Socialistas e Fascistas: Aquietai vós, ó mal tanático! Não solteis a mão de Eros!

Por mais doloroso que se possa ser, é preciso entendimento, esclarecimento e uma nobilíssima humildade para perceber que mal e bem coabitam a nossa espécie, estão no psiquismo de cada um de nós, similitudes do amor e do ódio, estão de mãos dadas dentro de cada sujeito psíquico, da sociedade e da cultura

“Essa sociedade, de certa forma, é mais perversa que os perversos que ela não sabe mais definir mas cuja vontade de gozo ela explora para em seguida melhor reprimi-la”.

– Elisabeth Roudinesco, A parte obscura de nós mesmos – Uma história dos perversos, Zahar, RJ, 2008, p. 185.

Nunca imaginei a vida, em suas infinitas manifestações, a partir de uma visão dualista-maniqueísta, num confronto moral (e mortal) entre o bem e o mal. Sempre pensei na possibilidade da existência individual e coletiva engendrada por um logos (grego λόγος – palavra razão, verdade, beleza) e um ethos (do grego ἔθος ≅ hábito, costume, caráter, disposição individual ou/e coletiva) como princípios mínimos de civilidade nos quais fosse possível certo diálogo entre a vida e a morte, pelo menos numa configuração de pontos intersticiais comuns onde houvesse um embate predominantemente no campo conversacional civilizado entre as diferentes forças.

Mas o que é o bem no sentido que trago aqui?

Respondo que o bem é tudo aquilo que não destrói impiedosamente a civilização e a vida.

E o mal, o que é?

O mal é tudo aquilo que destrói, de forma impiedosa, a vida e a civilização.

É possível conciliar ambos: o bem e o mal?

A história contada e escrita sobre os homens pelos homens nesta Terra traz um espetáculo onde os atores principais alternam entre si o protagonismo principal em suas batalhas: ora triunfa Eros, noutra Thanatos. Porém, em todos os enredos dos combates entre eles, tanto nos aspectos temporais diacrônico quanto sincrônico, apenas existem esses dois personagens, são unha e carne, frio e quente, noite e dia, luz e trevas, amor e ódio, todavia os seus destinos são espirais complementares, às vezes descendentes, outras vez ascendentes. Nesse embate eterno, o homem racional centrado em seu inflado ‘ego’ é apenas o narrador do verdadeiro espetáculo que se desenrola à sua mercê.

A agressividade e a violência sempre habitaram a História da Humanidade, suas páginas estão marcadas por muito sangue. Não menos sujas de sangue estão as histórias de amor e das paixões como um suposto bem supremo.

Diferente dos elétrons e prótons, partículas negativas e positivas antagônicas que compõem a matéria, mas que no entanto se interagem de forma construtiva na produção de campos de força vitais à natureza e à vida na Terra, o psiquismo humano selvagem e arcaico, estagnado e fixado na mais remota infância, movido pelas intensas forças pulsionais inconscientes completamente amorais/imorais, sempre estão à espreita para a realização do prazer imediato.

Mesmo que contra o império do ‘superego’ consectário das imposições culturais morais, as forças pulsionais abundantes oriundas do inconsciente travam também lutas homéricas com o ‘ego’ (‘mediador psíquico’), frequentemente triunfais, pois primitivamente não conseguem adiar suas descargas no objeto eleito como o seu alvo, o objetivo é gozar a todo o custo, mesmo que eliminando o seu alvo, aliás, é o que mais se vê, mesmo quando esse alvo é um sujeito com o mesmo desejo inverso e complementar de seu gozador, ou seja, nesse aspecto ambos gozam, tanto o ‘perverso-sádico’ quanto o ‘masoquista-perverso’). Todavia, neste sentido não há evolução, sublimação ou vida produtiva, senão fixação mortal e restos culposos patológicos nos neuróticos.

Na lógica da peleja entre os pares dos ‘desejos perversos’ como no antagonismo de ‘desejos combativos em campos e objetivos diferentes’, não pode haver civilização, pois há uma destruição mental à dois (folie à deux, ou melhor, perversion à deux), consequentemente a autodestruição dos sujeitos envolvidos nas tramas no primeiro caso (‘par perverso’) e uma agressividade/violência no segundo caso (‘desejos de campos opostos não complementares’), haja vista o estabelecimento de vínculos às barbas e às garras de Thanatos (morte, mal), embora no primeiro caso Thanatos possa se ‘travestir’ de Eros.

