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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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Soledad Barrett como num cântico guarani

Para o Dia Internacional da Mulher

Soledad Barrett Viedma (Foto: Reprodução)

Então eu a vejo como se na porta aguardasse o toque da transformação, o carinho, o bico do pássaro para absorvê-la e tragá-la entre as suas pétalas. Ela estava ao meu lado, em pose ioga, mas a recordo – num transporte cuja razão ignoro –, mas eu a lembro em pé, de mãos contra a parede, à espera do beijo. Digo em pé, de mãos contra a parede, e essa recordação me dói, por saber dela, meses depois, na mesma posição. Por isso minha lembrança evita a dor e voa para aquele instante da bela paraguaia à distância de meio braço de mim. Os índios sabem por quê. Há um cântico de criança guarani que diz: “Têtã ovy rauy’i / Eikere xevy, eikere devy”, ou “Filha do paraíso azul / Diz, entra para mim”.

Ñande Reko Arandu - (2000) Memória Viva Guarani [Full Album]

Assim a senti e a vi, embora nada soubesse, naquela noite, que ela fosse paraguaia. Nem muito menos que ela cantasse, como soube depois, muito depois, cantos de acalanto guarani. Que coisa estranha é o homem, a pessoa; quanta estranheza reside em nós mesmos. Era como se houvesse uma sirene no ar, sinal de ambulância, de carro de polícia, de anúncio de coisas que virão, mas que, não ouvida por todos, apenas se ouvisse em ouvidos de cachorro. Por isso a senti numa trepidação inaudível.

Ocorrem-nos sentimentos muitas vezes sem explicação, sem uma causa clara, se podemos alimentar a esperança de que todas as coisas tenham uma causa. As pessoas do povo têm uma frase que expressa melhor um fato sem explicação: “Isso tem lógica?”. Se tiver, não é mecânica, nem está no reino do cálculo das probabilidades. Por que desejei falar a Soledad, em uma língua que desconheço: “Filha do paraíso azul, entra para mim”? Eu a queria, é certo. Mas não é certo que a quisesse na pessoa do mundo escuro que eu não sabia. Devo dizer: o natural é que amemos com as informações visíveis e conformes à nossa história. É natural, ainda, que amemos as informações invisíveis aos olhos, mas visíveis, pelo que sentimos, em outros sentidos: na voz que emana, no calor, no cheiro do corpo, nas palavras que se usam, no vocabulário, na sintaxe, no gosto dos ambientes por onde a pessoa transita, transitou ou transitava. Mas nada então me poderia dizer que eu pudesse amar Soledad como se ama uma mulher paraguaia, como se ama uma mulher que canta cantos guaranis. Nem muito menos com uma intuição do que lhe ocorreria. Numa fábula, em uma narração fabulosa, seria simples. Bastava fazer com que ela dissesse as palavras que não disse. Bastava que ela mostrasse então, naquela noite em Olinda, o que não mostrou, o que não poderia mostrar, em razão de sua segurança. Bastava que ela dissesse: “Eu sou uma mulher que age como as mulheres libertárias de nosso continente”. Ou mesmo: “Sou o que serei. Sou o que seria. Sou agora como serei lembrada”. E mais, para que ela agisse conforme a minha necessidade: “Vamos, poeta. Quero e desejo o teu ser mais oculto. Toma o meu corpo e alma, toda e total”. Então ela seria mais de acordo com o que poderia ser, ou poderia ter sido. Acreditem, então seria mais de acordo com a lógica, porque eu falaria do que teria havido. O reino do “era uma vez” instala sempre a sua própria razão. O que é diferente do falar só fábula do que não houve, do que não pode ser testemunhado, do que não pode ser provado por filme ou gravação escondida naquela sala, em 1972. Mas que é, ainda assim, mais real que o plano da hipótese lógica, verossímil, do era uma vez, do tempo em que os animais e objetos falavam. E não é espiritismo, que dá lógica ao inanimado quando o anima. Quero dizer, falo agora do que não via antes, melhor, do que eu via sem atingir a conhecida consciência. Isso porque, ao escrever, não só redescubro, descubro também, por força do cheiro e do instinto da meditação. Estas linhas de agora me fazem ver, com os olhos da reflexão, o sentimento que me ficou e eu não percebia então.

Penso agora que há uma substância compreendida só à distância. Como se fosse uma colcha de retalhos, que no presente só se deixa ver no retalhinho, no quadradinho cortado, ou, no máximo, nos pequenos quadrados da vizinhança. Se aqueles quadriláteros de pano fossem o tempo, se eles encarnassem a duração do ato de, em paciência, serem costurados, então seria visto que só conhecemos a beleza, o conjunto harmônico, entretecido com o sangue e suor de que somos feitos, quando estamos longe. Descobriríamos que somente a distância do que víamos e julgávamos como o real, o conceito, revela aquele quadrilátero. E dizemos quadrilátero, coitados, porque nem mesmo a visão dos quatro lados tínhamos, nem mesmo dos lados, devo dizer, porque éramos insetinhos minúsculos a resvalar na estreita porção do pano. E nos dizíamos: Soledad é este pano. Mas o homem é um ser dotado de grandeza, até mesmo no ponto em que se amesquinha. Devo dizer: o inseto, ainda que mantido somente no passado – naquele presente – tem antenas que capturam além do visto, ainda que, estúpido, perceba agora só o momento. Quero dizer, percebe na consciência, naquilo que ele pensa que sabe, naquilo que ele toma como o real, porque visível de imediato e percebido nas formas exteriores da superfície. Disse “antenas”, mas a palavra é imprópria, porque com ela quis dizer “instrumento de captar futuro”. Mas o futuro é orgânico, é germe no presente e semente que um sentido não explicado configura. Um não explicado a que chamam, por ignorância, de “sexto sentido”. Uma ignorância que lembra a dos médicos que classificam com nomes gregos os males que a medicina mal descreve. Mas aqui, Soledad, o sexto sentido possuía de ti um senso do qual nem mesmo tu sabias. Não me refiro mais ao canto guarani, que em ti era uma identidade revelada quando olvidavas tuas defesas de segurança. Quando tu acalentavas uma criança, como a lembrar o que ouviste em algum interior paraguaio ou na fronteira. Isso, a percepção disso, porque nada me disseste sobre tais acalantos, já seria um sexto sentido. Mas me refiro a um reino e gosto de antevisão que senti, que “senti”, devo dizer, ao ter a tua presença a meu lado, à distância e alcance de meio braço. Como uma prospecção que antevisse o refino. Ou, para ser menos prosaico, como um sonho premonitório.

Do livro “Soledad no Recife”

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.