Sobre o pastor do PSOL Rio

O que realmente está por trás dessa "crucificação" do Pastor Jeferson, do PSOL? Ele tem sim diferenças com o programa do partido, mas como eu tenho, como Heloísa Helena e vários militantes tiveram

"Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias, e escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes." (1 Corintios 1: 27)

Jesus Cristo foi um revolucionário provocador de "mansas" tempestades sociais no tempo em que viveu, nunca coube nos templos e muito menos na lógica formal ("Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer a paz, mas espada"). A poderosa Roma o cassou como subversivo; foi rejeitado pelo status quo e sempre defendeu os "invisíveis", como a mulher samaritana na fonte de água ao meio dia, e a adúltera do "atire a primeira pedra".

A Ele couberam as calúnias, mentiras, difamações e desconstrução do que realmente era; a Ele coube a cruz.

Mas o maior peso desta cruz, com certeza era por ela lhe ter sido destinada pelos seus. Foram os Vendilhões do Templo travestidos de altos sacerdotes que compraram Judas com 30 moedas, foram eles que incitaram o povo contra Jesus: "Senhor, perdoai-os, eles não sabem o que fazem".

Infelizmente, ao longo de nossa história a arma mais poderosa para destruir nossos opositores ideológicos (ou nossos "Companheiros" incômodos), que não conseguimos cooptar, tem sido a mentira com o objetivo da desconstrução. Assim, condenam-se os adversários não pelo o que fizeram, mas pelo que não fizeram.

Foi assim na inquisição, no nazismo, no macarthismo, durante a ditadura militar brasileira e tem sido assim nos dias de hoje com muito mais intensidade através das redes sociais. Através delas criam-se informações ao bel prazer de cada um, transformando em verdade simplesmente a partir de sua repetição, ou seja: aquele que detiver a maioria dos frequentadores de um determinado espaço pode transformar alguém em herói ou bandido em questão de horas, afinal

"Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade."

Joseph Goebbels, Min. Propaganda de Hitler.

Igual estratégia tem sido usada por um grupo de integrantes do PSOL RJ para atacar seus opositores internos, ferindo a todos os preceitos morais e éticos, uma vez que não há ética na mentira e muito menos em se condenar alguém publicamente sem lhe dar o direito de defesa e do contraditório. Sim contraditório, a possibilidade de contra argumentar, no caso do pastor Jeferson, figura em questão, de poder explicar fatos que são levantados contra ele.

No centro da argumentação, o PSOL Rio lhe nega a legenda para disputar as próximas eleições para deputado federal sob a alegação de que ele teria sido infiltrado pelo famoso pastor Silas Malafaia para barrar a eleição de Jean Wyllys.

Não que discorde que o referido "pastor" não seria capaz de fazer tal coisa, é conhecida sua posição sobre o PSOL e particularmente, a campanha difamatória (porque vai além do que Jean realmente defende, para caluniá-lo pelo que ele não faz) que articula contra Jean Wyllys.

Conheço a capacidade dos Vendilhões do Templo em defender a "vida e a família" ao falar de aborto, mas também conheço sua omissão criminosa quando se trata de defender a vida e a família quando nossos hospitais públicos são privatizados levando a um verdadeiro genocídio de nosso povo pobre, os mesmos que Cristo nos mandou amparar. Sua omissão e de suas "bancadas" tem marcas nas escolas sucateadas, na segurança militarizada que "caça" e assassina nossa juventude pobre.

Mas sou contra o aborto. Isto automaticamente me identifica com eles, passo a ser uma conservadora de direita, vendilhona de templos por isto? Há respeito a diversidade em me taxar de "infiltrada" por alguém que publicamente me proponho a negar?

O pastor Jeferson tem sim diferenças com o programa do PSOL, como eu tenho, como Heloísa Helena e vários militantes tiveram – objeção de consciência, por motivos filosóficos ou religiosos - o que é inclusive resguardado pelo estatuto partidário. O pastor Jeferson sim, até agora, viveu e desenvolveu relações dentro do mundo evangélico (algumas ao meu ver sim, bem questionáveis), mas também é sindicalista, militante de causas sindicais e sociais. Foi um dos fundadores do PT no município de Itaboraí, onde até hoje participa de lutas importantes para a cidade, ao lado dos operários do COMPERJ, enfrentando as grandes empreiteiras e suas milícias.

O que realmente está por trás dessa "crucificação" do Pastor do PSOL?

Alguns parlamentares, medalhões do partido, de olho nas eleições de outubro próximo, falam constrangidos que o problema não é ele ser pastor evangélico, afinal o PSOL tem pastores também, e tremulam como se fossem bandeiras ou flâmulas dois pastores "progressistas" pertencentes a igrejas históricas que a muito já militam o programa partidário. Dois pastores de "estimação" para o PSOL Rio mostrar sua tolerância com as diferenças...

Mas parece preconceito e é!

Organizar o igual é fácil, difícil é, como partido que se propõe a enfrentar disputas na institucionalidade, a disputar poder político nesta sociedade; enfrentar a realidade crescente dos milhões de trabalhadores e suas famílias, das grandes cidades periféricas de nossas capitais, que movidos pelas exploração, opressão, discriminações, assédios, violências etc, buscam com suas conversões espirituais lenitivo para tanta dor.

O PSOL está pronto para dialogar com estes com "ouvidos de ouvir"?

O PSOL aceita em seus quadros, está pronto a filiar evangélicos pentecostais e neo-pentecostais?

No seu projeto de sociedade e em um governo seu cabem a todos do povo, ou diferenças filosóficas e religiosas nos impedirão de tentar ganhar a esses para nosso projeto?

Sou evangélica, me converti na visão da igreja Bola de Neve, mas minha conversão foi espiritual e não política. Com meus votos, meu sentimento de justiça social, de solidariedade e minha paixão por construir uma nova sociedade onde os laços de fraternidade e igualdade sejam a marca só aumentaram. Continuo achando necessário lutar contra a exploração e a opressão, venham de bancadas auto intituladas de evangélicas, mas que escolhem quais causas "evangélicas" defendem melhor seus bolsos (resguardando lógico as honrosas exceções que em todo lugar há); ou de uma esquerda salvadora, que quer salvar o povo desde que tomem "banho" para cheirar melhor, e repitam em um quadro negro imaginário a lição corretora de suas inaceitáveis diferenças.

Sou fundadora do PSOL, recolhi muitas assinaturas para viabilizá-lo. Já naquela época eu e outros erámos contrários ao aborto, a legalização das drogas, a legalização da prostituição como forma de garantir direitos a homens e mulheres que precisam muito mais do que a afirmação de sua condição de degradação e exclusão para serem felizes. Isto não me impediu de fazer lutas honradas ao lado de servidores, bombeiros, catadores, rodoviários, operários do COMPERJ; isto não me impediu de lutar intransigentemente no parlamento pelos interesses do povo, de defender as demais bandeiras partidárias. Foi para isto que construímos a cláusula de exceção de consciência.

Podemos ganhar o Pastor Jeferson e muitos outros evangélicos pentecostais e neo pentecostais para a boa política e para fortalecer o programa socialista também entre evangélicos, mas para isto temos que perder o medo do contato, precisamos estar abertos as contradições reais que podem nos conectar com o povo pobre, sem capitular a um imaginário que pretendemos transformar.

 

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