Portanto, nesta direção, para haver civilização é necessário existir vida desejante além da horda primeva onde se fixou de forma atemporal a pulsão de morte: aniquilação e barbárie. Nela os homens não se sobrelevam à condição de sujeitos singulares desejantes, mas tão somente a objetos-meios de gozos entre si e/ou contra si. Destruidores e destruídos, os atores se dizimam ao se deleitar num ritual gozoso de prazer/desprazer ilimitado, portanto sem a referência da ‘Lei Primordial’ que inaugura o processo civilizatório.

Entretanto é importante destacar que não se deve pensar o par ‘vida e morte’ como um processo mental e social onde eles (‘vida e morte’) são excludentes entre si. Ou seja, talvez seja necessário pensar a civilização a partir do dualismo não-excludente entre os pares postos e opostos: Sempre pulsão de morte ‘e pulsão de vida, jamais pulsão de morte ‘ou’ pulsão de vida. Não se deve tratar de o mal contra o bem e vice-versa, mas do mal e do bem numa mesma unidade, sujeito, sociedade, cosmos…

Não obstante, a Psiquiatria Moral Justiceira, desde a sua invenção pelo Estado burguês insiste em classificar, tipificar e patologizar os ‘desviantes’ de seus códigos morais como aberrações da natureza, eliminando Thanatos do ‘Grande Projeto Vida,’ excluindo assim o par do oposto complementar Eros (Thanatos) para uma ‘compreensão integrada’ da Civilização humana, embora a Psicanálise lhe escancare a força tanática instalada em todos processos psíquicos, condição elementar para avançar a compreensão do psiquismo e pensar em uma ‘possível direção de tratamento’ que não exclua nem reclua a ‘perversão’ em suas prisões químicas e/ou sociais. A Psicanálise nos trouxe aquilo que a Psiquiatria Clássica recalcava, desmentia ou foracluía: ‘Todos nós somos perversos, de alguma forma’. Não sê-lo seria denegar ‘as pulsões e as suas vicissitudes’ na origem de nossa formação mental.

Portanto não cabe à Psiquiatria, aliada aos Códigos Jurídicos e à ética moral de Kant, passar a borracha no texto psicanalítico tampouco na escrita do psiquismo em sua integralidade, prescrevendo o ‘bem psiquiátrico moral’ para todos.

Mas porque é imprescindível considerar a ‘pulsão de morte’ (o mal) inerente natural do psiquismo, da cultura e das sociedades em geral?

A constituição do psiquismo e da cultura trazem em si as duas forças: vida (produção, construção) e morte (letargia, destruição) – não confundir destruição com desconstrução, que também faz parte da vida.

O psicanalista, escritor e professor (UFRJ), Luiz Alfredo Garcia-Roza, no livro: “O mal radical em Freud”, Ed. Zahar, trouxe uma importante contribuição nesse sentido, entendendo a pulsão de morte (Thanatos – metáfora) como algo distinto de um mal radical do psiquismo, mas principalmente como uma força de reconstrução, reconfiguração.

Havemos de concordar que para terminar uma relação ou uma situação degradante ou mortífera precisamos não apenas de Eros (pulsão de vida) – a força configuradora do bem, da aliança –, senão também da força contrária de Thanatos para elidir, romper com o mal anteriormente erigido, visto num primeiro momento com um bem (Exemplo: as ‘coisas do amor e das paixões’).

Desta forma, retorno com os conceitos aqui forjados sobre o bem e mal: o primeiro é tudo aquilo que impulsiona a vida, a própria vida. O segundo é tudo aquilo que desacelera e impede a vida de evoluir, a própria morte.

