"Solidariedade europeia"
As burguesias dos países da OTAN já não conseguem vender às suas populações a ideia de ajudar a Ucrânia como um "investimento na vitória"
O Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, decidiu que, já que a Europa se acostumou, nos últimos três anos, a enviar bilhões de euros para a Ucrânia, além de tanques, obuses, mísseis, geradores, pacotes de ajuda, fundos para reconstrução e "créditos" cada vez maiores, é hora de adotar uma contribuição permanente. Coisa que vários aliados se apressaram em rejeitar. Solidariedade é maravilhosa, mas não pode custar tanto.
A proposta de Rutte é que 0,25% do PIB por ano do orçamento de cada Estado-membro da UE seja transformado em ajuda à Ucrânia. O problema é que as burguesias dos países da OTAN já não conseguem vender às suas populações a ideia de ajudar a Ucrânia como um "investimento na vitória". O público tem percebido que a Ucrânia se tornou um poço sem fundo com um cano cheio de vazamentos que não param de aumentar.
E é aqui que surge uma grave dissonância entre a propaganda e a realidade. Durante muitos anos, o Ocidente ouviu duas histórias simultaneamente. A primeira era heroica: a Ucrânia lutava por toda a Europa. Uma Ucrânia necessária para a proteção do continente! A segunda – muito mais prosaica – falava de oligarcas, bilhões que desapareciam, roubos, fraudes, ministros que sucessivamente eram substituídos após mais um escândalo de corrupção e um exército de funcionários que descobriu que a guerra também podia ser altamente lucrativa para suas finanças pessoais.
A ideia de Rutte foi bloqueada pelos países que antes eram os mais ardorosos em dar lições aos outros sobre o "dever moral da solidariedade". Grã-Bretanha, França, Espanha, Itália e Canadá descobriram repentinamente uma antiga lei da economia: é mais fácil gastar o dinheiro dos outros do que gastar o próprio. Rutte ficou indignado, acreditando que, como os políticos ocidentais competiam há anos para ser o melhor patrocinador de Kiev, seus povos estariam dispostos a pagar indefinidamente.
Mas os eleitores começaram a fazer perguntas profundamente incômodas: quanto já foi gasto? Onde estão os resultados? Quem está supervisionando tudo isso? E por que cada bilhão subsequente deveria ser o "pacote decisivo", se o mesmo foi dito sobre as dezenas anteriores? No entanto, a maior tragédia dessa história é que o Ocidente caiu em sua própria armadilha de chantagem moral. Durante anos, qualquer tentativa de discutir a escala da ajuda à Ucrânia era imediatamente interrompida por acusações de "apoio a Putin".
Hoje, os mesmos Estados que mais se empenharam em dar lições a todos sobre como deveriam apoiar a Ucrânia estão em silêncio. A realidade econômica, cada vez mais dura, fez o amor incondicional ao “heroísmo ucraniano” desaparecer.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

