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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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Soledad Barrett presente no 8 de janeiro

A memória dos assassinatos de 1973 no Recife reafirma a urgência de lembrar, denunciar e exigir justiça contra os crimes da ditadura brasileira

Soledad Barrett Viedma (Foto: Reprodução)

Ontem, no 8 de janeiro, no centro do Recife, lembrei Soledad. Mas, como a minha voz embargava, escrevi num papel para que o animador da concentração de protesto lesse:

"Em 8 de janeiro de 1973, houve 6 assassinatos de patriotas, traídos pelo Cabo Anselmo. Entre eles estava Soledad Barrett, grávida do Cabo Anselmo. Aqui no Recife!". Sem poder falar, apenas ergui a mão enquanto o animador lia. O público aplaudiu a sua memória.

As linhas que rascunhei rápido num panfleto expressavam o que pensei falar. Diante do microfone, eu falaria o que recordo agora.

Os escritores raramente conseguem ser bons de fala. Eles são menos ruins quando escrevem. E mais difícil fica esta fala quando me refiro a crimes brutais acontecidos no Recife que amamos e queremos. Neste 8 de janeiro, quando no Brasil inteiro temos manifestações a favor da democracia, como uma lembrança do que os fascistas tentaram há três anos, nós, democratas, escritores e cidadãos, temos mais razões para lembrar neste dia.

Pois foram aqui os assassinatos bárbaros contra militantes socialistas, pessoas honradas e dignas, destruídos em seus corpos em 8 de janeiro de 1973. Como esquecê-los? Como apagá-los de nossas vidas? Mas, como uma ameixa de hemorragia sobre os assassinatos, esteve o da guerrilheira brava cujo nome era poético desde o nascimento, Soledad. Soledad Barrett, a mulher que todos aprendemos a amar quanto mais compreendemos a sua memória. Sobre Soledad escrevi primeiro “Soledad no Recife”, em que assumi o narrador apaixonado por sua vida, que estava embaraçada pelo Cabo Anselmo. Até o fim, Anselmo, quando o canalha a entregou para a morte ao nazista Fleury. Depois, Soledad retorna no romance “A mais longa duração da juventude”, onde conto atos inomináveis de deboche e traição do Cabo Anselmo contra ela.

Mas agora, amigas e amigos, nossa tarefa de escritor e homem público é a de continuar a memória e a denúncia dos crimes fascistas da ditadura no Brasil. O que, numa palavra de ordem, de ordem da consciência, quer dizer: Soledad, não morreste em vão. Jarbas, Pauline, Eudaldo, Evaldo, José Manoel, vocês não morreram em vão. O povo do Recife rejeita, repudia e pede uma punição definitiva contra os crimes cometidos contra todos os patriotas.

Presente, presente, presente.....

Mas, como a minha voz não estava no meu domínio, pois ela se misturava a uma emoção vexatória que não me deixava falar, apenas rascunhei: em 8 de janeiro de 1973, houve 6 assassinatos de patriotas, traídos pelo Cabo Anselmo. Entre eles estava Soledad Barrett, grávida do Cabo Anselmo. Aqui no Recife.

Em resumo: Soledad, presente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.