Talvez importa também trazer um pouco de Kant (no qual o objeto do desejo era recalcado) e um pouco de Sade (trouxe à tona aquilo – objeto do desejo – que Kant trabalhou herculeamente para recalcar). Nem só a moral kantiana tampouco a perversão sadiana. Melhor Kant com Sade, conforme compreendeu e nos ensinou o psicanalista Jacques Lacan, citado pela psicanalista e historiadora francesa Elisabeth Roudinesco, no livro: ‘Lacan, a despeito de tudo e de todos’, Editora Zahar, 2011, p. 144/145:

“Lacan considerava a transgressão como tão necessária à civilização quanto a ordem simbólica que permite remediá-la. (…) Essa é a lição humanista de ‘Kant com Sade’, corolário da substituição de Édipo por Antígona. Mas esse texto reflete igualmente a imagem do próprio Lacan, tão transgressivo quanto apegado à ideia de que apenas a Lei é suscetível de pôr limites ao desejo de gozar das coisas, dos objetos, dos humanos e dos não humanos”.

Não obstante, a meu ver, compreende-se melhor a relação ‘Kant com Sade’ através daquilo dito por Jacques Lacan (1901-1981) no livro: “O triunfo da religião”, p. 81, Jorge Zahar Ed., RJ, 2005:

“Alguém ainda há pouco atribuiu-me um kantismo de forma totalmente gratuita. Só escrevi uma coisa sobre Kant, é o meu pequeno escrito “Kant com Sade”. Para encurtar, faço de Kant uma flor sádica. Ninguém deu a menor atenção a esse artigo. Alguém o comentou em algum lugar, nem sei se foi publicado. Mas ninguém me respondeu sobre esse artigo. É verdade que sou incompreensível”.

O que seria “faço de Kant uma flor sádica” dito por Lacan?

Muito bem. Lacan não está mais vivo para responder isso de forma direta. Mesmo que estivesse, em nada seria garantida a compreensão de sua resposta, conforme a sua asserção acima: “É verdade que sou incompreensível”.

Contudo, na teia em que tece este pequeno escrito, respondo por mim, de modo especulativo, a partir de a leitura de alguns textos de Lacan e de Kant.

Kant recalcou o ‘desejo inconsciente’ e impôs uma razão prática moral estritamente vinculada à razão pura do campo da consciência, o que pode ser lido em sua obra: “Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos”, Ed. Martin Claret, SP, 2011:

“Pelo que foi dito vê-se claramente que todos os conceitos morais têm a sua sede e origem completamente a priori na razão [pura], e isso tanto na razão humana mais vulgar como na mais especulativa (Kant, p. 42).

(...) Não há ninguém, nem o pior facínora, se está habituado a usar a razão, que não deseje, quando se lhe apresentam exemplos de retidão nas intenções, de perseverança na obediência a boas máximas, de compaixão e universal benevolência (ainda por cima unidas essas virtudes a grandes sacrifícios de interesses e de bem-estar), que não deseje, digo, ter também esses bons sentimentos. Mas não pode consegui-lo em virtude de suas inclinações e apetites, desejando todavia, ao mesmo tempo, libertar-se de tais tendências que a ele mesmo o oprimem (...)”.

E prossegue Kant:

“(...) Demonstra com isso, pois, que em pensamentos se traspõe, por uma vontade livre de impulsos da sensibilidade, a uma ordem de coisas completamente diferente de seus apetites no campo da sensibilidade, pois daquele desejo não pode ele esperar nenhum prazer dos apetites e, portanto, nenhum estado satisfatório para qualquer de suas inclinações reais ou imaginárias (pois que então poria a perder a excelência da própria ideia que lhe arranca esse desejo), mas tão somente um maior valor íntimo de sua pessoa. Essa pessoa melhor, acredita ele sê-lo quando se situa no ponto de vista de um membro do mundo inteligível, e que involuntariamente o impele a ideia da liberdade, isto é, da independência em relação a causas determinantes do mundo sensível. Desse ponto de vista, ele tem a consciência de possuir uma boa vontade, a qual constitui, segundo a sua própria confissão, a lei para a sua má vontade, como membro do mundo sensível, reconhecendo a autoridade para transgredi-la. O dever moral é, pois, um quer, só sendo pensado por ele como dever à medida que ele se considera, simultaneamente, membro do mundo sensível.” (Kant, p. 87).

