui levá-lo adiante porque ainda estava tomada por toda uma construção cultural, formada na crença, mesmo que eu tente rejeitá-la, que o amor só faz sentido quando há um fim, o objetivo comum de construir a família tão defendida e propagada pela sociedade.

Não consegui enxergar a possibilidade do amor pelo outro, simplesmente, por ser quem é, me vi incapaz de proporcionar aquele ser o que “deveria”, acreditei que o amor que sentia não era suficiente, pois apenas proporcionaria a ele o que sou, nada além.

Diante desse pavor fugi e decidi que a única coisa possível era esquecer, e apagar aquele sentimento tão forte que até doía. Obviamente, não foi nada fácil, o tempo cura, mas demorou muito para que a ferida se fechasse.

O que aprendi após ter deixado o medo tomar conta de mim, e não ter vivido o sentimento do amor que desejei desde a juventude, mesmo que fosse por pouco tempo, foi o quanto perdemos a possibilidade de nos sentirmos plenos, gozarmos a felicidade, vivermos a inteireza do ser e, simplesmente, amar, por causa de individualismo exacerbado, crenças em meritocracias, apegos a status e idolatria ao consumo, comportamentos que nos reduzem e impedem de darmos vazão a nossa essência humana.

Não sei se conseguirei superar o medo que tenho desse sentimento, e se não irei sabotá-lo se surgir novamente, mas deixo aqui esse relato para uma reflexão, para pensar sobre o que estamos valorizando, sobre como usamos o nosso tempo, o quanto nos isolamos daqueles que estão a nossa volta, e indago: Por que tememos a possibilidade de somente amar o outro?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.