Há que se diga, todavia, que Immanuel Kant (1724-1804) não trabalhava com a possibilidade do ‘inconsciente’ constituído por Sigmund Freud (1856-1939) um século depois, menos ainda com o ‘inconsciente estruturado como uma linguagem’ em Lacan, mas é possível ‘escutar’ do texto de Kant acima que o mesmo já o ‘apontava’ em o seu ‘mundo sensível’ (‘inclinações reais ou imaginárias’, ‘má vontade’, ‘daquele desejo não pode ele esperar nenhum prazer dos apetites’, etc.) tangencial com o ‘mundo inteligível’ (razão, moral, lei), colocando seu dedo no ‘néctar da flor de Eros e Thanatos’, conquanto que o primeiro (‘mundo dos desejos sensíveis’) se subsumisse ao segundo (‘moral’, categóricos imperativos universais’, lei).

Desta feita, pode-se conjecturar que Kant não somente ‘recalcou o desejo’, mas o fez por causa de sua evidente latência em si mesmo. Kant fez do ‘recalque’ o seu principal imperativo categórico universal por saber exatamente de sua força avassaladora. Nestes termos, Kant já exalava o perfume do ‘desejo sexual inconsciente’: Kant foi “uma flor sádica” ao editar o seu ‘recalque’ como norma obrigatória universal para o Outro através da ‘razão prática moral’, contra à qual Sade se sobrepôs de forma radical, principalmente em seu texto e em suas ‘imposturas de condutas’.

É imperioso mencionar que a ‘Lei’ referida neste texto está distante de ser aquela dos tratados, doutrinas, códigos e normas do nosso Direito moral e racionalista, sobretudo trata-se da ‘Lei’ enquanto ‘castração simbólica psíquica’ que impõe a ‘proibição do incesto’, mecanismo fundador da Civilização, já dito acima, sendo o Direito e a Justiça meras consequências dessa primeira ‘Lei Civilizacional’.

O Direito e a Justiça apenas apontam as condutas delituosas e a suas possíveis punições/remissões, baseados em princípios morais sem qualquer fundamentação inconsciente, pois trazem em seus bojos a racionalidade binária consciente excludente para tratar as vicissitudes humanas no campo moral da cultura, numa apologia direta aos imperativos categóricos universais morais kantianos como norma civilizacional, ‘repudiando’ de seu pensamento e do seu campo de ação o mal radical como força imanente ao humano, porém dela (pulsão de morteo mal) contraditoriamente se valem para vingar-se dos contraventores de suas normatizações morais.

Não é sem motivo que a Psiquiatria e a Psicologia Moral andam sempre coladinhas no Direito e na Justiça, pois buscam uma terapêutica higienista na tentativa de adaptar os sujeitos à realidade. Qual realidade? As suas: a realidade moral. Contudo claudicam permanentemente em seus meios e fins, pois extirpam a outra perna do psiquismo: Thanatos.

Por mais doloroso que se possa ser, é preciso entendimento, esclarecimento e uma nobilíssima humildade para perceber que mal e bem coabitam a nossa espécie, estão no psiquismo de cada um de nós, similitudes do amor e do ódio, estão de mãos dadas dentro de cada sujeito psíquico, da sociedade e da cultura. (O mal não está ali, apenas no Outro. Ele está aqui, em mim, em ti, em nós).

No Bra’z’il atual, fulminado por um Golpe de Estado em 2016, vivemos um período pré-eleitoral/2018 em que de um lado há os representantes da chamada esquerda, defensores e herdeiros intelecto-emocionais do Projeto Marx/Gramsci, carregando a bandeira do ideário da Revolução Francesa (1789): Liberdade/Igualdade/Fraternidade (ao qual também me incluo); de outro lado despontam os amantes do Terceiro Reich alemão e dos campos de Auschwitz que prometem vingança à bala contra os impuros raciais, mulheres, homossexuais, petistas, etc.– uma reedição tupiniquim do arianismo hitleriano -. Seu lema principal: “Bandido bom é bandido morto”.

Talvez fosse prudente lembrar aos dois lados, um pouco mais aos higienistas arianos armados, na medida em que brilham em nossos olhos alegorias funestas de blindados esverdeados, pedras, tiros, sangue e bandidagem:

Aquietai vós, ó mal tanático! Não solteis a mão de Eros!

Conforme Lacan, “Kant com Lacan”, sempre.

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